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In document Årsmelding for 2003 (sider 37-40)

”Amo quem me ofusca, pois acentua o escuro dentro de mim“. Char (2000)

Como exposto anteriormente, Lewin estruturou a pesquisa-ação com um modelo que exige continuidade. Esse passo a passo, ou esquema prático, é apontado por diversos autores a exemplo, Tripp. De acordo com o autor, o processo que siga o ciclo no qual se aprimora a prática pela oscilação sistemática entre agir no campo da prática e investigar a respeito dela é considerado uma pesquisa-ação. Tripp (2005, 445, 446)

Tripp estabelece quatro fases básicas para a realização de qualquer pesquisa- ação, como podemos observar no quadro a seguir.

Figura 5 – Quadro de fases da Pesquisa-ação de David Tripp

Ciclo da pesquisa-ação - David Tripp

Junto, na realização desta pesquisa, algumas características referentes à pesquisa- ação participante de Kemmis, à pesquisa-ação integral (P-AI) de Morin e alguns concei- tos defendidos por Barbier, estruturados no ciclo apresentado por Tripp como forma de flexibilização metodológica.

Podemos observar o empenho que os pensamentos de Kemmis têm em eviden- ciar a pesquisa-ação como uma ciência estruturada além da ciência prática e moral, mas também como ciência crítica. Segundo o autor, a pesquisa-ação é uma forma de investigação autorreflexiva em que, professores, alunos e direção, por exemplo, podem indagar às instituições educativas a fim de melhorar suas práticas e também a realidade por intermédio da racionalidade e justiça. Um dos princípios trazidos por Kemmis que contribuem com a maneira como esta pesquisa se realiza é o fato de que os sujeitos e ou contribuintes da pesquisa devem se implicar como sócios da mesma, ou mesmo como participantes ativos no processo de investigação.

Em artigo científico sobre pesquisa-ação participativa, Torrecilla (2010-2011) afirma que para Kemmis

Os principais benefícios da pesquisa-ação participante são a melhora da prática, a compreensão da prática, a compreensão da prática e a melhora da situação em que a prática tem lugar. A pesquisa-ação se propõe a melhorar a educação por meio de mudanças e aprender a partir das consequências das mudanças. O propósito fundamental da pesquisa-ação não é tanto a geração de conhecimento quanto o questi- onar as práticas sociais e os valores que a integram com a finalidade de explicitá-los. (TORRECILLA, 2010-2011, 6)

A estrutura cíclica de Kemmis pressupõe quatro etapas: Planejar, prospectiva para a ação; Agir ou atuar, sempre pautado no que foi estabelecido, planejado; Ob- servar, prospectiva para a reflexão e, por fim, Refletir, fundamentado nas observações realizadas.

De acordo com Torrecilla, essa estrutura pressupõe o desenvolvimento de um plano de ação criticamente realizado para melhorar o que está ocorrendo; um acordo para que seja possível colocar o plano em prática; a observação dos efeitos da ação no contexto em que foi realizada e a reflexão sobre os efeitos das ações para dar base a um novo plano de ação.

A estrutura estabelecida por Kemmis se aproxima em muitos aspectos da estrutura estabelecida por André Morin na pesquisa-ação integral (P-AI), à qual não pude ignorar, tomando para essa pesquisa seus apontamentos.

Barbier afirma sobre a Pesquisa-ação Integral de Morin, que esta visa que os atores de todas as condições sociais possam planejar, organizar e realizar eles mesmos as mudanças de um modo consciente, livre e inteligente com o máximo possível de reflexão. Barbier (2007, 77)

Salienta ainda que a estrutura da P-AI deve conter cinco dimensões pré- estabelecidas a serem desenvolvidas in loco: contrato, participação, mudança, discurso e ação. Estas devem possuir dinamismo e ser compreendidas de maneira interdepen- dente.

O contrato, de acordo com Morin, é uma negociação entre partes conscientes, é uma espécie de entendimento. Em geral é feito entre um grupo e o pesquisador, não importando se a procura pela realização da pesquisa parte do grupo ou do pesquisador. É preciso que esse contrato seja feito de forma aberta, formalizada e, o mais importante, que não seja estruturado, visto que isso poderia impedir formas de questionamento do processo, o que descaracterizaria a pesquisa-ação. Sobre o contrato sistematizado por Morin, Barbier salienta a necessidade de este não ser estruturado para poder adaptar-se às circunstâncias e aos imprevistos e pode levar o processo de pesquisa a ter uma cogestão. No caso desta pesquisa, o contrato foi estabelecido primeiramente com os pais e/ou responsáveis dos participantes da pesquisa e, posteriormente, com os próprios participantes, traçando objetivos iniciais e o papel (também inicial) de cada participante envolvido na pesquisa. Parte desse contrato foi realizada de forma escrita e sistematizada, em informativo de divulgação da oficina, que se encontra anexo a esta dissertação. Contudo, partes verbais e demais mudanças foram ocorrendo ao longo do processo.

Já a participação, ainda concatenando com Morin, deve ser vista na dimensão dos discursos. Esses discursos, realizados mediante participação é o que darão possibi-

lidade de gerar conteúdos referentes à pesquisa. Essa participação exige engajamento pessoal, abertura à atividade humana, sem relação de dependência, em que o diá- logo prevalece nas relações de cooperação ou de colaboração. Sobre a participação apontada por Morin, temos as palavras de Barbier ressaltando a importância de haver participação efetiva de todos, por meio de mecanismos de cooperação, a fim de que não haja conflitos durante o processo. O participante deve ter caráter ativo.

