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Inicialmente as variáveis foram analisadas descritivamente. As variáveis quantitativas estão representadas pela média e as variáveis qualitativas, como valores absolutos e frequências. A análise estatística foi realizada utilizando-se o teste exato de Fisher, que é indicado quando ocorrem frequências esperadas menores do que cinco (Fisher, 1922); e o teste de Kruskal-Wallis, seguido do teste de Mann-Whitney e correção de Bonferroni para múltiplos testes, quando necessário (Shaffer, 1995). As frequências genotípicas esperadas foram estimadas a partir das frequências alélicas observadas e os desvios no equilíbrio de Hardy-Weinberg foram calculados pelo teste do qui-quadrado (Hardy, 1908; Stern, 1943). Para o cálculo dos valores de Odds Ratio e intervalos de confiança foi utilizada a análise de regressão logística binária (Hosmer, Lemeshow, 2000).

4.1. Características clínico-epidemiológicas do grupo 1-A (N=154) (Tabela 1) (Anexo 7)

Neste grupo, dos 190 casos iniciais, foram excluídas as pacientes com câncer de endométrio (6 casos), aquelas sem resultado histopatológico (16 casos de conduta expectante e 11 casos sem retorno) e 3 casos onde não houve amplificação do material genético.

 Idade: variou de 49 a 83 anos, com média de 61,7 anos.

 Raça: 85 pacientes foram classificadas como brancas (55,2%), sendo a outra metade considerada “não-branca”, sendo que esta última categoria era composta de pacientes pardas e negras, e que pela imprecisão dos dados num país como o Brasil, onde predomina a miscigenação racial, foram agrupadas como “não-brancas”.

 Idade da menopausa: variou de 38 a 56 anos, sendo a média 48,8 anos.

 Anos de menopausa: o tempo decorrido foi em média de 12,9 anos.

 Índice de massa corpórea (IMC): teve como média 26,8.

 Paridade: média de 4,5 filhos.

 Uso de terapia hormonal (TH) prévio ou atual esteve presente em 24 casos (15,6%).

 Uso prévio ou atual de tamoxifeno como tratamento adjuvante do câncer de mama esteve presente em oito casos (5,2%).

 Diabetes Melito (DM) esteve presente em 19 casos (12,3%).

 Antecedente de câncer de mama esteve presente em 16 casos (10,4%).

 Sangramento da pós-menopausa esteve presente em 36 casos (23,4%).

 Tamanho do pólipo à histeroscopia foi considerado grande (>1/3 da cavidade distendida) em 84 casos (54,5%).

4.2 Características clínico-epidemiológicas do Grupo 2 (N=118) (Tabela 1) (Anexo 8)

 Idade: variou de 44 a 73 anos, com média de 57,5 anos.

 Raça: 91 pacientes foram consideradas brancas (77,1%), sendo o restante das pacientes (22,9%) “não-brancas”.

 Idade da menopausa teve média de 48,2 anos.

 Anos de menopausa teve média de 9,2 anos.

 IMC foi em média de 27,8%

 Paridade média de 3,4 filhos.

 Uso de TH prévio ou atual esteve presente em 13 pacientes (11,0%).

 Uso de tamoxifeno não esteve presente em nenhuma paciente.

 Hipertensão arterial esteve presente em 35 pacientes (29,7%)

 Antecedente de câncer de mama esteve presente em um caso (0,8%).

 Nenhuma paciente apresentou sangramento na pós-menopausa.

Para o grupo controle total de N=400, a variável epidemiológica conhecida foi idade, que teve média de 56,2 anos.

Comparando-se os grupos 1-A (pólipos) e grupo 2 (controle) observa-se, conforme registrado na tabela 1, que houve diferença estatisticamente significante entre os grupos para a variável idade (mais avançada no grupo 1-A), raça (não-branca mais predominante no 1-A), anos de menopausa e paridade (maiores no grupo 1-A), uso de tamoxifeno, hipertensão arterial, e antecedente de câncer de mama (mais presentes no grupo 1-A).

Não houve diferença estatisticamente significante em relação à idade da menopausa, IMC, ocorrência de diabetes melito e uso prévio de TH entre os grupos.

