• No results found

O FFENTLIG SEKTOR OG SKATTE - OG AVGIFTSSYSTEMETS OPPGAVER

2. TEORI OG BAKGRUNN

2.1 O FFENTLIG SEKTOR OG SKATTE - OG AVGIFTSSYSTEMETS OPPGAVER

O presente texto tem por objetivo central discutir aspec- tos da concepção clássica da pesquisa filosófica e apresentar possíveis contribuições do trabalho interdisciplinar na área de Humanidades.

O termo Humanidades designa o campo amplo de investigação das faculdades, potencialidades e história humanas. Ele engloba disciplinas como Filosofia, Literatura, História, Artes, Línguas, dentre outras, as quais utilizam em suas pesquisas sobretudo métodos analíticos, críticos ou especulativos. O termo Huma- nidades se popularizou no Renascimento, que ocorre entre os séculos XIII e XVI e no qual são privilegiados os estudos clássicos da civilização greco-romana.

Para iniciar nossa reflexão, analisaremos conceitos presentes na obra De vita solitaria de Francesco Petrarca (1304-1374), texto emblemático do período em que as Humanidades se constituem como campo de estudo. Nessa obra, Petrarca propõe uma con- cepção de investigação que as Humanidades adotam desde então. Ele sugere uma distinção inicial entre duas diferentes maneiras

de viver: a primeira delas, a vida ativa, é a vida em sociedade do ser humano comum, a qual é dedicada à execução das tarefas mundanas, guiada pelas paixões para satisfazer as necessida- des imediatas. A segunda, por sua vez, é a vida contemplativa dos intelectuais, solitária e afastada das multidões, dedicada às tarefas do espírito e à satisfação das necessidades mediatas do entendimento.

Essa divisão supõe uma concepção antropológica segundo a qual o ser humano possui uma dupla natureza resultante da união do intelecto (ou espírito) com o corpo. Para Petrarca, essa união é frequentemente conflituosa porque as paixões e o intelecto tendem a objetivos mutuamente excludentes: deixar- -se levar pelas paixões corporais conduz aos excessos do vício e ao desregramento moral, um tipo de vida inadequado para o cultivo das atividades intelectuais. Por outro lado, o exercício da vida contemplativa supõe práticas purgativas, ou purificadoras da influência das paixões sobre o intelecto (ou do corpo sobre o espírito), cujo objetivo é o exercício da virtude.

Como herdeiros da tradição humanista anteriormente esbo- çada, podemos citar na modernidade, entre outros, Michel de Montaigne (1533-1592) e René Descartes (1596-1650). Montaigne escreveu a célebre obra, Ensaios, como resultado de práticas de auto-observação que ele realiza longe do convívio social, isolado em sua propriedade rural. Além disso, ele indica na “Carta ao leitor”, em que apresenta a obra, que descreve a si mesmo como conteúdo de seu livro, graças ao processo de “autoinvestigação”.

Descartes, por sua vez, consagra o método introspectivo para o conhecimento da real natureza do sujeito na obra Meditações, defendendo que a adoção de tal método permitirá alcançar a cer- teza indubitável da própria existência como substância pensante, distinta do corpo. Para isso, ele adota a ferramenta da dúvida

basearem nos dados dos sentidos corporais, que considera pouco confiáveis. Como parte de sua argumentação, Descartes também faz uma defesa explícita da solidão necessária para exercitar essas práticas de autoconhecimento ao apontar: “Agora, pois, que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que consegui um repouso assegurado numa pacífica solidão, aplicar-me-ei seriamente e com liberdade em destruir em geral todas as minhas antigas opiniões” (Descartes, 1994, p.85).

Assim, certo estilo de pesquisa na Filosofia se constitui gra- dativamente, segundo o qual o conhecimento do humano seria possível pelo exercício solitário da introspecção no domínio do intelecto, em que a mente se coloca em diálogo consigo mesma e tem em si mesma seu objeto de investigação. O estudo da conduta de pessoas imersas na vida ativa permitiria, no máximo, conhecer modos de agir relacionados à satisfação das paixões corporais que não contribuiriam para a produção do conhecimento racional e nem para o aperfeiçoamento da conduta moral. Em suma, a pro- dução do conhecimento sobre o humano exigiria do intelectual certo perfil constituído especialmente por apego à racionalidade, um distanciamento das atividades comuns, a prática de exercícios introspectivos para o autoconhecimento que culminam no estilo de pesquisa solitária.

O estilo de vida solitária ainda é defendido explicitamente por filósofos como o mais adequado para a produção do conheci- mento (Koch, 1994). Conforme aponta Philip Koch, em sua obra

Solitude, a Philosophical Encounter, a vida solitária propicia as

seguintes vantagens para a atividade especulativa das humanida- des: liberdade; sintonia consigo mesmo; sintonia com a natureza; perspectiva reflexiva; e criatividade. Para Koch, a liberdade está associada à noção de autonomia na formulação de hipóteses sem imposições ideológicas; a sintonia consigo mesmo decorreria dos processos introspectivos de autoconhecimento. Já a sinto- nia com a natureza resultaria do afastamento das preocupações

imediatas e da reflexão sobre o lugar do ser humano no mundo; a perspectiva reflexiva está associada à adoção de ferramentas especulativas, as quais propiciariam, por fim, insights criativos.

Influenciadas pelo estilo de produção filosófica, as Huma- nidades adotam traços marcantes de um modelo de produção de conhecimento que facilmente podemos reconhecer até hoje nos pesquisadores da área. Significativa maioria dos estudiosos de Ciências Humanas assume pressupostos específicos da vida

solitária, como a apreciação de um recolhimento, considerado

propício à reflexão, possível apenas no silêncio e no isolamento. Esse modelo solitário se manifesta diretamente na produção de muitos pesquisadores: se observarmos os curricula dos princi- pais estudiosos brasileiros das Humanidades, iremos facilmente constatar que a imensa maioria dos artigos publicados é de auto- ria única. Uma das consequências dessa prática parece afetar diretamente o ritmo da produção intelectual nas Humanidades, nas quais artigos em coautoria são muito raros e, em algumas disciplinas, como a Filosofia, por exemplo, até vistos com reserva por contrariarem o modelo tradicional consagrado de escrita filosófica. Em contraste, nas Ciências Biológicas, por exemplo, a própria atividade experimental/laboratorial de pesquisa, cole- tiva por natureza, faz que os artigos sejam em coautoria, o que parece contribuir para que o ritmo da produção seja mais ágil. Nessa área, o mesmo experimento pode gerar vários artigos e as pessoas que colaboraram no experimento terão seu nome incluído na produção.

Mantidas as devidas especificidades de cada área, caberia indagar se o modelo de produção solitária do conhecimento nas Humanidades é capaz de enfrentar desafios contemporâneos, especialmente no que se refere a objetos de investigação cada vez mais complexos. Na próxima parte deste artigo procuraremos responder essa interrogação.

Da produção individual à parceria