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Quando se está a fazer uma investigação os dados representam o material bruto a partir do qual o investigador realiza as operações que lhe permitem estruturar o conjunto das informações num todo coerente e significativo. Assim, a análise de dados refere-se ao conjunto de manipulações, operações, reflexões, comprovações realizadas sobre os dados com a finalidade de extrair significados relevantes que dizem respeito à problemática da investigação (Gómez, Flores e Jiménez, 1999). Neste estudo, tal como em outros estudos qualitativos, o registo de dados foi elaborado a partir dos dados em bruto gerados no campo e resultou da transformação desses dados brutos numa forma organizada (ou seja, facilmente acessível) e flexível (ou seja, acessível de muitas maneiras).

Analisar dados qualitativos pressupõe examinar sistematicamente um conjunto de elementos informativos para delimitar as partes e descobrir as relações entre elas e as relações com o todo. A análise de dados pretende alcançar um maior conhecimento da realidade estudada e, através da sua descrição, interpretar os seus significados para chegar a uma compreensão dos fenómenos que são objecto de estudo. Na investigação qualitativa, como é o caso deste estudo, os dados vão sendo analisados à medida que se vão recolhendo de modo a possibilitar a recolha de novos dados para responder às questões e situações que vão emergindo no decorrer da investigação. A interpretação dá origem aos múltiplos significados da experiência transformativa. A interpretação é transformadora. O significado e a interpretação estão profundamente ligados entre si.

Importa salientar que o carácter polissémico, a natureza pluridimensional e o grande volume de dados recolhidos, ao longo desta investigação, tornaram difícil e complexa a sua análise. Esta complexidade tornou-se ainda maior porque os distintos momentos do processo investigativo se sobrepuseram, entrecruzam, reiteram. Como salientam Graue e Walsh (2003) uma das particularidades que distingue a investigação interpretativa de outros tipos de investigação é a sua natureza iterativa (isto é, não linear) – os passos do processo informam-se entre si de maneira que não são sequenciais. Aliás, o processo é recursivo (189), argumentam os autores. Os próprios

passos do processo transmitem informação uns aos outros para que se atinja a coerência através da convergência de conceitos e de experiências.

A interpretação é descrita por Denzin (1994) como o processo de passar da informação do campo da investigação para o texto e daí para o leitor. As tarefas do investigador são as de gerar os dados, lidar com o corpo dos dados, construir o texto e criar uma narrativa acessível ao leitor. A interpretação é também, para este autor, uma questão de relações entre os dados, ou seja, a forma como o investigador trabalha para desenvolver pontos de vista múltiplos para os dados gerados no campo. Stake (1998) refere uma agregação categórica (acumulação de exemplos de conceitos importantes) ou interpretação directa. Huberman e Miles (1994) delineam o processo de análise dos dados como redução dos dados, configuração dos dados e apresentação de conclusões/verificação estabelecendo relações entre os dados. Strauss (1987) descreve a indução, a dedução e a verificação focalizando-se nos processos analíticos e Wolcott (1992) prevê uma trilogia composta por descrição, análise e interpretação que vai de contar a explicar. Interpretar é simultaneamente separar e juntar, uma actividade analítica e sintética, descritiva e evocativa (Graue e Walsh, 2003), alcançada através da uma persistência esforçada do investigador.

No caso deste estudo, pode enunciar-se um conjunto de procedimentos para interpretação dos dados que envolveu a sua análise exaustiva e que obedeceu aos seguintes passos:

• leitura e exploração metódica de toda a informação; • definição de categorias e classificação da informação;

• nova análise da informação incluída em cada categoria, para determinar as suas orientações e tendências.

Como já foi referido, a investigadora, desde o início da recolha de dados, teve sempre a preocupação com a análise permanente da informação. Essa análise permitiu dar corpo à própria formação e orientar e regular o trabalho de pesquisa em função das novas realidades encontradas. O tratamento da informação resultante das notas de campo, dos registos escritos, das produções de natureza reflexiva e das evidências significativas (como fotografias e filmes) efectuou-se ao longo do percurso da investigação, através de procedimentos de organização, sistematização, análise documental, sugerida pela produção do estudo e não a pretexto de objectivos ou categorias previamente definidas.

A leitura do material e a exploração metódica da informação teve como principal objectivo detectar as ideias principais, isto é, as linhas de força dos dados (González,

2002) para encontrar coerência ou eventuais contradições. A leitura exaustiva e a exploração metódica da informação possibilitaram a ordenação dos dados e a sua organização em grandes unidades de análise transformando-se os dados em bruto em subconjuntos manuseáveis. A determinação destes subconjuntos teve em atenção o enquadramento teórico, os objectivos da investigação e a natureza da informação que, neste processo de construção de categorias, se considerou imprescindível. Pretendia-se, com a leitura e analise dos dados, descobrir o significado de que cada conjunto de informação continha. O dispositivo analítico usado foi a categorização (Máximo- Esteves, 2008, p. 104). A categorização baseia-se na codificação do texto em categorias que foram interpretadas de modo narrativo. Este processo é um processo de redução dos dados que procura a identificação e a codificação das unidades de análise presentes no texto, reunindo interpretações para que sejam mais manuseáveis. As operações usadas neste processo foram:

1. a fragmentação do texto em unidades de sentido; 2. a codificação dessas unidades de sentido;

3. a identificação de padrões e de recorrências mais consistentes de padrões ou temas;

4. identificação do fio relacional entre os elementos que a investigadora entrelaça para responder coerentemente às questões da investigação (Máximo-Esteves, 2008).