TABELA 1. Distribuição das variáveis clínicas e epidemiológicas entre os grupos 1-A (pólipos) (N=154) e Grupo 2 (controle) (N=118)

Variável Categoria Grupo p

1-A (Pólipos)

N=154 2 (Controle) N=118

Idade Média 61,7 57,5 <0,0001*

Raça Branca 85(55,2%) 91(77,1%) <0,0001**

Não -Branca 69(44,8%) 27(22,9%)

Idade menop. Média 48,8 48,2 0,407*

<52 anos 115(74,7%) 84(71,2%) ≥52 anos 39(25,3%) 34(28,8%)

Anos menop. Média 12,9 9,2 <0,001*

IMC Média 26,8 27,8 0,135*

Paridade Média 4,5 filhos 3,4 filhos 0,003*

Uso de TH Sim 24(15,6%) 13(11%) 0,291**

Uso de TMX Sim 8(5,2%) 0(0%) 0,011**

Hipertensão Sim 84(54,5%) 35(29,7%) <0,0001**

Diabetes Sim 19(12,3%) 9(7,6%) 0,232**

Câncer mama Sim 16(10,4%) 1(0,8%) 0,001**

Sangramento Sim 36(23,4%) 0(0%) NA

Pólipo Grande 84(54,5%) NA NA

Pequeno 70(45,5%)

TH: terapia hormonal; TMX: tamoxifeno ; IMC: índice de massa corpórea NA:não se aplica

* Valor de p obtido pelo teste de U de Mann-Whitney ** Valor de p obtido pelo teste de Fisher

A influência da variável idade para os fatores de risco em estudo foi verificada por regressão logística binária.

Os valores de Odds Ratio e respectivos intervalos de confiança (IC) e valores de p, foram ajustados para diferenças na média de idade entre os grupos 1-A e grupo 2 (Tabela 2).

A variável tamoxifeno não pôde ser avaliada, já que apresentava valor igual a zero no grupo 2 (controle).

Apenas as variáveis paridade, hipertensão arterial e câncer de mama mostraram associações significativas após o ajuste para idade (p<0,05).

TABELA 2. Cálculo do risco (Odds ratio-OR) para o desenvolvimento de pólipos endometriais de acordo com as variáveis estudadas após o ajuste para idade (p<0,05)

Variável Odds Ratio 95%IC p

Idade Menopausa 1,01 0,96 1,07 0,64

Anos de Menopausa 0,99 0,94 1,05 0,78

Terapia Hormonal 1,68 0,80 3,52 0,17

Índice de massa corpórea 0,95 0,90 1,00 0,053

Paridade 1,13 1,02 1,25 0,02

Hipertensão Arterial 2,19 1,29 3,73 <0,001

Diabetes 1,53 0,65 3,60 0,33

Câncer de mama 14,44 1,86 111,98 0,01

PROGINS Heterozigoto 1,04 0,55 1,98 0,89

PROGINS Homozigoto Mutado 0,29 0,03 3,31 0,32

4.4. Características clínico-epidemiológicas do grupo 1-B (pólipo maligno) (Tabela 3) (Anexo 7)

Considerando o grupo de pólipos como inicialmente composto de 190 casos, a incidência de câncer de endométrio nestes casos foi de 3,15% (seis casos, sendo cinco de adenocarcinoma e um caso de sarcoma). Excluindo-se os 16 casos em que foi adotada a conduta expectante e os 11 casos em que a paciente não retornou para o tratamento, e os 3 casos em que não houve amplificação do DNA, ficando N=160, a incidência de câncer de endométrio fica em 3,75% (seis casos). Em cinco casos o estadio encontrado foi IA ou IB e no único caso de sarcoma, tratava-se de estadio avançado. As características clínico-epidemiológicas destes seis casos seguem abaixo:

 Idade: variou de 49 a 78 anos, com média de 61,3 anos.

 Raça: duas pacientes foram consideradas brancas e quatro pacientes como “não brancas”.

 Idade da menopausa: média de 48,3 anos.

 Anos de menopausa: média 13 anos.

 IMC foi em média de 29,3.

 Paridade variou de 0 a 17 filhos, com média de 6,3.

 Uso de TH esteve presente em uma paciente.

 Uso de tamoxifeno não esteve presente em nenhum caso

 Diabetes melito esteve presente em uma paciente.

 Antecedente de câncer mama não esteve presente.

 Sangramento da pós-menopausa esteve presente em todas as pacientes.

 Tamanho do pólipo à histeroscopia diagnóstica foi considerado grande (>1/3 da cavidade distendida) em todas as pacientes.

