Os contos de Marina Colasanti, escritora brasileira, foram escolhidos devido ao fato de a autora ter como uma das temáticas de sua obra as relações entre homens e mulheres. Colasanti apresenta suas personagens femininas em constante conflito com as personagens masculinas, na medida em que apresenta a índole masculina como dominadora e a vivência do amor conjugal constantemente simboliza, para as personagens femininas, a perda da autonomia e liberdade.
As personagens femininas estão sempre “entre” (palavra que compõe muitos títulos de contos de Colasanti) uma coisa e outra – fato que podemos relacionar com a atualidade, isto é, as mulheres na contemporaneidade vivenciam, constantemente, situações parecidas, ou seja, têm que escolher, muitas vezes, entre a vida profissional e a família, entre a relação conjugal dominadora e suas liberdades e autonomias, enfim, situações conflituosas que advêm da difícil realidade de conciliar as múltiplas tarefas que acumulam e a forte presença da ideologia machista, que encontra resistência nas concepções e ideais feministas.
A partir da seleção dos sujeitos da pesquisa, eles e elas participaram, juntamente com os outros alunos e alunas da sala de aula selecionada, de momentos de reflexão e debate que envolveram a leitura e análise dos seguintes contos da escritora Marina Colasanti: Entre a Espada e a Rosa, De Água nem Tão Doce, Entre as Folhas do Verde O, Entre Leão e Unicórnio e A Moça Tecelã*.
Os contos citados foram selecionados por conta das reflexões que se buscou proporcionar durante o desenvolvimento do projeto escolar “Mulheres e Homens pela Igualdade entre os Sexos”; o intuito era o de que as leituras estivessem relacionadas com as categorias centrais desta pesquisa. O objetivo era o de fazer uso da literatura infanto-juventil como recurso para o debate que inspira a Educação em Direitos Humanos, com foco nas relações sociais vivenciadas entre os sexos, no que se refere especificadamente à questão da mulher.
Na sequência, apresento uma síntese dos contos citados e suas relevância para a discussão almejada.
Entre a Espada e a Rosa
No estudo do primeiro conto, ou seja, Entre a Espada e a Rosa, a proposta era a de promovermos uma reflexão sobre a divisão sexista do trabalho em nossa sociedade, assim como ocorre nas brincadeiras infantis.
Nessa história, a personagem feminina central, após saber que teria que se casar com
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* Os contos citados foram retirados da obra Um espinho de marfim, com exceção do conto Entre as
folhas do verde O que adveio do livro Uma idéia toda azul – ambos citados nas referencias
um homem desconhecido escolhido por seu pai, acorda milagrosamente com uma barba e por isso é expulsa de sua casa pelo pai. A partir de então tenta conseguir trabalho, entretanto, não consegue pelo fato de não ser reconhecida nem como homem, nem como mulher, pois tinha um corpo e rosto feminino, mas possuía uma barba. A princesa passa a trabalhar como guerreira, sem apresentar sua verdadeira identidade, permanecendo sempre com seu rosto e corpo cobertos por um elmo e uma armadura. Ela, posteriormente, começa a trabalhar para um jovem príncipe, por quem se apaixona, mas não revela o seu amor, por sentir que seria rejeitada se o príncipe descobrisse que seu melhor amigo e companheiro de guerra era, na verdade, uma mulher barbada. A barba da princesa, novamente de forma mágica, transforma- se em rosas e depois desaparece. A história tem seu término quando a princesa sai em busca do príncipe para declarar o seu amor.
De Água nem Tão Doce e Entre as Folhas do Verde O
Já no segundo e terceiro contos, respectivamente De Água nem Tão Doce e Entre as Folhas do Verde O, a proposta era a de refletirmos sobre a segunda e terceira categorias, ou seja, sobre como a ideologia machista apresenta a mulher como objeto e propriedade dos homens, como tal ideologia também impõe padrões de beleza que visam sempre a adequação das mulheres aos desejos estéticos masculinos e eurocêntricos. E, sob tal perspectiva, a união conjugal configura-se como um cárcere para algumas mulheres, já que não podem vivenciar seus próprios desejos e, da mesma forma, faz-se como uma ação de violência. Assim, os contos relacionam-se com a realidade atual, na qual a luta feminista ainda se faz necessária.
No conto De Água nem Tão Doce a personagem feminina é uma sereia que quando ainda era pequena foi “pescada” por um homem, que passou a criá-la em uma banheira em sua casa. O homem a fazia tingir os cabelos, pois a sereia tinha os cabelos negros e o homem
acreditava que as sereias deveriam ser loiras. Conta a história que durante todo o tempo em que viveram juntos, o homem levou-a somente uma única vez para ver o mar, contudo, nessa ocasião, a sereia ficou todo o tempo presa por uma coleira e ao ver o mar chorou flocos de espuma.
