Muitos foram os livros de memórias, diários, romances, contos, poemas e músicas escritos sobre a temática da Shoah. Embora não haja dados oficiais sobre o número de obras publicadas nem no Brasil nem no mundo, é sabido que o tema é popular entre escritores e leitores. O mais famoso livro é O diário de Anne Frank, escrito pela adolescente judia, entre 1942 e 1944. As obras de Primo Levi também tiveram destaque mundial: Os afogados e os sobreviventes, É isto um homem? e A trégua, além de muitos outros. O romance gráfico Maus: A Survivor’s Tale, do escritor Art Spiegelman, foi outro livro com sucesso de público e agraciado com um prêmio especial Pulitzer. Poetas como Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira escreveram sobre antissemitismo e Shoah em algumas poesias, como a Balada dos mortos dos campos de concentração, escrita em 1954, de autoria de Vinícius de Moraes.
Cadáveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald! Ocos, flácidos cadáveres Como espantalhos, largados Na sementeira espectral Dos ermos campos estéreis De Buchenwald e Dachau. Cadáveres necrosados Amontoados no chão Esquálidos enlaçados ‘Em beijos estupefatos Como ascetas siderados Em presença de visão. Cadáveres putrefatos Os magros braços em cruz Em vossas faces hediondas Há sorrisos de giocondas E em vossos corpos, a luz Que da treva cria a aurora. Cadáveres fluorescentes Desenraizados do pó Que emoção não dá-me o ver-vos Em vosso êxtase de nervos Em vossa prece tão-só Grandes, góticos cadáveres! Ah, doces mortos atônitos Quebrados a torniquete Vossas louras manicuras Arrancaram- vos as unhas No requinte de tortura Da última toalete [...] A vós vos tiraram a casa A vós vos tiraram o nome. Fostes marcados a brasa Depois vos mataram de fome! Vossas peles afrouxadas Sobre os esqueletos dão-me. A impressão que éreis tambores – Os instrumentos do Monstro – Desfibrados a pancada: Ó mortos de percussão! Cadáveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald! Vós sois o húmus da terra De onde a árvore do castigo. Dará madeira ao patíbulo E de onde os frutos da paz. Tombarão no chão da guerra!69
68 Discurso disponível em: <http://www.dw.com/pt/auschwitz-serve-de-alerta-contra-o-discurso-do-%C3% B3dio-afirma-merkel/a-18215629 >. Acesso em: 2 jul. 2015.
69 Disponível em: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/balada-dos-mortos-dos- campos-de-concentracao Acesso em: 5 abr 2015.
O Pastor Martin Niemöller, que inicialmente apoiou o nazismo, foi detido e mandado para o campo de Dachau por Hitler e lá fez a adaptação de um célebre poema de Maiakovsky que se tornou bastante famosa:
E Não Sobrou Ninguém
Quando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era socialdemocrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse 70
Silvia Rosa N. Lerner e Sônia Borges (2012) fizeram uma pesquisa sobre a arte produzida no período do Holocausto e detalham, por exemplo, o rico acervo cultural e artístico encontrado no campo de Theresienstadt, depois do término da guerra. Lá viveram cerca de 15 mil crianças de diferentes países71.
Importa lembrar que a indústria cinematográfica ajudou a moldar a consciência do homem a partir do século XX e instaurou o parâmetro das imagens como instância mediadora da compreensão de mundo. Adolf Hitler considerava, pois, o cinema como o instrumento ideal para influenciar as massas, sendo o grande responsável pelo sucesso das mensagens do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). Os materiais de propaganda nazista buscavam construir uma imagem grandiosa da “Nova Alemanha” e reforçava estereótipos e imagens maniqueístas, difundindo doutrinas racistas e convocando o povo à construção de uma nova ordem, baseada na tese da superioridade ariana e na infalibilidade de Hitler. Assim, muitos foram os filmes produzidos72 pelo III Reich com o objetivo de solidificar a imagem negativa dos judeus em oposição à figura positiva dos alemães. Todas as representações nazistas cinematográficas acerca dos judeus colocavam o espectador diante de personagens maldosas, feias, demoníacas e animalescas.
Um documentário que ficou muito famoso com o fim da Guerra é O Führer doa uma cidade aos judeus (1944), de Kurt Gerron, para ser exibido aos representantes da Cruz Vermelha, em visita ao campo de Theresienstadt. O objetivo era que o público internacional
70 Disponível em: <http://pensador.uol.com.br/frase/MTQ0MjEyOQ/>. Acesso em: 05 abr 2015.
71 As pinturas, desenhos, poemas, teatros e músicas eram permitidos pelos nazistas até certa época e foi justamente através dessas formas de expressões que o mundo posteriormente conheceu um pouco da vida diária no gueto, das partidas dos familiares e amigos que eram transferidos para outros campos, dos pensamentos e sentimentos das pessoas que estavam confinadas.
72 Como por exemplo, as três primeiras produções nazistas: O Jovem Hitlerista Quex (1933), O S.A. Brand (1933) e Hans Westmar: Um Dentre Muitos (1933).
não descobrisse os planos nazistas de genocídio judaico, por isso, o campo de concentração foi “embelezado”. Os judeus apareciam organizando jogos, lendo livros na biblioteca e aprendendo tarefas nas oficinas especiais. Os prisioneiros eram obrigados a representar esse teatro numa encenação macabra que culminou com o assassinato dos “atores” e do diretor, terminadas as filmagens. No entanto, a verdadeira face dos campos de concentração já havia sido – e muito - registrada pelos próprios oficiais nazistas73.
