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Além do mito de ‘mago das finanças’, os jornais destacaram um outro ‘feito’ de Salazar: a neutralidade de Portugal durante a II Grande Guerra. Não é possível elaborar neste trabalho grandes considerações sobre este episódio da História Mundial mas é importante sublinhar a relevância que ele teve para o país e para a estratégia de política externa do Estado Novo. Rosas140 argumentou

que, devido à sua experiência durante a Guerra de 1914-1918, Salazar tinha noção que um evento desta natureza poderia ter consequências sísmicas para a estabilidade do regime e do império colonial. Especialmente num contexto fortemente ideologizado em que Portugal poderia ser

138 Cfr. José Gil, Salazar: A Retórica da Invisibilidade, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1995, p.29

139 Alguns exemplos: “A morte do Presidente Salazar”, Cfr. A Capital, 27 de Julho de 1970, pp.4-7;“Será sepultado no Vimieiro o corpo do Presidente Salazar”, Cfr. Jornal de Notícias, 28 de Julho de 1970, p.1; “A morte do Presidente Salazar”, Cfr. O Primeiro de Janeiro, 28 de Julho de 1970, p.1.

140 Cfr. Fernando Rosas, “O Estado Novo”, in José Mattoso (dir.), História de Portugal, Sétimo Volume, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, pp.301-302

facilmente associado à Espanha franquista ou mesmo ao eixo italo-alemão e olhado com desconfiança pela Grã-Bretanha, sua eterna aliada. Qualquer movimento arriscado neste xadrez poliédrico poderia colocar o regime em perigo. Neste enquadramento, o Chefe do Governo optou por estabelecer relações diplomáticas e económicas subterrâneas com ambos os lados do conflito, pelo menos durante o período em que o desfecho era incerto, sem nunca envolver Portugal directamente nos confrontos bélicos. A nível oficial e mediático, o Presidente do Conselho defendeu uma política de neutralidade que foi utilizada extensivamente pela propaganda:

“Com efeito, até à exaustão repetiram que, graças a uma prudente, assombrosa e incansável actividade diplomática superiormente pensada e dirigida por Salazar, a neutralidade peninsular, por ele unilateralmente anunciada logo em 27 de Outubro de 1938, havia conseguido impor-se a todas as adversidades, subtraindo portugueses e espanhóis aos horrores do conflito. As sucessivas ameaças de ocupação do arquipélago dos Açores por ingleses, americanos e alemães, a hipótese real de estes últimos invadirem o continente em 1940, a insistente pressão aliada no sentido de cessarem as exportações de volfrâmio para as tropas do Eixo, mesmo com Timor ocupado primeiro por holandeses e australianos e de seguida por japoneses - tudo o presidente do Conselho e ministro dos Negócios Estrangeiros e ministro da Guerra harmonizara enquanto ia desarmando os dois blocos beligerantes com os argumentos da sua razão, recorrendo apenas ao auxílio da Providência.”141

Discursando sobre este episódio na altura da morte do antigo Chefe do Governo, os jornais reflectiram a mitologia do Estado Novo recorrendo a fotografias de Salazar, por vezes com pouco detalhe ou relativamente banais, que imbuíram de significado ideológico através das legendas. Por exemplo, na página 18 da edição de 28 de Julho de 1970, O Século publicou três fotografias relacionadas com este tema. Na primeira, o antigo Presidente do Conselho surge a discursar em plano médio contrapicado, isto é, fotografado de baixo para cima, tal como é convencional enquadrar os heróis142, com a seguinte legenda: “Portugal não intervém na guerra: da tribuna da Assembleia Nacional, o prof. Salazar anuncia à Nação e ao Mundo a decisão do Governo.” Uma segunda imagem introduz, contudo, alguma tensão ao aludir, indirectamente, a um possível desembarque de forças britânicas nos Açores: Salazar desfila perante um regimento militar acompanhado de oficiais superiores e a legenda enuncia que, “Durante a guerra mundial, tropas portuguesas foram destacadas para os arquipélagos dos Açores e Cabo Verde, numa delicada missão

141 Cfr. Jorge Ramos do Ó, O Lugar de Salazar: Estudo e Antologia, Lisboa, Publicações Alfa, 1990, p.56

142 Os enquadramentos contrapicados e picados são utilizados para indicar, em termos genéricos, respectivamente, um ganhador e um perdedor. Um exemplo da manipulação desta técnica de imagem é a montagem de uma luta de boxe no filme Raging Bull (1980), de Martin Scorsese. Nesta sequência, Robert De Niro é filmado em picado quando está a perder mas o enquadramento muda subtilmente para contrapicado quando ele começa a ganhar.

de soberania. O prof. Salazar sublinhou com a sua presença nos embarques de soldados, a importância dessa missão.” Por fim, a terceira imagem, um plano geral pouco inteligível de uma pequena praça preenchida por uma elevado número de pessoas, está completamente ancorada no texto que a acompanha: “Com a inauguração de uma escultura de Leopoldo de Almeida junto da residência do prof. Salazar, as mulheres portuguesas quiseram testemunhar o seu reconhecimento por ter evitado a entrada de Portugal na guerra”. Assim, em três fotografias - em três actos - é encenada uma narrativa complexa na qual o desfecho é tranquilo devido à sagacidade do Chefe do Governo. Na verdade, nesta história, o maior perigo até advém do aliado histórico de Portugal.

