Esta pesquisa abordou como tema principal os artifícios retóricos como forma de sedução nas crônicas humorísticas: “A Momolândia”, de Max Nunes (1996) e a “A Idade da Pedra”, de Carlos Eduardo Novaes (1995). Investigamos as diferentes técnicas e recursos que os retores empregaram em seus discursos a fim de seduzir o auditório e provocar-lhes aceitação. Nosso estudo levou em conta que não há dissociação entre a subjetividade expressa nos discursos analisados e a objetividade das teorias apresentadas.
Consideramos como questionamentos:
- Há técnicas específicas para provocar o humor na crônica?
- A argumentação e o humor podem ser explorados simultaneamente em um discurso?
A fim de responder se há técnicas especificas com o objetivo de provocar o humor na crônica, fizemos um levantamento dos principais artifícios explorados por Max Nunes e Carlos Eduardo Novaes nas crônicas “A Momolândia” e “A Idade da pedra” e obtivemos o seguinte quadro:
MAX NUNES CARLOS EDUARDO NOVAES
Espaço retórico: gênero, raciocínio e estilo.
Gênero: epidítico Gênero: epidítico
Gênero deliberativo
Raciocínio dialético Raciocínio dialético
Raciocínio apodítico Raciocínio apodítico
Raciocínio sofístico
Estilo simples, claro e agradável Estilo simples, claro e agradável
Subjetivo Subjetivo
Sistema retórico Provas extrínsecas Provas éticas, patéticas e
extrínsecas.
Lugar: contrário Lugar: qualidade, juventude,
Figuras Metáfora Metáfora Antítese Antítese Alusão Alusão Ironia Ironia Repetição Repetição Epíteto Hipérbole
Operadores Que levam a conclusões
contrárias
Que levam a conclusões contrárias
Que introduzem conteúdo pressuposto
Que introduzem conteúdo pressuposto
Que somam argumentos da mesma classe
Que indicam uma justificativa ou explicação
Que introduzem uma conclusão Que indicam uma condição
Argumentos Quase lógicos:
Contraditórios Incompatibilidade Ridículo Definição (normativa) Definição (descritiva) Quase lógicos: Sacrifício Incompatibilidade Ridículo
Baseados na estrutura do real : Sucessão
Autoridade
Baseados na estrutura do real: Pragmático
Essência
Nexos simbólicos
Fundam a estrutura do real: Exemplo
Comparação
Quadro 2 – demonstrativo de técnicas Fonte: o autor
A conclusão a que chegamos após identificar os artifícios retóricos é de que, embora tenhamos autores com estilos diferentes e com crônicas escritas em épocas distintas, é possível verificar a predominância de técnicas semelhantes com pequenas variações devido aos temas desenvolvidos.
Há, nas crônicas analisadas, uma ocorrência maior de figuras como a metáfora e a ironia, figuras de escolha e de comunhão, que aproximam orador e auditório, pois levam à reflexão e permitem associações de termos semelhantes os quais pertençam ao universo do auditório. Há também a presença do gênero epidítico, pelo próprio estilo atraente; dos raciocínios dialéticos e apodíticos, que partem de premissas prováveis ou verdadeiras e, nesse sentido, também aproximam o orador do auditório; de provas extrínsecas usadas para assegurar a veracidade dos fatos abordados; de operadores que apontam conclusões contrárias e ratificam as antíteses apresentadas: Momolândia / Brasil e Fase adulta / juventude, e de argumentos de incompatibilidade, do ridículo, apresentados pela própria ironia, e de dissociação, prestígio do professor e incoerências entre fala e ação no texto de Carlos Eduardo Novaes.
Quanto às técnicas próprias do humor: a incongruência e o caráter transgressor foram utilizados pelos dois cronistas. E podemos inferir que os artifícios
HUMOR Incongruência Incongruência
Caráter transgressor Caráter transgressor
Duplo sentido ou jogo de palavras – polissemia e ambiguidade
Inversão Por meio de neologismos /
abreviação Inconsciente e inesperado: Conhecimento cultural Inesperado Jogo linguístico Inferências Recorrência à memória
retóricos que surpreendem o auditório por apresentar dados não esperados, ou com sentidos contrários àqueles previstos, corroboram mais para o humor. Por isso, há uma incidência maior deles nesse gênero.
A articulação intra e entre as partes do discurso, inventio, dispositio, elocutio e actio, é a principal responsável na persuasão dos diferentes auditórios. Pois, no momento em que o orador se propõe a elaborar seu discurso, ele o faz como se montasse um grande quebra cabeça. O orador parte da intencionalidade presente em todo discurso e articula adequadamente as informações destinadas a um auditório.
Pudemos observar que os oradores ponderaram os diferentes artifícios dispostos e escolheram os que mais os aproximariam do auditório. Embora os dois textos tivessem o mesmo gênero literário, crônica humorística, tinham um auditório diferente, provavelmente, com faixas etárias distintas, por isso, os retores, tiveram o discernimento, na inventio, de identificar o gênero adequado, encontrar os tipos de argumentos, apontar as provas a serem usadas e os lugares onde se encontrariam esses argumentos. Depois lançaram mão dos artifícios selecionados, para organizá- los em quatro partes: exórdio, narração, confirmação e peroração. Essa estrutura ratifica a teoria vista no capítulo I.
Outro objetivo que tínhamos com este estudo era responder à indagação quanto à exploração simultânea da argumentação e do humor em um único discurso. Pudemos constatar que o gênero crônica humorística não se limita a fazer humor com fim em si mesmo, nem tem o propósito de apenas argumentar. Tem, sim, um caráter transgressor, busca denunciar a realidade por meio da comicidade. O humor e argumentação se fundem em um único discurso e dizimam seus limites
Nesse gênero, a argumentação está centrada principalmente no próprio discurso, o que corrobora a identificação das críticas subliminares presentes e provoca no auditório um posicionamento, mesmo que esse seja o próprio riso. Pudemos constatar, nas duas crônicas analisadas, que a proposta da crônica humorística é gerar o riso e provocar uma reflexão ou discussão sobre o tema, por isso não apresenta uma solução para o problema desenvolvido.
Diante dos estudos feitos, depreendemos que a análise retórica contribui para uma melhor compreensão dos propósitos do texto e do orador diante dos problemas
abordados no discurso e permite entender o processo de sedução no qual o auditório é envolvido por meio do logos.