 Estadiamento: I-A e I-B (5 casos) e III-A (1 caso de sarcoma do estroma endometrial).

Observando-se os seis casos de pólipos malignos, nota-se na totalidade dos casos que as pacientes tinham história de sangramento da pós-menopausa e com pólipos considerados grandes à histeroscopia diagnóstica (> 1/3 da cavidade distendida). A outra variável que aparece com alta prevalência neste grupo é a hipertensão arterial. A maioria dos casos se tratava de estadios iniciais. Não foram realizados testes estatísticos, pelo pequeno tamanho da amostra (Tabela 3).

TABELA 3. Distribuição das variáveis clínicas e epidemiológicas entre os

grupos 1-A (pólipo benigno) e grupo I-B (pólipo maligno).

Variável Categoria Grupos 1-A (P.benignos) N=154 1-B (P.malignos) N=6 Idade Média 61,7 61,3 Raça Branca 85(55,2%) 2 Não -branca 69(44,8%) 4

Idade Menopausa Média 48,8 48,3

<52 anos 115(74,7%) 6

≥52 anos 39(25,3%) 0

Anos Menopausa Média 12,9 13

IMC Média 26,8 29,3

Paridade Média 4,5 filhos 6,3 filhos

Uso de TH Sim 24(15,6%) 1

Uso de TMX Sim 8(5,2%) 0

Hipertensão Sim 84(54,5%) 5(83,3%)

Diabetes Sim 19(12,3%) 1

Câncer mama Sim 16(10,4%) 0

Sangramento Sim 36(23,4%) 6(100%)

Pólipo Grande 84(54,5%) 6(100%)

Pequeno 70(45,5%) 0

4.5. Polimorfismo do receptor da progesterona (PROGINS) nos grupos estudados

Com relação à estimativa do polimorfismo PROGINS, a frequência genotípica do homozigoto selvagem (T1/T1), heterozigoto (T1/T2) e homozigoto recessivo (T2/T2) nas pacientes do grupo controle (N=400) foi 78,8%; 20,8% e 0,5%, respectivamente, e de 79,9%; 19,5% e 0,6%, no grupo 1-A (pólipo), o que apresentou um valor de p igual a 0,208, evidenciando a falta de significância estatistica entre os grupos 1-A (pólipo) e grupo 2 (controle) (Tabela 4).

O mesmo fato se repete quando a comparação é feita entre o grupo1-A (pólipo) e o grupo 2 (controle) de N=118, resultando em p=0,644, ou seja, falta de significância estatísta entre os grupos (Tabela 5).

TABELA 4. Frequência genotípica do polimorfismo do receptor da progesterona (PROGINS) no grupo 1-A (pólipos) (N=154) e grupo 2 controle (N=400)

Grupo T1/T1 T1/T2 T2/T2 Total Valor de p

Casos 123 30 1 154 0,208

(%) (79,9) (19,5) (0,6) (100)

Controle 315 83 2 400

(%) (78,8) (20,8) (0,5) (100)

Total 438 113 3 554

TABELA 5. Frequência genotípica do polimorfismo do receptor da progesterona (PROGINS) no grupo 1-A (pólipos) (N=154) e grupo 2 controle (N=118)

Grupo T1/T1 T1/T2 T2/T2 Total Valor de p

Casos 123 30 1 154 0,644

(%) (79,9) (19,5) (0,6) (100)

Controle 94 22 2 118

(%) (79,7) (18,6) (1,7) (100)

Total 217 52 3 172

Valor de p referente ao teste exato de Fisher

Também não foi observada significância estatística na distribuição alélica do polimorfismo PROGINS entre o grupo 1-A e grupo-2(N=400) (p=0,92).(Tabela 6)

TABELA 6. Distribuição alélica do polimorfismo do receptor da progesterona (PROGINS) entre o grupo1-A (pólipos) ( N=154) e grupo 2 (controle) (N=400)

Grupo T1 T2 Total Valor de p

Casos 276 32 308 0,92

(%) (89,6) (10,4) (100)

Controle 731 87 800

(%) (89,1) (10,9) (100)

Valor de p referente ao teste exato de Fisher

Realizamos o teste de Hardy - Weinberg para verificar se os grupos estavam em equilíbrio. De acordo com a tabela 7, a população de ambos os grupos em estudo apresenta-se em equilíbrio, X2=0,33 e p=0,57 para o grupo 1-A e X2=1,98 e p=0,16 para o grupo 2 (Tabela 7).

