A conceituação de Estado acompanha o próprio desenvolvimento humano. A existência do mesmo evoluiu com a necessidade de organização de cada sociedade. O Estado patrimonialista, que foi característico das monarquias absolutistas pré-capitalistas, tinha como princípio a não distinção entre o patrimônio público e o privado. O feudalismo não distinguia claramente a propriedade da terra, senhores feudais não se constituíam proprietários de terra, pois não havia um Estado de direito que lhes garantisse a propriedade da área que habitavam, mas possuíam a autorização real de utilizar aquelas terras e de ter servos e vassalos trabalhando nas mesmas. Com o desenvolvimento do capitalismo, surge o Estado liberal burguês, baseado em um estado formado pelas classes dominantes, cujas principais características estavam na proteção à propriedade individual e à liberdade econômica.
O Estado liberal burguês vem de uma necessidade da nova classe dominante, para a qual a garantia à propriedade se tornava imperiosa para o desenvolvimento capitalista. O Estado liberal burguês era um mero articulador das necessidades da elite dominante, garantindo a proteção ao patrimônio e defendendo os seus interesses econômicos. O liberalismo econômico, defensor das decisões de desenvolvimento, investimento e da alocação eficiente dos fatores nas mãos do mercado, não surtiu o sucesso e o efeito esperados em todas as economias existentes, gerando assim, no início do século XX, pressões de vários sentidos para que o modelo liberal fosse revisto ou abandonado. O Estado não intervencionista garantidor dos interesses privados e da propriedade não atendia as necessidades de várias economias do ponto de vista social e as necessidades de desenvolvimento, principalmente das economias em desenvolvimento.
Um dos primeiros movimentos de ruptura dos antigos padrões de Estado, ocorre na Rússia, com a evolução do socialismo e o fim do czarismo. O modelo de Estado adotado se definia como um poder do proletariado, por meio da criação de um Estado autoritário, tido como um governo do povo. Nos países Centrais, os Estados passam a se desenvolver com um maior interesse social. As pressões
sociais vindas das classes operárias, que já não mais suportam a exploração do trabalho, latente durante os períodos mais selvagens da Revolução Industrial e do florescimento do capitalismo, levam à criação dos regimes de social-democracia, onde o Estado passaria a ter uma papel mais atuante no setor social, garantindo direitos civis e regulando a exploração do trabalho, criando assim o Estado de Bem- Estar Social.
O Estado de Bem-Estar Social deveria garantir e defender os interesses do capital, pois estaria inserido em um ambiente capitalista, cujos interesses privados e individuais devem ser protegidos, mas ao mesmo tempo deve defender os interesses coletivos e sociais. O Estado se veria obrigado a corrigir as imperfeições criadas pela economia de mercado, suprindo assim as deficiências que o mercado não foi capaz de atender, seja por deficiência de recursos, seja por não atratividade fruto da baixa rentabilidade esperada em relação a outros possíveis investimentos, e ao mesmo tempo dar condições à livre iniciativa e garantir a propriedade privada. A partir da década de 1930, é possível definir a existência de três linhagens de Estado: a) O Estado do Bem-Estar Social, principalmente nos países do chamado primeiro mundo; b) O Estado Comunista, nos países do segundo mundo; e c) o Estado Desenvolvimentista, no terceiro mundo. (BRESSER-PEREIRA, 1998).
Nos anos 1970, os modelos de Estado existentes começam a perder a sua força – uma série de sucessivas crises assolam a capacidade do Estado em se manter como gestor principal do bem-estar e do desenvolvimento. As crises do petróleo em 1974 e 1979 aplicam um duro golpe nos custos para todos as economias mundiais. A crise do endividamento público americano no final dos anos setenta leva os mesmos a adoção de políticas econômicas ortodoxas, e ao aumento da taxa de juros como forma de contenção do processo inflacionário. Ao mesmo tempo, durante os anos 1970 há o desenvolvimento de um mercado financeiro internacional, em que os recursos podiam se movimentar livremente, criando assim uma escala global de liquidez, onde os Estados Nacionais passam a perder o controle sobre a disponibilidade de moeda. (COSTA, 2000)
A inflação crescente durante os anos setenta em grande parte das economias mundiais, aliadas à estagnação econômica, faz ressurgir ideais do liberalismo
econômico. Os custos para a manutenção do bem-estar social e das empresas públicas, muitas vezes deficitárias, e estruturas governamentais grandiosas são considerados muito altos e parcialmente responsáveis pela inflação (COSTA, 2000).
Esta crise do Estado62 é marcada pelas crises fiscais, caracterizada pela perda do crédito público e da incapacidade do Estado em criar uma poupança pública, uma vez que a sua principal fonte de recursos está na arrecadação de impostos, que é reduzida em momentos de recuo econômico, pelo esgotamento nas formas de intervenção e pela obsolescência da forma burocrática de administração. A crise se manifestou nos três principais modelos de Estado existentes: “a crise do
welfare state no primeiro mundo, o esgotamento da industrialização por substituição
de importações na maioria dos países em desenvolvimento, e o colapso do estatismo nos países comunistas.” (BRESSER-PEREIRA, 1998, p. 36).
62 É inegável que o modelo de intervenção estatal serviu para acumulação do capital, sendo marcado
pelo crescimento da indústria bélica, que tem como seu maior comprador os governos nacionais, principalmente o governo Norte-americano. O modelo de substituição de importações era alicerçado na participação do Estado como agente de desenvolvimento da infra-estrutura, mas também como produtor de bens e o modelo protecionista europeu. (COSTA, 2000)