Para que as categorias se tornassem mais perceptíveis reagruparam-se em dois grandes temas:

1. reconstruindo a prática avaliativa através da documentação pedagógica;

2. condições faciltadoras do processo de documentação.

O tema designado reconstruindo a prática avaliativa através da documentação

pedagógica agrupa as categorias que recolhem evidências sobre o que motivou as

educadoras (envolvidas neste estudo) para se apropriarem de um sistema de documentação capaz de sustentar o processo de monitorização e de avaliação das aprendizagens das crianças e coerente com os princípios e os valores da Pedagogia-em- Participação; as categorias que recolhem evidências sobre as dificuldades que se apresentam à aprendizagem profissional na apropriação da documentação pedagógica e ainda as categorias que recolhem evidências sobre as conquistas que se desenvolveram nesse processo.

(notas de campo e diário da investigação), dos portfólios das crianças e dos registos fotográficos.

O tema designado condições facilitadoras do processo de documentação agrupa as categorias que recolhem evidências sobre as condições estruturais facilitadoras da aprendizagem profissional da documentação pedagógica. Estas categorias reúnem informação resultante das entrevistas realizadas às educadoras e da observação participante (notas de campo e diário da investigação).

Para permitir uma interpretação mais profunda, procedeu-se a uma reorganizou- se da informação e a uma redução dos dados em função das categorias definidas. A informação foi submetida a uma nova análise procurando-se identificar subunidades no interior das categorias encontradas. De seguida estabeleceram-se paralelos entre as informações tendo em conta as matrizes delineadas de modo a sintetizar as unidades de registo. Finalmente fez-se uma nova leitura da informação para que a fragmentação analítica permitisse a compreensão global da história (Máximo-Esteves, 2008), isto é, a compreensão do processo colaborado de reconstrução da praxis.

A apresentação dos dados garantiu a confidencialidade21 dos sujeitos que integram o grupo desta pesquisa.

O processo usado para permitir integrar e contrastar toda a informação disponível foi a triangulação.

Credibilidade
do
processo
investigativo:
a
triangulação



Cohen e Manion (1990) consideram que a triangulação é especialmente útil no estudo de caso e possibilita a emergência de uma multiplicidade de perspectivas presentes nas situações de estudo permitindo ao investigador clarificar os acontecimentos e interpretá-los. O processo de triangulação permite ver os dados de diversos pontos de vista e, assim, garantir a validade da investigação em termos de credibilidade e de estabilidade. Baseando-se em Denzin (1998), e em Stake (2005) Rodrígues Goméz, Gil Flores e García Jiménez (1999) identificam quatro tipos básicos de triangulação: a triangulação de dados (é usada uma variedade de fontes de dados); a

triangulação de investigadores (vários investigadores ou avaliadores observam e

recolhem os dados); a triangulação teórica (o uso de múltiplas perspectivas para interpretar um conjunto de dados); a triangulação metodológica (o uso de múltiplos

21 Os nomes das educadoras e das crianças envolvidas foram substituídos e a instituição não é

métodos para estudar um problema).

Oliveira-Formosinho (2002) argumenta que o processo de interpretação e análise dos dados é um processo de construção de significados e de conhecimentos que requer que o investigador se aproxime e crie um ponto de mira sobre as situações que procura compreender, sabendo que o contexto vai mudando e que este ponto de mira vai

requerer outros mirantes, procedendo-se assim a uma triangulação de tempos da

intervenção (que têm de se construir em tempos de investigação) que são tempos de procura de informação e construção de compreensão. A triangulação de tempos da intervenção, de dados, de instrumentos, de pesquisadores torna-se o garante da credibilidade da investigação. Como salienta esta investigadora a triangulação de tempos, no fluir do contexto, cria outros mirantes e, nesses mirantes, podem criar-se processos de validação intersubjectiva mas essa triangulação não dispensa uma outra triangulação que é a triangulação das interpretações dos actores, dos pesquisadores, com outras interpretações de outros pesquisadores, que podem usar a mesma estrutura ou outra e, desta forma, se pode proceder à triangulação não só de tempos e pesquisadores mas também de instrumentos heurísticos.

Neste estudo pretendeu-se que a triangulação de fontes de dados, a triangulação teórica, a triangulação de investigadores e a triangulação metodológica contribuísse para aumentar a credibilidade das interpretações realizadas e do estudo de caso.

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