TABELA 7. Números observados e esperados de Genótipos segundo curva de equilíbrio de Hardy-Weinberg nos grupos 1-A (pólipo) (N=154) e grupo 2 (controle) (N=400), para o polimorfismo do receptor da Progesterona (PROGINS).

Grupo T1/T1 T1/T2 T2/T2 Qui-quadrado Valor de p

Caso Observado 123 30 1 0,33 0,57

Esperado 123,7 28,7 1,7

Controle Observado 315 83 2 1,98 0,16

Esperado 317,7 77,5 4,7 * Valor de p referente a um grau de liberdade

A maioria dos estudos sobre pólipos endometriais afirma que seus maiores riscos de malignização, encontram-se na população de mulheres na pós- menopausa. O risco de malignidade em pólipos endometriais tem variado em diversos estudos de 0 a 4,8% (Orvieto et al, 1999; Anastasiadis et al, 2000; Bakour et al, 2000; Goldstein et al, 2002). Atribui-se grande parte desta variação a diferenças na seleção de pacientes, sintomáticas ou assintomáticas, faixa etária e possivelmente à inclusão de populações de mais alto risco para neoplasia, embora ainda exista bastante controvérsia quanto ao real papel dos supostos fatores de risco.

Em nosso estudo, a incidência de câncer em pólipos endometriais foi de 3,75%, o que se encontra de acordo com dados de literatura. Lembramos que excluimos desta casuística as pacientes que tiveram conduta expectante (16 casos) e pacientes sem seguimento (11 casos), sendo que possivelmente estaríamos diante de casos benignos, o que faria cair ainda mais o percentual de malignidade.

Vale ressaltar que as pacientes do estudo foram captadas no setor de histeroscopia diagnóstica de um serviço que se constitui referência em tratamento de câncer para muitos estados do norte e nordeste do Brasil, incluindo neste caso, algumas pacientes com cancer de mama (10,4%) e usuárias de tamoxifeno (5,2%), o que, acredita-se, possa aumentar a incidência de lesões proliferativas endometriais, e ainda, sendo referência para investigação e tratamento de pacientes com câncer de endométrio e portanto muitas vezes sendo encaminhadas pelo sangramento na pós menopausa ou espessamento endometrial.

Outro aspecto a ser ressaltado, é que casuísticas envolvendo apenas pacientes submetidas à histeroscopia cirúrgica, podem ter incidência menor de malignidade, por estarem perdendo um contingente de pacientes, onde o diagnóstico já é suspeito na histeroscopia diagnóstica, obtendo-se algumas vezes resultado histopatológico por

biópsia ambulatorial, sendo a paciente encaminhada direto para a histerectomia, como aconteceu em dois de nossos seis casos.

A maioria dos estudos que encontramos envolvendo pólipos endometriais são retrospectivos, com casuísticas de pacientes submetidas à histeroscopia cirúrgica. Tal fato pode por vezes comprometer a análise mais criteriosa de dados clínicos e epidemiológicos. Não encontramos na literatura estudo prospectivo comparando grupo controle normal com pacientes com pólipos endometriais na pós-menopausa.

Em nossa casuística, não encontramos pacientes com atipias em pólipos endometriais, o que tem sido relatado também por outros autores (Campaner et al, 2006). Quando presentes em alguns estudos, as atipias em pólipos endometriais parecem constituir número bastante reduzido, menor inclusive que o próprio número de pacientes com lesões malignas. Segundo Antunes et al (2007), este número foi de 0,6%, num total de 475 histeroscopias analisadas e para Lieng et al (2007) foi de 0,7%, numa casuística de 411 histeroscopias, ambas analisadas de forma retrospectiva.

Excluídos os seis casos de câncer de endométrio, analisamos o grupo de pólipos endometriais (benignos) comparando com grupo controle de mulheres normais na pós-menopausa quanto a aspectos clinicos e epidemiológicos. A identificação de variáveis clínicas e epidemiológicas mais presentes neste grupo ajudaria a identificar um possível perfil de risco para ocorrência de pólipos endometriais, muito embora não se possa aferir a partir deste achado, maior risco de malignidade.

