O presente estudo confirma o pressuposto de que o desempenho é reduzido em ambiente quente, uma vez que o tempo para completar os 30km nesse ambiente foi maior que o observado em ambiente temperado. De forma semelhante a estudos anteriores (CREWE, et
al., 2008; NYBO, 2008; MARINO, LAMBERT; NOAKES, 2004; NYBO et al., 2001;
GONZÁLES-ALONSO et al., 1999), o exercício realizado em ambiente quente resultou em maiores temperaturas interna e média da pele, taxa de acúmulo de calor, sudorese total e taxa
de sudorese quando comparado ao realizado em ambiente temperado. Durante o exercício em ambiente quente, além da manutenção da perfusão tecidual, ocorre aumento do fluxo sanguíneo na pele para dissipar o calor corporal, resultando em aumento dademanda cardiovascular, que é um mediador da percepção do esforço (CHEUVRONT et al., 2010). No entanto, não foram verificadas diferenças na FC, VO2 e lactatemia entre os exercícios
realizados nos diferentes ambientes. Dentro dessa perspectiva, é possível supor que os voluntários, a partir do conhecimento da atividade a ser realizada, se dispuseram a ter um determinado gasto energético. Esse balanço, em conjunto com a temperatura ambiente, resultou em uma menor intensidade de exercício em ambiente quente, comparado ao temperado, para tentar compensar o maior estresse térmico associado ao ambiente quente (NIKOLOPOULOS et al., 2001; BARON, et al., 2011; TUCKER, 2009;).
No AR35 a potência até o 10okm não foi diferente daquela observada no AR24, sendo esse
achado semelhante ao identificado por Tatterson et al. (2000) e Tucker et. al. (2004). Estes autores verificaram redução na intensidade do exercício realizado em ambiente quente somente após 30% da distância total completada. Esse resultado corrobora a premissa de que a intensidade imposta no início do exercício é determinada por um mecanismo antecipatório, de acordo tanto com a expectativa quanto com a motivação prévias do indivíduo em relação à tarefa (GIBSON, 2006; GIBSON; FOSTER, 2007). Os ajustes subsequentes na intensidade ocorreriam de acordo com a relação dessa pré-alimentação com as alterações fisiológicas decorrentes do exercício e do ambiente em que é realizado.
No presente estudo, quando comparado ao ambiente temperado, antes mesmo do início do exercício, já foram observados maiores valores de Tpele em ambiente quente. Já nos
quilômetros iniciais de exercício, além da temperatura da pele, também foram observados maiores valores de VO2, LAC e Tretal em ambiente quente nos exercícios de intensidade
autorregulada. Apesar dessas diferenças, somente no 12okm ocorreu redução da intensidade no exercício AR35.
No estudo de Schlader et al. (2011) os autores verificaram que ciclistas treinados reduzem a intensidade média do exercício (3% inferior) quando somente a pele encontra-se aquecida antes do início do exercício, o que foi atribuído à menor intensidade nos primeiros momentos do exercício. Segundo esses autores, as aferências dos termossensores periféricos já seriam mediadores do controle da intensidade do exercício, pois indicariam a capacidade de
dissipação de calor em relação ao meio. No entanto, no estudo de Schlader et al. (2011), os autores manipularam a temperatura da pele dos voluntários que, ao início do exercício, já apresentava 5,8°C de diferença entre as situações. No presente estudo essa diferença foi de apenas 2,8°C, entre os ambientes, fator que pode justificar a ausência de diferença na intensidade no início do exercício. De fato, Barwood et al. (2011) verificaram que a modificação da temperatura da pele em aproximadamente 1o C e a mudança no conforto térmico antes do exercício realizado no calor não é suficiente para alterar a estratégia inicial e nem o desempenho durante 40km de ciclismo. Além disso, no presente estudo, o curto período de tempo (5 minutos) em que os voluntários permaneceram no interior da câmara antes do início do exercício pode ter sido um fator que impossibilitou que a temperatura da pele atingisse valores elevados que levassem a modificações na intensidade inicial do exercício.