De outra parte a mudança caracteriza-se por sua definição óbvia, de passar de um estado a outro. Representa modificação, mutação, transformação. Morin esclarece que a opção pelo termo “mudança” e não “melhoria” se dá no aspecto de que “melhoria” não demonstra transformação completa. A mudança é o objetivo final da pesquisa-ação integral e seu processo deve ser realizado em uma espiral de revisões para a ação e pensamento.

Esse processo revela a produção do conhecimento, não de forma linear, mas sim num vaivém interativo pautado nas experiências dos sujeitos, mesmo que estas não estejam explícitas. Morim afirma ainda que a mudança se traduzirá na ação e no discurso. Barbier salienta sobre esse processo que a mudança estimula muito mais o ato de explorar do que o ato de verificar. É a oportunidade de se olhar para outras possibilidades.

Por sua vez, o discurso é concebido por Morin como ferramenta que possibilita aos sujeitos serem autores de sua própria história. Está pautado no que chama de projeto educativo revolucionário de educação de Paulo Freire, tendo em vista que este enxerga o homem como sujeito de sua própria história, sendo capaz de, por meio do diálogo com seus parceiros humanos, atingir um nível de consciência crítica que lhe permitirá transformar a sociedade circundante. Nas palavras de Barbier, o discurso é o entendimento em oposição à intuição. Só terá sentido se ele se inserir na ação e favorecer a interdisciplinaridade. Deve ser sobretudo compreensível a todos os sujeitos envolvidos no processo e estar interrelacionado com o vivido. Ou seja, o discurso deve favorecer a conscientização.

Por último, a etapa da ação deve trazer consigo interligação direta com a pesquisa e não a qualquer ação cotidiana. É indispensável que as ações sejam definidas por atores do grupo para não correr o risco de vir a ser hierárquica. Estudar a ação é avançar em um labirinto que conduz a lógicas existenciais e de experiências de vida. A ação terá maior eficácia quanto maior for o número de adeptos a ela. Quanto maior o consenso entre os atores da pesquisa, maior a possibilidade de compreensão do real estudado.

Há a necessidade de redação de um relatório final ao término da (P-AI) cujo objetivo é a longa análise do processo. Esta dissertação representa esse relatório.

Dois conceitos trazidos por Barbier também compõem essa pesquisa: Escuta Sensível e Escrita Coletiva.

A escuta sensível tem se tornado cada vez mais necessária e presente nas pesquisas das ciências sociais. Ela se apoia na empatia e cobra do pesquisador postura cuidadosa e atenção sobre questões afetivas, do imaginário e do cognitivo dos sujeitos. É um processo de compreensão do outro, a partir de seu “interior”. A escuta sensível reconhece a aceitação incondicional do outro. Preocupa-se em não julgar, medir ou comparar, mas sim em compreender sem necessariamente aderir às opiniões. A escuta sensível tem a pretensão de abrir um novo leque de possibilidades de “modos de existência”, diferentes dos papéis e status já ocupados pelo sujeito. Pretende compreendê-lo em seu ser, como pessoa complexa que possui liberdade e imaginação criadora. Deve haver, no entanto, o cuidado de não limitar a escuta sensível à projeção de angústias e desejos. Seu objetivo deve ser evidenciar a relação do sujeito com a realidade.

Ainda de acordo com Barbier, a escuta sensível não deve estar assentada sobre as interpretações dos fatos. Isso porque a ausência de interpretação também reduzirá a possibilidade de julgamentos. Os sujeitos que passam pela escuta sensível precisam atribuir sentido ao fato. É necessário que ele seja retraduzido em função do contexto.

Por fim, trago a escrita coletiva, que tem caráter contrário à forma como é feita a redação final da pesquisa clássica. Como forma de assegurar que no relatório final não conterão apenas as impressões do pesquisador ou até mesmo uma unidade de estilo, a escrita coletiva busca dar voz a todos os sujeitos participantes. Não há necessidade de que todos os textos sejam escritos coletivamente, mas sim que os textos sejam colocados ao acesso de todos para possibilitar questionamentos. A escrita coletiva permite que não esteja presente o rigor acadêmico em determinada parte do relatório. Trechos pessoais ou mesmo ingênuos em conjunto com elementos descritivos e teóricos podem estar presentes na redação final. Também há aí espaço para desenhos, fotografias, poemas etc. É nessa dinâmica, ressalta Barbier, que se encontra a natureza essencial da pesquisa-ação.

É importante observar como a pesquisa-ação dialoga de maneira tão próxima com o estudo do meio, em que, como afirmam Pontschka e Lopes, todas as etapas e respectivas ações que o estruturam são realizadas na busca de acordos e contratos pedagógicos possíveis que, sem negar os conflitos consubstanciais a qualquer relação social, têm, como ponto de partida e chegada, a realidade vivida pelas pessoas envol- vidas na construção de um projeto educativo em uma determinada unidade escolar. (LOPES; PONTUSCHKA, 2009, 174)

A utilização dessas etapas e ferramentas metodológicas apresentadas pela pesquisa-ação permite a aproximação entre os sujeitos da pesquisa facilitando o

desenvolvimento do processo e o caminho em busca de soluções para as inquietações que nos guiam durante a pesquisa. Compreender a pesquisa qualitativa como meio de estudar o sujeito como fator fundamental para e na construção do conhecimento traz, a meu ver, significação efetiva ao conhecimento.

Quando busco mecanismos de ensino de teatro por meio da leitura da espaciali- dade e me amparo nas possibilidades da pesquisa-ação, me insiro na totalidade da pesquisa entre todos os sujeitos imersos nela, evidencio minhas limitações e tenho a possibilidade de ampliar minha visão, ver de outros ângulos. Conquisto a possibilidade de absorver da fluidez das minhas certezas uma quantidade enorme de equívocos. Percebo-me aprendendo a ver novamente, agora, sabendo a importância real de todos os outros olhos.

In document Årsmelding for 2003 (sider 37-40)