Vários estudos recentes tentam identificar, em pacientes com pólipos endometriais, características clínicas e epidemiológicas presentes no câncer de endométrio, na tentativa de selecionar as pacientes com maior risco para o desenvolvimento da neoplasia (Savelli et al, 2003; Ben-Arie et al, 2004; Sharma et al, (2004). Reslová et al (1999), sugerem que idade, hipertensão e obesidade sejam

características frequentemente encontradas em pacientes com pólipos endometriais. Ao se analisar tais características, como obesidade, hipertensão, diabetes e antecedente de câncer de mama ou uso de tamoxifeno, seria importante verificar se são características independentes da idade, pois sabemos que o aumento da idade numa população geral é fator relevante para o surgimento destas últimas. Antunes et al (2007) falharam em estabelecer esta correlação exata. Segundo Nappi et al (2009), as variáveis estatisticamente significantes em relação à presença de pólipos endometriais foram: idade, menopausa, hipertensão, diabetes e obesidade. No entanto, todas perderam sua significância quando submetidas à regressão logística multivariada, para se analisar sua independência quanto à variável idade.

Em nosso estudo, os dois grupos diferiram significativamente em relação à idade, sendo a maior faixa etária encontrada no grupo de pólipos endometriais. Também foi observada diferença significativa quanto à ocorrência de hipertensão, antecedente de câncer de mama, uso de tamoxifeno e anos de menopausa, todas estas características mais prevalentes no grupo com pólipos endometriais.

Em contraponto com as diferenças observadas nas variáveis anteriores, não se observou diferença quanto à ocorrência de diabetes e ao IMC entre os dois grupos, o que pode ser influência da diversidade de hábitos entre as diferentes regiões demográficas.

Também não se observou entre os dois grupos diferença significativa em relação ao uso de TH assim como Bakour et al (2002). A relação entre TH e pólipos endometriais tem sido descrita por alguns (Maia et al, 1999). Em importante revisão sobre o papel da TH na gênese de pólipos endometriais, Oguz et al (2005) concluíram que embora nenhum caso de malignidade nos pólipos tenha sido encontrada, a ocorrência de pólipos endometriais possivelmente teria relação com o tipo, dose e

duração do esquema de TH utilizado, sendo fator relevante o tipo de progesterona e sua potência antiestrogênica.

A diferença quanto à raça também foi significativa entre os dois grupos. No entanto, julgamos esta característica não-confiável, uma vez que vivemos num país de grande miscigenação racial, onde é tarefa quase impossível definir grupos raciais. Reconhecemos também que a diferença demográfica entre as regiões onde os grupos foram coletados pode ter influenciado (não sabemos até que ponto) nesta variação, pois o grupo de pólipos foi de uma população de uma cidade do nordeste do Brasil, muito embora, dados estatísticos comumente apontam a cidade de São Paulo como a maior cidade “nordestina” do país, mormente na população usuária do serviço público, onde foram coletados os dados do grupo controle.

Realizamos modelo de regressão logística binária para verificar se a diferença da idade poderia estar influenciando a existência de diferenças observadas em relação às características anteriormente mencionadas. Apenas as variáveis paridade, hipertensão arterial e antecedente de câncer de mama mostraram associações significativas após o ajuste para idade, estando todas mais prevalentes em pacientes com pólipos endometriais. Ressalta-se que a variável tamoxifeno não pôde ser avaliada, pois apresentava valor igual a zero no grupo controle, no entanto entendemos que a variável câncer de mama é fortemente influenciada pelo uso do tamoxifeno, uma vez que grande parte das pacientes neste grupo fez uso do mesmo.

A diferença também observada quanto à paridade (pouco maior na população de pólipos), não tem sido relatada em estudos anteriores. Devemos no entanto considerar que a mensuração do risco (Odds Ratio), embora considerado significativo, foi muito baixo para esta variável (OR=1,13). Antes de considerá-la como relação causa / efeito, devemos refletir sobre sua possivel associação a diferenças culturais e

comportamentais observadas na população nordestina, onde foi colhida a casuística do grupo de pólipos.

A variável hipertensão conforme mencionado anteriormente tem sido relacionada à ocorrência de pólipos endometriais, embora alguns autores tenham falhado ao relacioná-la como uma variável independente da idade, ao contrario do nosso estudo.

Na tentativa de caracterizar melhor o risco de malignização, analisamos os seis casos diagnosticados com câncer de endométrio nos pólipos endometriais, em comparação com o restante do grupo de pólipos benignos, quanto às características clínicas e epidemiológicas.