Ao final da guerra, os cineastas norte-americanos foram os primeiros a filmar o ocorrido. Um dos primeiros documentários Campos de Concentração Nazistas (1945), de George Stevens, exibe imagens dos campos de concentração contendo judeus esqueléticos, com trajes rasgados e milhares de cadáveres espalhados. Esse filme-documentário foi utilizado como “documento-prova” da atrocidade nazista nos Julgamentos de Nuremberg. Memória dos Campos, uma lembrança dolorosa (1945), de Sidney Bernstein, é outro documentário importante, pois oferece imagens da libertação do campo de Bergen-Belsen pelas tropas aliadas, em 24 de abril de 194574. O cinema documentário foi vital para o resgate da memória dessa guerra, principalmente depois da exibição da obra francesa Noite e Neblina (1956), de Alain Resnais. De acordo com Wagner Pereira (2009), o referido filme é considerado o primeiro a apresentar de forma “nua e crua” os acontecimentos dos campos de concentração, tanto que foi proibida sua exibição no Festival de Cannes, pois os organizadores não queriam tocar nas feridas e, muito menos, ofender de alguma forma o povo alemão:
A partir desse filme temos o dilema fundamental ante o fenômeno concentracionário e o extermínio dos judeus da Europa pelos nazistas: como dar conta do indizível, sabendo que nem as palavras nem as imagens conseguem fazê-lo realmente? Como continuar falando naquilo sem cair na banalização do horror? (PEREIRA, 2009, p. 44).
Shoah (1985), de Claude Lanzmann, é outro precioso documento sobre o Holocausto. Trata-se de um documentário que registra, em nove horas e meia de duração, uma série de entrevistas com sobreviventes dos campos de concentração de Treblinka, Sobibor e Auschwitz, que foram coletadas ao longo de 11 anos. A indústria cinematográfica contribuiu sobremaneira para a divulgação em massa da Segunda Guerra Mundial, constituindo uma
73 Foram encontrados filmes amadores que mostravam judeus sendo retirados à força de suas casas, arrastados pelas ruas, ante os olhares impassíveis do restante das pessoas; filmes que apresentava imagens de experimentos médicos; que mostravam judeus sendo asfixiados nas câmeras de gás em Auschwitz.
74 Pelo detalhamento de seus testemunhos, permaneceu oculto até que ,nos anos de 1980, uma cópia foi exibida no Museu de Guerra de Londres e reestreada, com narração de Trevor Howard, em 1985.
fonte valiosa para o estudo das representações políticas e culturais do Nazismo e da Shoah sob três perspectivas: o cinema como arma de propaganda nazista; o cinema como “documento- prova” dos horrores do cotidiano dos campos de concentração, utilizados nas sessões do Julgamento de Nuremberg; e o cinema do entretenimento, utilizado como representação audiovisual abordada de formas variadas.
Ao fazer um filme e assistir a ele, toda sorte de valores e julgamentos são colocados em movimento. Além disso, algumas cenas são priorizadas e outras, ocultadas. Julio Bezerra (2010), por exemplo, problematiza o que chamou de banalização do Holocausto no cinema e, para tanto, escolheu quatro filmes e analisou como eles tratam o assunto, com algumas questões prévias:
Como mostrar os campos de extermínio sem cair no folclore, no paternalismo ou num humanismo conformista e piegas? Como criar um novo modo de expressão e representação dos fenômenos e repercussões ligados ao Holocausto? O que se pode mostrar? Como se pode mostrar? Como conciliar os requisitos da ficção com os da história? Como dar forma fictícia ao crime excepcional do extermínio? Como narrar após o Holocausto? (BEZERRA, 2010, p.15).
Holocausto-espetáculo, Holocausto-burlesco, Holocausto-populista, Holocausto- humanista são alguns termos que ele utiliza para falar sobre sua percepção de alguns filmes. Foi Theodor Adorno um dos primeiros a acusar a significação midiática e espetacular desse acontecimento. Em alguns momentos, o evento perde a sua dimensão de evento histórico específico para uma estilização. “Delineou-se um conformismo ao Holocausto, um sentimentalismo em relação ao Holocausto, um cânone do Holocausto, um sistema de tabus ante o Holocausto e seu mundo linguístico ritual, desenvolveram-se produtos do Holocausto para o consumo do Holocausto.” (KERTÉSZ, 2004 apud BEZERRA, 2010, p.15).
O cinema é definido por alguns como a arte do presente. O presente aqui entendido em um sentido mais amplo, não apenas o presente instantâneo da atualidade, mas também o presente da evocação. Acreditamos que esta forma de arte tem uma responsabilidade social nas informações que oferecem ao espectador. Ainda que o público saiba que são obras ficcionais, por vezes, são confundidas com os fatos reais e contribuem com a perpetuação de ideologias de dominação. Assim, o cuidado no enredo e na caracterização dos personagens é, a nosso ver, extremamente importante para um filme.
Para este trabalho foi elaborada uma lista com os principais filmes sobre o tema (Quadro 7, no Apêndice 1), a título de ilustrar o tamanho da produção cinematográfica e como ela atinge milhões de pessoas pelo mundo, já que muitos dos filmes foram sucesso de
bilheteria. Ademais, os livros didáticos recomendam filmes como complementação ou proposta de atividade, como veremos no Capítulo 5 e no Apêndice 4