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Durante toda a realização desta pesquisa ficou claro que a questão decasségui deveria ser observada, visto que em todas as famílias contatadas por mim possuíam alguma relação com parentes vivendo no Japão ou tendo eles mesmo vivido tal experiência em algum momento de suas vidas. Pude aos poucos perceber que o movimento decasségui era um elemento importante no que tange as formas de se pensar e elaborar as relações de parentesco e as formas como os indivíduos organizam – ou desorganizam – seus laços familiares.

Quando parentes – especialmente pais, mães, filhos – migram, é preciso 1) repensar de que forma as estratégias possíveis serão utilizadas para que as relações entre estes sujeitos não se percam no contexto da distância geográfica, ou ainda, como 2) desfazer ou anular relações que não são mais consideradas como importantes por aqueles que migram e deixam seus familiares em Campo Grande. Estes dois pontos serão discutidos nos tópicos a seguir, entretanto, antes de avançarmos sobre como o movimento decasségui reformula e reelabora as noções de parentescos e família entre os nikkei de Campo Grande, é preciso retomar um ponto importante desta pesquisa e que se refere à questão da heterogeneidade japonesa e nikkei, relacionando a partida ao Japão a existência das diferenças entre okinawanos e naichi da cidade.

Durante a realização do trabalho de campo, acompanhando as obachan na Associação Okinawa ou contatando meus informantes e realizando entrevistas e genealogias, foi possível observar que, no que se refere as diferenças entre os dois grupos nikkei na cidade, partir ao Japão não se relaciona ao pertencimento okinawano ou naichi. Indivíduos pertencentes aos dois grupos migram para trabalhar como decasséguis independente de “quem é o quê”.

Ser ou pertencer ao grupo okinawano ou ao grupo naichi não interfere mais ou menos na decisão de deixar a cidade de Campo Grande e, consequentemente, deixar sua cidade natal para trabalhar em outro país, neste caso o Japão, de certa forma, anula ou vela as diferenças entre os dois grupos neste novo contexto especifico de migração decasségui.

Aparentemente, dirigir-se à terra natal de seus pais, avós ou bisavós produziria entre estes nikkei uma homogeneização, sendo todos apenas descendentes nikkei. Entretanto, o próprio termo nikkei produz em si mesmo uma nova diferenciação e classificação que fomenta, novamente, a heterogeneidade que demonstra o erro ao se pensar no Japão e seus descendentes espalhados pelo mundo enquanto uma unidade coesa.

No contexto decasségui, pouco importa a origem “japonesa” dos trabalhadores. Ao chegarem ao Japão, ao contrário do que se acredita normalmente, estes indivíduos não são vistos pela sociedade local como “japoneses” que enfim realizam a viagem de retorno, mas sim, imigrantes brasileiros ou estrangeiros, independente de seus sobrenomes e seu fenótipo.

Ao estabelecer as leis para recebimento de estrangeiros no Japão como trabalhadores nas fábricas, o país optou por receber preferencialmente descendentes nikkei a fim de tentar controlar as possíveis influências externas que poderiam causar “danos” à sociedade japonesa, tão conhecida por sua suposta coesão e homogeneidade (KEBBE, 2012, SELLEK, 1997). Desse modo, descendentes nikkei possuem facilidades para dirigirem-se ao Japão, pois estariam de certo modo, mais próximos das tradições e costumes japoneses do que estrangeiros sem origem “japonesa”, visto que, de acordo com Sellek (idem) “the arrival of “new” migrant workers has presented another serious challenge to the prevailing conceptualization of Japanese racial an cultural homogeneity” (SELLEK, 1997, p. 179).

Sellek (1997) ao enumerar quem seriam os indivíduos que poderiam adentrar no Japão sem causar grandes transformações nessa homogeneidade e coesão, cita os nikkei como aqueles considerados menos problemáticos para viverem no país:

South American of Japanese descent and their spouses (the Nikkeijin). These individuals are legally permitted to reside in Japan with no job restrictions, for up to Three years. (SELLEK, 1997, p. 185).

Entretanto, apesar de considerados “japoneses” no Brasil, estes imigrantes são vistos como estrangeiros no Japão, ou melhor, como Nikkeijin, pertencendo desse modo, a uma categoria intermediaria entre ser ou não ser um japonês nacional78. Esta sua condição intermediaria os coloca, no limite, em uma classificação de minoria no Japão, ao lado de okinawanos, Burakumin, Ainu, entre outros.

The presence oh Nikkeijin also provides an opportunity to reconsider what it means to be “Japanese”. It also raises questions about the ideological boundary which separates the Japanese from certain national minorities within Japan. The commonsense definition of “Japaneseness” encompasses both culture and pseudobiological notions of a Japanese “race”. Although Nikkeijin are descendants of Japanese emigrants and therefore share the same lineage as the Japanese, their language, culture, customs and behavior derive from South America. The physical appearance of some Nikkeijin might be indistinguishable from that of indigenous Japanese, but it has been claimed that Nikkeijin are easily identified by their social behavior. Thus, while they may be regarded as Japanese in their countries of origin, in Japan they are identified as Brazilians or Peruvians. (…) People such as Nikkeijin, kikokushijo, Japanese orphans left behind in China after the Second World War, and even Japanese permanent residents abroad must be considered somewhat different from “real” Japanese (SELLEK, 1997, p. 201).

Podemos observar que, apesar da abertura do Japão para receber trabalhadores nikkei, buscando-se por indivíduos que pudessem manter o conceito de nihonjinron vigente naquele país, estes migrantes continuam a reforçar a existência de classificações internas no Japão e, expondo a continua existências das

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chamadas minorias étnicas na terra do sol nascente. Assim, verifica-se que o pertencimento okinawano ou naichi é obliterado pela condição de migrantes no Japão, ao mesmo tempo em que seu pertencimento nikkei torna-se cada vez mais evidente.

Ressalto que, apesar das particularidades internas ao grupo nikkei de Campo Grande serem de certa forma apagadas pelo processo de migração decasségui, continua sendo importante a análise de suas famílias na cidade, visto que, de certa forma, relações de diferenças continuam a ser produzidas entre estes indivíduos e os nacionais japoneses. Deste modo, os próximos capítulos referem-se aos dados colhidos na pesquisa de campo sobre as transformações e (re)formulações constantemente realizadas nas famílias nikkei da cidade.

Já sabemos que os motivos ou explicações para a ida ao Japão por parte dessa população nikkei são diversas, assim como são muitas as formas como estas famílias distantes se reorganizam – ou se desorganizam - neste contexto, visto que ainda há a ideia entre a população que permanece na cidade, de que migrar ao Japão provoca problemas, como os citados ao longo desta tese.

Para compreender mais especificamente sobre esta questão, passemos ao próximo subcapítulo, em que trago mais uma vez a etnografia para elucidar este assunto que é, de certa forma, visto por meus interlocutores como problemático e responsável pelo “destrambelhamento familiar” campo-grandense.