De entre as fotografias publicadas sobre este tema na altura da morte do antigo Presidente do Conselho, existe uma particularmente interessante. A revista Flama143 imprimiu uma pequena fotografia, na edição especial de 27 de Julho, em que se vê uma mulher abraçando emotivamente Salazar. O texto que a acompanha esclarece que, “Quando terminou a guerra, sem que Portugal se tivesse envolvido directamente, o Presidente do Conselho foi objecto duma manifestação de mulheres portuguesas.” Contudo, o Chefe do Governo parece mais velho do que seria na altura, como sustentam as duas fotografias que ladeiam esta imagem, datadas de 1941 e 1946. Parece, portanto, que determinadas fotografias genéricas de, por exemplo, abraços emotivos ou manifestações, podiam ser utilizadas noutros contextos de modo a servirem uma narrativa predeterminada.

Alguns jornais evidenciaram outras obras, neste caso físicas, realizadas pelo Estado Novo. Por exemplo, o Diário de Notícias144 publicou uma página inteira com o título “Salazar: 40 anos de grandes realizações” que incluía 7 fotografias de grande dimensão acompanhadas por pequenos textos. As imagens mostram o Estádio Nacional, a Universidade de Lisboa, uma barragem, uma ponte, um navio militar e a Torre de Belém enquadradas pelos respectivos subtítulos: “Juventude e Desportos”, “Ensino”, “Barragens e Estradas”, “Renovação da Marinha” e “Restauração dos Monumentos Nacionais”. No topo do artigo foi colocada uma fotografia, em grande destaque, da então denominada Ponte Salazar,145 inaugurada em 1966. Esta é a obra que recebeu mais relevo nos restantes periódicos, especialmente através de uma imagem na qual se vê, do lado esquerdo, o caixão do antigo Chefe de Governo a ser transportado no desfile funerário e, do lado direito, uma

143 Cfr. Flama, 27 de Julho de 1970, p.10

144 Cfr. Diário de Notícias, 28 de Julho de 1970, p.25

placa a anunciar “Ponte Salazar”. Uma justaposição subtil que aparece, com diferentes cortes, em vários periódicos.146 A revista Flama147 publicou também uma fotografia que preenche completamente duas páginas e em que se vê, em primeiro plano, o armão militar transportando o caixão acompanhado por um guarda militar a cavalo e, em segundo plano, no horizonte, a ponte sobre o Tejo.

Estas imagens evidenciam um aspecto que é transversal a vários jornais: Salazar confunde- se com a Obra, o País e a Nação. Além das fotografias, alguns títulos de artigos sustentam esta relação: “O homem que foi Portugal durante quarenta anos”148, “Toda uma vida consagrada ao serviço da Nação!”149, “A vida de Salazar na vida do País”150, “Uma vida inteira dedicada à Nação”151, “81 anos ao serviço de Portugal!”152, “O Funeral do Dr. Oliveria Salazar foi manifestação de sentimento a que se associou todo o País”153, “A Nação está de luto”154, “Morreu o Presidente Salazar, o maior português do nosso século: a História considerá-lo-á como o grande obreiro do engrandecimento nacional”155, “Morreu o Prof. Doutor António de Oliveira Salazar - Grande Português e eminente Estadista que entra na história gloriosa de oito séculos como um dos mais lúcidos e esforçados servidores da Nação”156, “Presidente Salazar: Uma vida e uma carreira consagradas a procurar a ‹‹justiça e o bem do povo››”157, “Portugal acompanhou Salazar no regresso a Santa Comba Dão”158, “Salazar: Imagens de quarenta anos de História”159. Assim, através de técnicas de metonímia, metáfora e justaposição, um elevado número de periódicos

146 Cfr. As Novidades, 29 de Julho de 1970, p.8; A Voz, 29 de Julho de 1970, p.6

147 Cfr. Flama, 31 de Julho de 1970, pp.44-45

148 Cfr. Diário da Manhã, 28 de Julho de 1970, pp.2-16

149 Cfr. As Novidades, 28 de Julho de 1970, pp.4-5

150 Cfr. Diário de Notícias, 28 de Julho de 1970, pp.18-23

151 Cfr. O Século, 28 de Julho de 1970, p.17

152 Cfr. Notícias da Covilhã, 01 de Agosto de 1970, p.3

153 Cfr. O Comércio do Porto, 31 de Julho de 1970, p.1

154 Cfr. Açores, 28 de Julho de 1970, p.1

155 Cfr. A Voz, 27 de Julho de 1970, p.1

156 Cfr. Correio do Minho, 28 de Julho de 1970, p.1

157 Cfr. Diário Insular, 28 de Julho de 1970, p.1

158 Cfr. Diário do Minho, 31 de Julho de 1970, p.1

associou estas várias entidades ao antigo Chefe do Governo de um modo em que elas se sobrepõem e se confundem. Esta relação é reforçada por outros símbolos visuais que, apesar de serem protocolares em funerais de Estado, são sublinhados pela sua selecção enquanto imagens incluídas nas edições jornalísticas: a bandeira a meia-haste160 e envolta no caixão161, o Mosteiro dos Jerónimos e a Praça do Império162.