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A relevância da contribuição de N. Abraham e M. Torok (1995) para o entendimento daquilo que se passa a partir de uma perda significativa para o ego está no fato de eles terem se apropriado do conceito de introjeção. Foi Ferenczi quem o introduziu, em 1909 (FERENCZI, 1991a), ganhando grande relevância na teoria psicanalítica a partir daí. O conceito de introjeção pressupõe a perda de um investimento e a capacidade de inclusão desse investimento no ego; ele está, portanto, vinculado a um alargamento do ego. A capacidade de

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desligamento dos investimentos auto-eróticos é uma condição básica para a constituição do psiquismo e também para a condição da saúde psíquica. O contraponto necessário à importância do conceito de introjeção para N. Abraham e M. Torok é o estabelecimento de uma espécie de comparação com o conceito de incorporação; esta comparação não se restringe a marcar uma diferença meramente, mas, mais do que isto, a estabelecer uma íntima correlação entre determinados modos de funcionamento psíquico. Poder-se-ia dizer, a princípio, que a incorporação acontece quando uma introjeção não foi possível. A incorporação é uma fantasia (será visto) que nos diz acerca desse desejo de introjetar .

A princípio, o ego investe os objetos, na medida em que existe uma promessa de introjeção. É como se os objetos servissem ao propósito de satisfação dos interesses do ego. A importância do momento de luto do objeto é fundamental para os acontecimentos subseqüentes; tudo depende do papel que o objeto desempenha no momento da perda (ABRAHAM; TOROK, 1995, p. 225).

O que resulta desse momento é que os investimentos, que estavam ligados ao objeto perdido, se tornem disponíveis para o ego, que assim poderá investir novos objetos que possam, também, enriquecer o próprio ego. A impossibilidade de realizar a introjeção da libido resulta numa fixação da libido em Imagos, das quais o ego se torna dependente, bem como dos objetos externos que são investidos a partir daí. Os autores distinguem o objeto interno, ligado à introjeção, e a Imago, ligada ao processo de incorporação. A morte do objeto trará, em conseqüência, a liberação da libido contida nesse aprisionamento ao qual o ego foi submetido. O que acontece é que há liberação dos desejos que foram represados na Imago do objeto, e também uma indicação desse lugar, no qual os desejos foram enterrados; é pela dor que se tem uma pista do túmulo em que jaz o desejo.

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A designação de doenças do luto, conforme os autores, está ligada particularmente aos momentos de transição, que trazem à tona uma fixação. A morte e o processo de luto que se segue fazem retornar, de alguma forma, aquilo que estava envolvido na impossibilidade de realização do desejo; evidenciam, sobretudo, aquele que era responsável por manter escondido um segredo. Essa idéia da existência de um segredo escondido é muito interessante. Os autores relacionam o segredo ao que eles designam como Realidade14; chamam a atenção

para o fato de que para os analistas a realidade é precisamente aquilo que foi recusado, que foi denegado e que, portanto, permanece como um segredo. O criptóforo é o guardião do segredo. E o lugar do segredo não é nem o inconsciente recalcado, nem o Ego da introjeção (ABRAHAM; TOROK, 1995, p.239), é uma espécie de Inconsciente artificial encravado no ego; é o ego, portanto, o responsável por manter o segredo escondido. Ao considerar-se que o que permanece nesse lugar intermediário, encravado no ego, mas separado do Ego da introjeção, é um segredo, ao mesmo tempo em que não pode morrer, também não pode ser revelado. O mecanismo pelo qual esse segredo é mantido escondido é diferente do recalcamento constitutivo (conforme Freud); trata-se de um outro mecanismo chamado recalcamento conservador , pois o que está em jogo não é o impedimento à realização de um desejo, que é função do recalcamento constitutivo é da impossibilidade de reconhecimento de um desejo que já foi realizado que se trata. Pode-se perfeitamente compreender essa implicação por meio da análise estabelecida pelos autores do famoso caso do Homem dos lobos . Para eles, a grande questão de Serguei Pankjeff é que ele tenha sido testemunha de um ato incestuoso de seu pai com sua irmã e, mais do que isto, que a mãe, ao desmentir tal

14 Com letra maiúscula para indicar que se trata de um conceito metapsicológico; aliás, é desta forma

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acontecimento, contribuiu para a constituição da situação traumática que passou a envolver, ao mesmo tempo, a atitude e a imagem paternas.

Na construção teórica de N. Abraham e M. Torok, é preciso marcar, sobretudo, a diferença que estabelecem entre os conceitos de introjeção e de incorporação. A introjeção é um processo (que leva a uma transformação do ego) e a incorporação corresponde a uma fantasia cuja função é impedir a modificação imposta pela realidade. O que é introjetado são as pulsões e o que é incorporado é o objeto. É desta forma que os autores relacionam os dois conceitos: para que a introjeção se realize, é preciso que seja reconhecido algo da realidade. A impossibilidade do reconhecimento impede a introjeção e impulsiona o desenvolvimento da fantasia de incorporação. A fantasia tem por finalidade, principalmente, camuflar este algo da realidade que levaria a uma modificação do ego. Ela tem, portanto, como função principal, impedir uma transformação tópica, o que a torna essencialmente conservadora. A questão fundamental, a partir daí, é procurar saber acerca desse algo que, por alguma razão de extrema importância, deve permanecer escondido. A fantasia de incorporação tem a característica de ser essencialmente narcísica, exatamente por impedir uma mudança no ego e, ao invés disto, determinar uma mudança na realidade. Compreender uma fantasia adquire um sentido preciso: é assinalar, concretamente, a que mudança tópica ela é chamada a resistir (ABRAHAM; TOROK, 1995, p. 244).