Observamos que a queixa de sangramento pós-menopausa esteve presente em todos os casos de pólipos malignos, enquanto que no grupo de pólipos sem câncer, esteve presente em apenas 23,4%, reforçando a idéia de que esta é uma característica que deve ser bastante valorizada como suspeita de malignidade no pólipo endometrial.

Embora para alguns autores a presença do sangramento não se constitua em característica essencial para o diagnóstico de neoplasia no pólipo (Reis et al,2001; Lieng et al, 2007), para Antunes et al (2007) a idade e o sangramento foram as únicas características identificadas como fatores associados à malignidade em pólipos endometriais, sendo que esta última aumentaria em 3,71 vezes o risco de lesões malignas e pré-malignas. Machingter et al (2005), ao analisarem 438 histeroscopias cirúrgicas, encontraram seis casos malignos (1,4%), todos em mulheres sintomáticas na pós-menopausa. Segundo os mesmos, a baixa incidência de malignidade em pólipos endometriais assintomáticos, sugere que a conduta cirúrgica rotineira possivelmente não seja custo-efetiva. Em recente estudo de Domingues et al (2009), envolvendo 481 mulheres com pólipos endometriais na pós menopausa, pólipos malignos (7,2%), somente foram encontrados naquelas que apresentavam

sangramento, concluindo que o risco de malignidade em pólipos endometriais varia com a presença de sangramento e seria mínimo em mulheres assintomáticas. No nosso estudo, a ocorrência de sangramento em pólipos endometriais aumentou em 3,8 vezes o risco de malignidade.

Segundo Farrel et al (2005), Mbatsogo et al (2005) e Giordano et al (2007) o câncer endometrial em pólipos seria uma neoplasia inicial e portanto na maioria das vezes de bom prognóstico.

Na maioria das populações, o rastreamento do câncer de endométrio em mulheres assintomáticas na pós-menopausa não tem sido recomendado, sendo o sangramento transvaginal considerado um sinal precoce que levaria à investigação imediata, e o diagnóstico logo após a primeira manifestação, realizado frequentemente em estadios iniciais, o que implicaria em prognóstico favorável (Pritchard et al, 1989; Disaia et al, 2002).

Segundo Obermair et al (1996) o sangramento na pós-menopausa se constitui em sintoma inicial do câncer de endométrio, e o intervalo de tempo entre sua primeira manifestação e o diagnóstico seria fator significativo a influenciar o estadiamento. Em sua casuística, 88% das pacientes foram diagnosticadas como estadio IA ou IB quando este intervalo de tempo foi menor que quatro semanas. Em nosso estudo das seis pacientes diagnosticadas com câncer nos pólipos, cinco foram classificadas como estadio IA ou IB e apenas uma se tratava de tumor avançado, estadio III-A, sendo o diagnóstico histopatológico compatível com sarcoma de estroma endometrial, variedade bastante incomum.

Baseado no exposto acima, indagamos sobre a real necessidade da exérese sistemática dos pólipos endometriais em mulheres assintomáticas na pós-menopausa, onde os mesmos se constituem em meros achados de exames rotineiros, muitas vezes

sem indicação precisa. E ainda, naqueles pouquísssimos casos onde a neoplasia possa já estar presente, o aguardar da manifestação clínica do sangramento alteraria de fato o prognóstico?

Se nos detivermos um pouco no índice de complicações das histeroscopias cirúrgicas, vamos de fato encontrar índices baixos, bastante aceitáveis, porém eventualmente maiores que os possíveis índices de malignidade para muitas casuísticas. Segundo Lev-Sagie et al (2005) a taxa de complicações foi de 3,6%. No estudo de Lieng et al (2007), em sua casuística de 411 histeroscopias cirúrgicas, foram 7,8% de complicações, a maioria envolvendo perfuração uterina, e até um caso de lesão de alça intestinal. Devemos lembrar ainda que estas complicações podem envolver acidentes anestésicos e complicações clínicas em pacientes com idade avançada e com fatores de risco. Nossa casuística não obteve especificamente o número de complicações, pois não tivemos informações, em muitos casos, sobre o acompanhamento pós-operatório imediato.

Lembramos ainda o fato de que a histeroscopia diagnóstica nem sempre está disponível no serviço público, e não raras vezes, o diagnóstico de pólipo endometrial resulta em procedimento muitas vezes inadequado como a curetagem uterina, e até mesmo em histerectomias, aumentando ainda mais o risco cirúrgico para a paciente.