Trabalhar com a classe dos demonstrativos não é tarefa das mais fáceis,
principalmente com relação à sua posição, uma vez que não há um conhecimento tão
amplo e específico em trabalhos científicos anteriores sobre o tema.
Além disso, a falta de consenso sobre os parâmetros de análise dos
demonstrativos de uma forma geral também se trata de algo desafiador, uma vez que
cabe ao pesquisador desse tema definir os seus próprios métodos e categorias.
O fato de as construções que são objeto desta pesquisa serem raras, por várias
vezes com ocorrências únicas em um mesmo século, também se mostrou um desafio, já
que a simples contabilização da frequência nem sempre foi suficiente para entender o
funcionamento do fenômeno.
Outro problema enfrentado é a composição dos corpora utilizados. Uma vez que
eles constituem compilação de milhares de textos provenientes de origens diversas, isso
significa que seus padrões de edição não são nada homogêneos, o que pode gerar
resultados não tão confiáveis. Entretanto, sua amplitude, tanto no sentido de quantidade
de textos, quanto em relação ao extensão temporal, com ocorrências desde os sécs.
XIII/XIV, foi fator fundamental para a sua escolha como fonte de investigação.
Algo que também se demonstrou uma barreira para uma análise ainda mais
otimizada dos demonstrativos pospostos, principalmente na questão das referências
exofóricas, foi o fato de trabalhar apenas com textos escritos, já que, mesmo os que
possuíam como fonte produção oral, eram transcrições que não informam o contexto
situacional de produção desses enunciados. Tal dificuldade também é expressa por
Pavani (1987), ao trabalhar os demonstrativos apenas com textos gravados:
Queremos mostrar, assim, a dificuldade, para não dizer a impossibilidade de se dar um tratamento satisfatório a casos de exófora sem o conhecimento pragmático de enunciação, tomando como base apenas o que se ouve nas fitas. Daí nos limitarmos a considerações gerais sobre o assunto, não nos atendo a maiores exemplificações práticas, uma vez que nossos dados, além de escassos, não se mostram, pelos motivos expostos, adequados para a discussão de questões envolvendo proximidade/distância física em relação a falantes/ouvintes. (PAVANI, 1987, p. 52)
Apesar disso, o presente trabalho procurou explicitar de forma rigorosa as
diferenças existentes entre dois tipos de posposição dos demonstrativos em português e
espanhol. Entretanto, ficam ainda várias questões em aberto para posteriores
investigações. Uma delas é por que a posposição não-articulada surgiu em português e
espanhol na mesma época. Terá havido transmissão do português para o espanhol
através do contato linguístico ou vice-versa? Teria essa construção surgido
espontaneamente em cada uma delas? Outra questão que deve ser aprofundada é o
funcionamento dos demonstrativos pospostos em outras línguas, como o catalão e o
romeno, e com isso, ampliar ainda mais os conhecimentos sobre o funcionamento geral
das línguas românicas.
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ANEXOS
OCORRÊNCIAS DE POSPOSIÇÃO DE DEMONSTRATIVOS NOS CORPORA
46I. Corpus do português
In document
Utredning av insentivordninger for film- og TV-produksjon
(sider 22-26)