A fantasia de incorporação aqui considerada tem um objetivo específico, que é o de introduzir no corpo alguma coisa cuja função seria realizar uma modificação. A impossibilidade de um reconhecimento da falta que antecede a reestruturação capaz de produzir um sentido para essa falta é a condição básica para que se estabeleça uma fantasia de incorporação; ao não reconhecer a falta, a fantasia faz com que aquilo que deveria ser reconhecido como falta seja introduzido como objeto. Esse não reconhecimento é correlato de

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uma impossibilidade de realização do luto. O verdadeiro sentido da perda está em poder saber o que pertencia ao sujeito, daquilo que se perdeu. E o não reconhecimento da falta inviabiliza o processo de introjeção. A fantasia de incorporação colocada no lugar da introjeção que não aconteceu carrega este segredo de uma falta que não pôde ser reconhecida.

A metáfora da boca vazia é muito interessante para se compreender a passagem de uma falta para a produção (ou não) de sentido para a falta. É uma passagem da boca cheia de seio para a boca cheia de palavras; a partir da ausência materna, que introduz um descompasso na satisfação, produz-se sua substituição por palavras, que têm o poder de produzir sentidos para as sucessivas ausências maternas. A fantasia de incorporação se constitui exatamente pela analogia com o processo de introduzir um objeto no corpo ; é por não ser possível reconhecer a ausência própria daquilo que satisfazia, que se impossibilita a aquisição das palavras cuja função seria dar sentido para a ausência. É porque a boca não pode articular certas palavras, que se tomará, em fantasia, o inominável, a própria coisa (ABRAHAM; TOROK, 1995, p.247).

O que se segue trata da razão por que não foi possível realizar o processo de introjeção. A resposta é precisa: só pode tratar-se da perda súbita de um objeto narcisicamente indispensável, enquanto que essa perda é de natureza a proibir sua comunicação (ABRAHAM; TOROK, 1995, p. 247). Para que uma perda determine a constituição de uma fantasia de incorporação, além da perda narcísica, deve haver, concomitantemente, uma impossibilidade de falar dessa perda com alguém. Todas as palavras que não puderam ser ditas, todas as cenas que não puderam ser rememoradas, todas as lágrimas que não puderam ser vertidas, serão engolidas, assim como, ao mesmo tempo, o traumatismo, causa da perda (ABRAHAM; TOROK, 1995, p. 249).

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Dessa forma, além das palavras que não puderam ser ditas, a própria situação traumática é introduzida no interior do corpo . Cria-se o que eles chamam de uma sepultura secreta , uma cripta que carrega um mundo fantasístico, separado do restante do ego (da introjeção). Um mundo secreto, mas que não permanece inoperante: os fantasmas desse cemitério retornam à meia noite e assustam o guardião com atitudes incompreensíveis.

Ao referir-se às condições que inviabilizam o processo de luto e a introjeção subseqüente, os autores reportam-se a uma situação vergonhosa, cuja autoria é atribuída ao ideal do ego. A vergonha atribuída ao ideal, a impossibilidade de introjetar sua perda vão constituir o substrato da fantasia que o sujeito criptóforo passa a utilizar para driblar os efeitos da não admissão da realidade. No entanto, a eficácia da fantasia é relativa. As palavras que foram impedidas de serem ditas retornam, de alguma forma, e neste retorno é o ideal do ego vil que reclama o direito de cidadania (ABRAHAM; TOROK, 1995, p. 253).

É Fábio Landa (1999) quem chama a atenção para a importância de valorizar a condição de testemunha que o paciente criptóforo tem. A tumba á a prova que valida a palavra da testemunha (LANDA, 1999, p. 221). Dois exemplos relacionados a isto podem ser constatados; o primeiro deles refere-se às pessoas que, saídas dos campos de concentração, não conseguiam ser escutadas ou mesmo acreditadas; o segundo trata da condição dos autistas que vivem uma verdadeira derrocada dos elementos que constituem a possibilidade da comunicação.

Outra questão importante ressaltada por Landa é que, na construção teórica de Abraham e Torok, há um resgate da noção ferencziana de trauma e, ao mesmo tempo, da clivagem freudiana. Como no caso do homem dos lobos, o desmentido materno em relação ao evento incestuoso entre pai e filha tornou Serguei testemunha do delito paterno, que, por não poder ser revelado, foi incorporado como segredo, tornando-se uma (ou mais uma) cripta no

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seio do ego. No processo de incorporação há, segundo Landa, uma vitória da agressão, pois o que foi incorporado foi uma intenção agressiva em relação ao agressor, cujo destino é permanecer muito bem vigiada no interior do ego.

Parece haver uma questão decisiva em relação aos elementos implicados na impossibilidade do processo de introjeção. O que Abraham e Torok nos dizem é, primeiramente, que o momento da perda é fundamental para a compreensão do luto impossível. Sabe-se, desde Freud, que a transformação da instância do ideal do ego é determinante no desenvolvimento psíquico. A constituição do ideal do ego dá-se a partir dos primeiros investimentos libidinais nos agentes parentais; daí por diante, vai havendo determinadas substituições por outros agentes sociais, que redimensionam o ideal e apontam para um caminho a ser conquistado, cuja promessa é a de um engrandecimento do ego (o ideal do ideal do ego é se aproximar do ego ideal). A possibilidade de reconhecimento de uma falha no ideal do ego é o que possibilita o ir além.