No segundo capítulo, investigamos o uso recorrente do argumento que D. Antônio era o filho do infante D. Luís e, assim, deveria ser o rei de Portugal. Também verificamos que tal argumento expressava tanto a legitimidade como a atribuição a D. Antônio das virtudes do pai. Esta associação era possível graças à crença na capacidade de transmissão das qualidades pelo sangue, como descreve Mafalda Soares da Cunha:
A linhagem era, no entanto, sublinhada como a forma preferencial de demonstrar fidalguia, pelo que era imprescindível, a quem se reivindicava como tal, saber identificar, no mínimo, três gerações anteriores (pai, avô, bisavô) (...) Considerava-se que o sangue garantia a transmissão das qualidades dos antepassados, o que, embora reduzindo as probabilidades, não retirava a possibilidade da perda da dignidade fidalga. A responsabilidade, e também a obrigação, de manter o nível das qualidades herdadas era sempre atribuída a cada fidalgo através da idéia expressa de os erros e maus comportamentos se repercutirem não só sobre o próprio e respectiva descendência, como também sobre todos os seus antepassados455.
O caso de D. Antônio é apenas o mais evidente. A ideia de que a defesa do reino contra Castela era uma obrigação devido à memória dos antepassados era muito comum entre os antonistas. Acreditava-se que o sangue dos antepassados tinha dado a nobreza portuguesa um estado de honra e glória que estaria ameaçado pela incorporação do reino na monarquia espanhola:
Putnam (PUTNAM, Hilary. Reason, Truth and History. Cambridge: Universy Press, 1981). Esta corrente tem sido importante para o desenvolvimento de pesquisas que envolvem o estudo do pensamento político ou das ideias, como pode ser verificado nos muitos trabalhos teóricos de Quentin Skinner (SKINNER, Quentin. Lenguaje, política e historia. Trad. Bernal: Univ. Nacional de Quilmes, 2007) e mais recentemente, os de Mark Bevir (BEVIR, Mark. A Lógica da História das Ideias. Trad. Bauru, SP: Edusc, 2008). A palavra crença em português geralmente se refere à verdade dentro da religião ou em um sentido de verdade fraco; no inglês belief tem um sentido mais forte e aplica-se a qualquer área. Também, uma crença não consiste em uma certeza absoluta, é uma atitude, uma disposição para acreditar que aquilo é verdadeiro, enfim, nosso conceito de crença refere-se a qualquer proposição que um agente considera verdade ou provável que seja. Por sua vez, as crenças não são auto-sustentadas, elas dependem umas das outras no que pode ser descrito metaforicamente como uma rede em que as crenças encadeiam- se através do raciocínio, isto é, dentro de uma coerência. Tal metáfora ilustra o fato que as crenças que um indivíduo ou um grupo social compartilham devem ser vistas como entidades sempre abertas e fluídas (Pois “Though many of our beliefs are here to stay, at other points the body o your beliefs is, we noted, perpetually in flux. Primarily this is because our senses keep adding information”, QUINE, W.O; ULLIAN, J.S., op. cit., 1970, p. 6), em constante realinhamento conforme outras crenças são adquiridas e/ou a experiência no mundo se dá. Não existe aqui lugar para metáforas de profundidade, ou algo que tenha um núcleo ou um conjunto de crenças fundamentais: seu “centro” é virtual depende tão somente do ponto de partida que o historiador deseja abordá-las. (BEVIR, Mark, op. cit., 2008, p. 245-246).
455 CUNHA, Mafalda Soares da. A Casa de Bragança, 1560-1640. Práticas senhoriais e redes
194 quem himos buscar, ou que guerra, fazemos, ou se temos nos a terra, que não ganharão por alança nossos Pays, e Auós, contra infiéis (...) e se Castella no tolher a redificação de nosso Portugal defendernoshemos com o nosso Capitão que será Jesus Christo456. Filipe II era visto como alguém que não compartilhava o mesmo sangue dos portugueses, mesmo sendo ele neto de D. Manuel I. O problema era que os antonistas acreditavam que somente os reis naturais da terra tinham o sangue dos heróis do passado, que, ao custo de seu sacrifício, conquistaram a terra dos infiéis. Assim, dentro desta metáfora do sangue, o rei de Castela era tido como um “padrasto”457.
