Quando pensamos na sociedade em que vivemos hoje falar em tradições culturais pode parecer anacrônico diante das mudanças tecnológicas e científicas que nos possibilitam solucionar problemas diários e que permitem que a vivência se torne mais fácil e confortável. Para muitos, acredita-se no fim das manifestações culturais em função do avanço da informática e dos meios eletrônicos de comunicação que inviabilizam o contato face a face, a necessidade de interação pessoal e a sociabilidade proporcionada, entre outras, pela vivência comum da fé. Este talvez seja, então, o desafio das novas gerações: viver em um mundo onde tudo, “do sabonete a Deus, perde o sentido de suas origens (...)” (BRANDÃO, 2010, p. 14).
Segundo Giddens, nos dias de hoje, principalmente nos países desenvolvidos, o que se vê é a destruição da comunidade local e de pequenas tradições que sobreviveram durante muito tempo antes da chegada da sociedade moderna e isto ocorre em função de um profundo e contínuo esvaziamento cultural. De acordo com autor este fenômeno em progresso ocorre em vista da dissolução da comunidade local que passa por um remodelamento “em razão de influências remotas trazidas para a área local”. Nesse sentido, essa dissolução não significaria o desaparecimento da vida local ou das práticas locais, mas sim o desenvolvimento de
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significados alterados de seus costumes que acabam por se tornar “relíquias ou hábitos” (GIDDENS, 1997, p. 124). 22
Dentro deste contexto, Nildo Viana, apesar da análise inflexivelmente marxista, evidencia o fracasso da tradição na sociedade atual como fruto de uma cultura nova desenvolvida e divulgada pelos meios de comunicação nas grandes cidades. Segundo o autor, “a produção cultural (...) da maioria da população não é mais totalmente espontânea e sim influenciada pelos meios oligopolistas de comunicação,” (...) sendo os povos urbanos mais atingidos por este processo “do que a população rural, embora isto ocorra de forma cada vez mais intensa”. “A população rural, devido às relações sociais persistentes, embora também perdendo cada vez mais espaço, e menor influência dos meios oligopolistas de comunicação, é (desta forma) mais ligada à tradição do que a população urbana”, principalmente aquela dos grandes centros urbanos (VIANA, 2011, p. 2).
Por outro lado, Giddens acredita que “na ordem pós-tradicional as tradições não desaparecem totalmente; na verdade em alguns aspectos, e em alguns contextos, elas florescem”. Isso porque o autor defende que as tradições não precisam ser milenares para serem tradições, uma tradição nova se constitui como tal em vista dos aspectos intrínsecos a ela, não somente em função do tempo de existência. Em vista disso, as tradições vivenciadas através de ritualismos, por exemplo, continuam a existir na sociedade contemporânea, mas isso, segundo o autor, enquanto eles forem capazes de “construir interpretações do tempo passado” (GIDDENS, 1997).
A partir de então, Giddens evidencia que uma determinada tradição somente sobrevive na medida em que se abre ao diálogo com outras tradições e “só persistem na medida em que se tornam passíveis de justificação discursiva” dialogando também com modos alternativos de ação, com vistas a evitar a violência causada pelo fundamentalismo. Neste sentido, as tradições encontram lugar dentro da sociedade pós-tradicional, mas somente no âmbito de convívio com uma democracia dialógica que não obriga a vida humana a fixar opiniões dentro
22 De acodo o Gidde s os hábitos podem ser formas puramente pessoais de rotinização. São rotinas individuais de um tipo ou de outro que tem um certo grau de força unificadora, simplesmente em virtude da repetição regular. O significado psicológico dessas rotinas não deve ser subestimado. São de importância básica para a segurança ontológica, porque proporcionam um meio estruturador para a continuidade da vida através de contextos diferentes de ação. Em uma ordem pós tradicional os hábitos são regularmente infundidos por informações extraídas de sistemas abstratos , com que também tendem freqüentemente a entrar em conflito (...). As relíquias são significantes de um passado que não se desenvolveu ou pelo menos cujas conexões causais com o presente não são parte daquilo que lhes
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de uma verdade imposta por uma determinada tradição, mas também não elimina sua importância e o seu papel nos dias de hoje.