Já no conto Entre as Folhas do Verde O, a personagem feminina central, uma mulher-corça, ou seja, metade mulher, metade corça, é aprisionada por um príncipe que literalmente a caça. A mulher-corça e o príncipe se apaixonam, mas ela não consegue vivenciar totalmente esse amor, pois sentia saudades de sua liberdade e de seu habitat natural. A mulher-corça e o príncipe não conseguiam se comunicar, pois falavam línguas diferentes, e devido a um engano de interpretação do príncipe, que acreditava que a mulher-corça estava triste porque queria ser somente mulher, a mulher-corça se transforma somente em mulher por meio da ação de um feiticeiro convocado pelo príncipe. Assim que a mulher começa a aprender a andar em sua nova forma, ela foge do castelo e, chegando novamente à floresta, vai ao encontro da Rainha das Corças que a transforma somente em uma corça. A história termina com a corça (ex-mulher) pastando sob as janelas do palácio, onde o príncipe habitava.
Entre Leão e Unicórnio
O quarto conto, denominado Entre Leão e Unicórnio, também se relaciona à segunda categoria e objetivava problematizar as relações entre homens e mulheres, fazendo-os (as) conscientes de que determinadas condutas podem ser machistas, mas também femistas, ou seja, que as mulheres também praticam, em algumas situações, atividades de violências, preconceito e intolerância contra os homens. Pois, a proposta do estudo era a de dotar os educandos e educandas de uma postura feminista, isto é, de uma consciência de que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos e deveres.
Nessa história, a personagem central, uma rainha, não consegue sonhar, pois um feroz leão guardava as portas de seus sonhos. Com o auxílio do marido, que corta as patas do leão, ela começa a ter sonhos maravilhosos que se materializam em seu quarto. Um desses sonhos abre caminhos para que um unicórnio a visite, e o rei, envolvido pela beleza e mistério do exótico animal, passa a montá-lo e sair pelo mundo dos sonhos, enquanto a esposa dormia. Com o tempo, o rei fica cada vez mais envolvido com o unicórnio e seus passeios noturnos, não dando mais atenção ao castelo e à sua esposa. A rainha, então, pede a uma ama que costure novamente as patas do leão que não permitia que ela sonhasse; assim, o unicórnio passa a não mais se materializar.
Na verdade, esperava que os alunos e alunas compreendessem que a atitude da rainha havia sido inicialmente egoísta, pois ao fazer com que o rei não mais pudesse ficar com o unicórnio, pensou exclusivamente nela e em seu reinado, e não no rei. Gostaria que os alunos e alunas entendessem que a mulher também pode conceber o homem como objeto, a partir de atos de intolerância e violência. O texto também pretendia demonstrar a submissão feminina frente ao masculino, na medida em que a rainha não consegue viver sem a atenção do marido.
A Moça Tecelã
O quinto e último conto analisado, ou seja, A Moça Tecelã, teve como intuito promover uma reflexão sobre a terceira categoria, a fim de que promovêssemos uma reflexão sobre a luta feminista na atualidade, isto é, sobre o “futuro a ser tecido” por homens e mulheres.
Nessa história temos uma personagem que é uma tecelã, uma moça que tinha um tear mágico no qual tudo o que tecia se transformava em realidade. A moça, chegado um tempo, decide criar um marido e assim o faz. Inicialmente foi feliz com o homem, contudo,
ludibriado pelo poder do tear, o homem queria sempre mais e mais riquezas, e com a desculpa de que alguém poderia lhes roubar o tear mágico, o marido tranca sua esposa “no mais alto quarto, da mais alta torre”. Infeliz, a moça “destece” o marido.
O propósito do estudo do referido conto era problematizar aos educandos e educandas o fato de que os acontecimentos sociais são históricos e que, portanto, podem ser modificados pela ação humana. O conto também se relaciona com a segunda categoria, pois, mais uma vez, há a presença da ação masculina como dominadora, no sentido de agir frente ao feminino como se esse fosse um objeto a ser manipulado como bem se entende. Nesse caso, assim como nos contos Entre a Espada e a Rosa e Entre as Folhas do Verde O, a personagem feminina não aceita a condição que lhe é imposta, agindo em prol de sua liberdade.
Ao debater a primeira e segunda categorias, pretendi promover uma reflexão sobre como ainda não vivenciamos uma sociedade com equidade entre homens e mulheres, portanto, pretendia ir ao encontro da terceira categoria. Dessa forma, verifica-se que as categorias formuladas complementam-se, pois a divisão sexista das práticas sociais, a violência a que os corpos e vidas das mulheres são submetidos ainda revelam a necessidade de que a luta feminista se faça sempre presente, levando-se em consideração que a ideologia machista permeia nossa cultura.
As interpretações dos contos realizadas durante as aulas, as quais foram registradas no Diário de Campo, basearam-se em tentar realizar associações entre os textos produzidos por Colasanti e a realidade social vivenciada pelas mulheres na contemporaneidade.