A crença que o sangue transmite as qualidades ao mesmo tempo em que exige a manutenção destas aproximou o pensamento antonista de outro conjunto importante de crenças: a de defesa da pátria ou da terra natal. Muitos pensadores do período começaram a incluir o patriotismo dentro do Quarto Mandamento: “Honrar Teu Pai e Tua Mãe”. Alguns dos responsáveis por esta aproximação são justamente futuros simpatizantes do antonismo, como o professor de Coimbra Martín de Azpilcueta Navarro, que no seu Manual de Confessor e penitentes458, esclarece que:
por pays em este mandamento, entendemos principalmente (como diz ho Concilio Coloniense) os que nos geraram, e os parentes, a terra, e amigos della, que nos conservam. E segundariamente os governadores ecclesiastios, e seculares. E os que tem cuydado de nos outros, como sam os titores, curadores, mestres e ayos: e ainda todos os próximos segundo S.Boaventura.459.
456 Carta: que se fez em resposta de outra, que nos persuadia que nos entregássemos à Castela e que lhe
não façamos guerra, e os sentidos de seos capitolios são os que seguem apontados ao que responde.
Biblioteca da Universidade de Coimbra – Ms., Nº155. In: FERNANDES, Maria, op. cit., 1944, p. 63
457“Perguntovos Senhor quem havia o povo de ter Rey, ou em que manda havia de eleger, senão a hum
filho, e só no Reyno da geração dos nossos Reys, e senhores, e do sangue daquelles grandes Reys, que nos ajudarão a ganhar as terras que pessuiamos, que nos conhesião por nome, e engrandecerão com merces honras, e acrescentamentos, e que forão no ganhar do Reyno com seu braço, e sangue, e por nos derramarão como pays; Pois agora senhores, porque lhe queremos dar padrasto (...)”. In: op. cit., Biblioteca da Universidade de Coimbra – Ms., Nº155. In:FERNANDES, Maria, op. cit., 1944, p. 69.
458 Manual de Confessor e penitentes, Que clara e brevemente contem a universal decisam de quase todas
as duvidas que em as confissões soem ocorrer dos peccados, absolvições, restituyções, censuras e irregularidades. Coimbra 1560. O “Doutor Navarro” é descrito pelo próprio D. Antônio como seu simpatizante, mas não achamos elementos ou documentos que permitam atribuir tal ligação. Ver
Fragmento de um carta de D.Antônio para o Papa com referencia aos lentes da Universidade seus partidários. 27 de julho de 1586; Documento: XL. In: BRANDÃO, Mário, op. cit., 1947. Por sua vez,
Justus Lipsius, autor presente na biblioteca de D. Antônio, foi um dos pensadores que elevou a um segundo posto, inferior apenas ao amor a Deus. Cf. NAUERT, Charles G. O pensamento. In: CAMERON, Evan (cor.). História da Europa: O século XVI. Porto: Fio da Palavra, 2009, p. 156.
459 Apud. ALBUQUERQUE, Martim de, op. cit., 1974, p. 103. De acordo com o autor, “Decerto, Martim
de Azpilcueta não fala aqui na pátria, mas o vocábulo terra, como já se viu, é-lhe equivalente. E na versão latina do Manual o termo que lhe corresponde é o termo latino patriam”, p.118-119.
195 Muitos manuais de confessores do período incitavam os clérigos a questionar se o individuo tinha ódio de seus pais, pátria, reino ou papa, considerando até mesmo um pecado mortal460. Esta atitude, de questionar os indivíduos quanto a sua fidelidade a pátria e aos antepassados, era muito comum entre os antonistas e teve muitas vezes desfechos funestos como observamos anteriormente.