A urbanização acelerada e a melhoria do nível econômico dos brasileiros mudaram sensivelmente o quadro da saúde das pessoas que vivem nas regiões urbanas. Hoje, dentre as doenças que mais acometem as populações das cidades, estão àquelas ligadas à obesidade, ao sedentarismo e aos hábitos alimentares modernos, os brasileiros acima do peso já passam de 50% da população (MOBILIZE, 2014a).
O uso de transporte público pode ser fator de incentivo à prática de atividades físicas. Uma simples caminhada entre o local de residência e o ponto de embarque, mesmo que este seja próximo, oferece às pessoas a oportunidade de se exercitarem, de vencerem o sedentarismo, um dos maiores vilões da saúde na vida contemporânea.
Pesquisas indicam que pessoas que se utilizam de meios de transporte público e que por isso se deslocam caminhando para pegar uma condução, conseguem obter benefícios diários significativos à saúde, comparados àquelas que não o fazem (MAC DONALD et al., 2011).
As Leis de zoneamento norte americanas do pós-guerra promoveram a separação do uso do solo por atividades e por isso, os deslocamentos ficaram maiores para muitos, o que acabou incentivando o uso do automóvel. Estudo realizado em Charlotte, no estado da Carolina do Norte, teve como um dos objetivos avaliar os efeitos do uso de um sistema de transporte
metropolitano, no caso, o VLT, sobre as alterações no Índice de Massa Corporal (IMC) e a obesidade dos indivíduos (MAC DONALD et al., 2011).
Descobriu-se que os usuários do VLT tiveram uma redução significativa do IMC e menor propensão de se tornarem obesos, quando comparados aos indivíduos em situações semelhantes e que habitavam o mesmo bairro, mas que não fizeram uso do VLT. Uma das razões apontadas pelo estudo, é o fato de que as paradas do VLT estão situadas a distâncias maiores das residências e locais de trabalho dos envolvidos na pesquisa, comparadas aos pontos de ônibus (MAC DONALD et al., 2011).
Os resultados do estudo sugerem que, o aumento ao acesso ao VLT para que as pessoas se dirijam de casa ao trabalho e vice-versa, possa impeli-las à prática de exercícios diários considerados utilitaristas contribuindo para que as barreiras à prática de exercícios físicos regulares sejam minimizadas. Os autores reconhecem limitações no estudo, contudo, entendem que os resultados apontam para uma contribuição à saúde dos usuários do sistema público de transporte, neste caso, o VLT (MAC DONALD et al., 2011).
O VLT desempenha um papel relevante na redução dos custos com a saúde pública, segundo afirma Stokes et al. (2008), apud Topalovic et al. (2012), pois quando as pessoas optam por ele em substituição ao automóvel, elas andam em média 30 minutos a mais por dia, em comparação àquelas que continuam se utilizando dos automóveis. No caso de Charlotte, a economia estimada foi de US$ 12,6 milhões nos primeiros nove anos de operação do sistema de VLT.
Segundo ainda Mac Donald et al. (2011), há nos Estados Unidos 32 sistemas de VLT operando nas principais áreas metropolitanas transportando cerca de 200 milhões de passageiros anualmente.
Estudos indicam que a maior densidade populacional nas áreas residenciais em comparação às comerciais, justificaria um número maior de paradas e/ou estações nessas áreas, o que promoveria um aumento no número de passageiros do sistema, que por sua vez, contribuiria como estratégia para a melhoria da saúde das pessoas (MAC DONALD, 2011).
Em todo o mundo, o aumento das taxas de doenças crônicas associadas à inatividade física, à vida sedentária e à obesidade, já pode ser considerado como uma epidemia (WILLIAMS e WRIGHT, 2007).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 80% das doenças cardiovasculares e do diabetes tipo 2 e 40% dos cânceres, estão relacionados à obesidade e poderiam ser evitados se fatores de riscos relacionados ao meio ambiente fossem eliminados (METCALFE e HIGGINS, 2009 apud TOPALOVIC et al., 2012).
Conforme afirmam Frank et al. (2004) apud Topalovic et al. (2012), cada hora de uso do automóvel diariamente, aumenta a probabilidade do indivíduo se tornar obeso em 6%, em contrapartida, cada quilômetro de caminhada diária reduz a probabilidade dele se tornar obeso em quase 5%.
De acordo com Ludlam (2015), cada viagem feita através do transporte público, começa e termina com uma caminhada ou um ciclo levando a uma sociedade mais ativa fisicamente e saudável, além de contribuir para a redução da poluição. Estima-se que, na Austrália, cerca de 50% de todas as viagens feitas por automóveis têm distâncias menores do que 5 quilômetros, facilmente percorridas através do uso de bicicletas.
Os VLT’s podem transportar bicicletas sem afetar a sua capacidade de transportar passageiros, permitindo aos usuários incorporarem o ciclismo em suas viagens, conforme exemplo demonstrado na Figura 39 (LUDLAM, 2015).
Figura 39 - VLT transportando bicicletas na Alemanha Fonte: Google (2014)
As transformações do ambiente construído devem incentivar a diminuição da dependência do automóvel e o aumento da atividade física. Para tanto, a disponibilidade de sistemas de transporte público integrados é um componente chave, isto porque, podem proporcionar mais oportunidades para o exercício físico, como caminhar ou mesmo utilizar a bicicleta (STOKES et al., 2008 apud TOPALOVIC, 2012).
Algumas cidades europeias já desfrutam dessa política orientada para um transporte público mais efetivo, preponderantemente o VLT, mas com forte participação da caminhada e do uso da bicicleta, disso decorre que, as taxas de obesidade são mais amenas e os problemas de
saúde estão em menor escala comparados às cidades norte americanas, conforme demonstrado no gráfico da Figura 40 (TOPALOVIC et al., 2012).
Figura 40 - Porcentagem de obesidade comparada a porcentagem de caminhada, bicicleta e transporte público
Fonte: Topalovic (2012)
A possibilidade de proporcionar às pessoas algum nível de atividade física deve ser considerada na formulação das políticas públicas de transporte, o incentivo aos usuários a caminharem até o ponto de embarque todos os dias, certamente contribuirá para que eles consigam uma rotina de vida mais ativa fisicamente, melhorando as suas condições de saúde, reduzindo o índice de obesidade da população (MAC DONALD et al., 2011).
Para tanto, o comprometimento das autoridades responsáveis pelo planejamento e implementação das políticas de transporte urbano, com a qualidade da saúde dos cidadãos, surge como fator capital para que as cidades deixem de acumular déficits sociais e econômicos.
Conforme afirma o arquiteto dinamarquês, Jan Gehl (MOBILIZE, 2014b);
Eu gostaria que as pessoas fossem tão visíveis para os planejadores quanto foram os carros nos últimos 50 anos, todas as cidades têm um departamento de trânsito para contar carros, mas nenhuma cidade que eu conheça tem um departamento de pedestres.