O aumento da temperatura da pele está associado à vasodilatação e ao ganho de calor proveniente do ambiente no início do exercício. No presente estudo, em ambos os ambientes o aumento de fluxo sanguíneo cutâneo foi suficiente para manter a temperatura da pele superior a do ambiente, permitindo um delta para a perda de calor. Como esse delta de temperatura foi menor em ambiente quente, foi verificado uma maior sudorese total (AR35, 1,74 ± 0,27 l e
AR24, 0,30 ± 0,08 l) e taxa de sudorese (AR35,1,72 ± 0,27 l.h-1 e AR24, 1,34 ± 0,13 l.h-1) nessa
situação em relação ao ambiente temperado. Essa maior ativação dos mecanismos termorregulatórios foi suficiente para manter a dissipação de calor eficiente, evitando que valores críticos de temperatura interna fossem atingidos.
No presente estudo, a redução na intensidade no AR35 ocorreu próximo aos momentos em que
foi observada uma maior taxa de acúmulo de calor (8° ao 14° km), maior desconforto térmico para o ambiente quente (a partir do 10°km) e maior PSE (14° ao 16°km) em relação ao ambiente temperado. Esses resultados acordam com estudos que mostram que o desempenho físico e os ajustes na intensidade são influenciados pela taxa de acúmulo de calor (BALTHAZAR et al., 2010; TUCKER et al., 2006; SOARES et al., 2004; RODRIGUES et
al., 2003), e que a percepção de esforço, juntamente com o conforto térmico, podem modular
os ajustes “termo-comportamentais” da intensidade durante o exercício (TUCKER et al., 2006; TUCKER, 2009; CHEUNG, 2010; SCHLADER et al., 2010a; NOAKES, 2012).
Rodrigues et al. (2003), Walters et al., (2000) e Marino et al., (2004), em estudos anteriores, relataram que a taxa de aumento da temperatura interna é um fator crucial para a fadiga no ambiente quente, o que vai ao encontro de achados do presente trabalho, uma vez que a taxa de acúmulo de calor foi calculada a partir da temperatura retal. Esses resultados evidenciam um ajuste contínuo do recrutamento motor durante exercício com aquecimento gradual, e sugerem que as alterações na temperatura interna possam ter maior influência na capacidade de recrutamento motor do que as alterações na temperatura da pele (MORRISON et al., 2004; THOMAS et al., 2006).
De fato, no presente estudo, não é possível descartar a contribuição do alcance de valores elevados de temperatura interna para o desenvolvimento da fadiga. Uma vez que foram registrados, para a temperatura retal dos voluntários, valores superiores a 39°C ao final do exercício em ambiente quente, pode-se sugerir que, em conjunto com a taxa de acúmulo de calor, o alto valor de temperatura tenha desencadeado ajustes na intensidade do exercício. Assim, pode-se concordar que a temperatura interna seria, além de um sinalizador, um parâmetro de modulação do desempenho físico (MORRISON et al., 2004; THOMAS et al., 2006).
Vale ressaltar que alguns voluntários alcançaram valores considerados ``críticos`` de temperatura retal em algumas das situações experimentais (>39,5°C) (GONZALES- ALONSO, et al., 1999). Entretanto, todos indivíduos eram treinados e não apresentavam nenhum sinal ou sintoma patológico; por isso, nas situações em que atingiram tais valores de temperatura retal, e, a partir de um acordo verbal e positivo por parte dos voluntários, os pesquisadores decidiram não interromper o experimento. Além disso, já foi demonstrado que indivíduos treinados podem manter a intensidade do exercício com valores de temperatura retal superiores a 40°C, sem qualquer detrimento à saúde (ELY et al., 2009).
A maior temperatura da testa no 10°km do exercício AR35, em relação ao seu início,
coincidindo com os momentos de ajuste de intensidade, sugere que esta tenha sido uma resposta associada ao controle da temperatura central a partir de ajustes comportamentais (COELHO et al., 2008). Já foi demonstrado que as regiões da face e da cabeça têm uma maior sensibilidade térmica às mudanças da temperatura, gerando maiores alterações sudoríparas e de conforto térmico, se comparadas às outras regiões corporais de mesma área (COTTER e TAYLOR, 2005; MAGALHÃES, 2007; NAKAMURA et al., 2009). Isso ocorreria devido a
uma maior densidade de termoreceptores e maior fluxo sanguíneo nessas regiões (WA; MAIBACH, 2010). No entanto, mais estudos ainda são necessários para investigar a importância relativa da temperatura de diferentes regiões do corpo e sua influencia no processo de fadiga.
No presente estudo, até o 10°km e no 5°km de exercício, também foram observados maiores VO2 e LAC, respectivamente, no AR35 comparado ao AR24, momentos nos quais não foram
identificadas diferenças na intensidade entre as situações. Esses achados evidenciam a necessidade de um aumento do VO2 devido aos ajustes termorregulatórios (FEBBRAIO,
2001). Sugere-se ainda que o aumento na lactatemia pode estar relacionado atenuação do fluxo sanguíneo tecidual devido a maior demanda termorregulatória (FINK et al., 1975),a alteração no padrão de recrutamento muscular (YOUNG et al., 1985) e/ou por um aumento da ativação simpática (FEBBRAIO et al., 1994; DE BARROS et al., 2011) em ambiente quente. Essas alterações podem resultar no aumento da lactatemia para uma determinada intensidade absoluta de exercício e, até mesmo, influenciar o limiar de lactato (DE BARROS et al., 2011). Apesar dessas diferenças no VO2 e na lactatemia entre os ambientes, quando analisada a
média dos 30km de exercício, não foram observadas diferenças. Esses resultados reforçam a proposta de que os ajustes que ocorreram na intensidade do exercício permitem a adequação do esforço do indivíduo de acordo com as respostas dos sistemas fisiológicos envolvidos, os quais sofrem influência do ambiente em que é realizada a tarefa e da motivação do indivíduo (MARTINI, 2009; SCHALDER et al., 2010a)
A estratégia de ingestão ad libitum de líquidos , utilizada no presente estudo, foi eficiente para a manutenção, independente do protocolo, do estado de hidratação dos indivíduos - que foi avaliado pela densidade urinária após o exercício em ambos os ambientes. Isso corrobora a efetividade da hidratação baseada na sede como suficiente para manter o estado de euhidratação (MACHADO-MOREIRA et al., 2006; NOAKES et al., 2007, DUGAS et al., 2008; NOLTE, 2011; NOAKE, 2012).
Antes do início de todas as situações experimentais, a glicemia dos voluntários não diferiu entre as situações: aproximadamente 106,2 ± 5,16 g/dL, valores que estão de acordo com os estudos nos quais os indivíduos se alimentaram previamente ao início do exercício (ABBISS
et al., 2008; MADSEN et al., 1996;). Ao final do exercício, não foram observadas diferenças
exercício foi capaz de evitar o estado hipoglicêmico ou que os indivíduos sentissem fome – não reportada por nenhum voluntário – e uma possível influência no desempenho devido a um jejum prévio (LANDSBERG e YOUNG, 1978; GOMES, 2008).
Os achados do presente estudo, portanto, concordam com a proposta de que a fadiga é o resultado do processamento, de forma integrada e dinâmica, pelo sistema nervoso central, das modificações fisiológicas induzidas pelo próprio exercício. Assim, ao contrário do pressuposto de que os mecanismos que desencadeiam a fadiga seriam dependentes do protocolo de exercício realizado (LANDER, et al. 2009; SCHLADER, et al. 2010; THOMPSON et al., 2011; MARINO, 2012), a diminuição da intensidade no exercício autorregulado, ou a interrupção do exercício de intensidade fixa, representariam a consequência de um processo multifatorial, controlado centralmente, de prevenção do rompimento da homeostase ou da falência orgânica (NOAKES, 2012).
Assim como é reportado pela literatura, também neste estudo, em exercício autorregulados, a coordenação entre aferências e eferências resultou nas oscilações de potência que, vistas em conjunto no final do exercício, geraram a curva de desempenho (MAUGER et al, 2009; ST CLAIR GIBSON et al., 2006).Contudo, quando essa curva foi modificada de forma imposta - mas baseada na estratégia adotada pelo próprio indivíduo -, não ocorreram grandes alterações no estresse associado ao exercício.
Dessa forma, um indivíduo treinado e familiarizado com a tarefa pode, mas não necessariamente precisa, ter a intensidade estipulada como uma estratégia prévia para atingir seu desempenho ótimo.