Partindo deste pressuposto, de acordo com Carlos Rodrigues Brandão, a tradição hoje encontra-se atrelada a uma “idéia” equivocada de desenraizamento quando relacionada, principalmente, ao mundo rural. Segundo o autor, a constante afirmação sobre o desaparecimento de tradições faz parte do discurso atual “em um mundo regido pela lógica inquestionável da ciência” e pela falta de raízes proporcionada pela presença de seres fluidos e sem identidade, marcados pela efemeridade de sentimentos e pela existência de teorias mutáveis. Em vista disso, de acordo com Adriano Rodrigues, devemos considerar a sociedade atual não como uma etapa dentro do tempo histórico destinado a substituir a tradição, pois essa é uma visão demasiadamente simplista e redutora da realidade. Estas duas eras não podem ser divididas no tempo como se uma eliminasse a outra, pois na verdade, segundo o autor, “ambas as modalidades da experiência deixaram de ser vistas como etapas epocais para passarem a ser encaradas como modalidades distintas da experiência que coexistem num mesmo espaço e numa mesma época” (RODRIGUES, 1997, p. 1).
A oposição entre tradição e inovação deixou, assim, de ter caráter predominantemente temporal, ou seja, “(sociedades tradicionais versus sociedade moderna) e adquiriu um caráter predominantemente espacial (sociedade rural versus sociedade urbana)”. Por essa razão, o conceito de tradição, atualmente, é muitas vezes relacionado com a idéia de mundo rural e a um tempo mais lento característico desta sociedade que, ao contrário dos grandes centros urbanos, consegue preservar valores e idéias comuns combinadas a uma tecnologia básica que também compõe essa sociedade. Esta associação, por sua vez, desligada, até certo ponto, das excessivas exigências do capitalismo moderno, caracteriza o mundo rural como aquele que ainda hoje consegue preservar as raízes de sua existência (VIANA, 2011, p. 2).
Dentro deste contexto, o mundo rural possui ainda hoje características das sociedades tradicionais e por isso conserva suas tradições, baseadas no interesse de sua população em preservar as raízes culturais de suas comunidades a partir do envolvimento de diferentes gerações no processo de transmissão de suas memórias. A idéia de tradição encontra-se atrelada, neste sentido, às manifestações populares ligadas principalmente à religião, sendo que os festejos de santos padroeiros característicos deste mundo rural, em todo Brasil, refletem a permanência de tradições ainda no seio das comunidades camponesas, marcadas, ao contrário das citadinas, por relações de solidariedade, reciprocidade e laços de compadrio (MAUSS, 1988). Os estudos a respeito do mundo rural afirmam, deste modo, serem estes
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laços os responsáveis pela preservação das tradições populares, pois eles atuam como referência para a vida e como forma de apoio para seus membros e entre eles.
A palavra reciprocidade significa a existência de uma relação de um primeiro termo para um segundo, bem como do segundo para o primeiro. A reciprocidade é uma relação que se redobra. A etnologia adotou esta palavra para designar as prestações econômicas e simbólicas das sociedades tradicionais (SABOURIN, 2009, p. 64).
As comunidades rurais, dentro desta perspectiva, funcionam como repositórios da tradição e isso ocorre, de acordo com Sabourin, porque elas carregam “as noções de parentesco, espiritualidade religiosa e compartilhamento de recursos, o que a aproxima do conceito de reciprocidade de forma singular”. De acordo com Fichter (apud SABOURIN, 2009) uma comunidade se define pela formação de um grupo de indivíduos dentro de um determinado território “que mantêm relações recíprocas e utilizam recursos comuns para satisfazer projetos comuns”. Esta noção define as comunidades rurais a partir da sua congregação coletiva, de comprometimento mútuo e solidariedade baseada na amizade, no parentesco e no sentimento de pertencimento próprio das sociedades tradicionais (SABOURIN, 2009, p. 48). A reciprocidade, por fim, gera o vínculo social que garante a reprodução da tradição e das sociedades rurais (MAUSS, 1988).
Neste sentido, as comunidades rurais, de acordo com Sabourin, existem e se desenvolvem em razão deste sentimento que funciona para criar e conservar os laços entre os seus membros e, consequentemente, para preservar as tradições de um determinado grupo, pois criam uma identidade coletiva de “compartilhamento de saberes, práticas e valores simbólicos de referência comum” responsáveis por sua constituição. Para o autor, a religião também faz parte desse processo e é um dos principais motores desta união coletiva, uma vez que ela é responsável, na maioria das vezes, pelos valores preservados pela tradição (SABOURIN, 2009, p. 51). As tradições religiosas, desta maneira, alicerçam a comunidade, pois fortalecem os laços de união entre os indivíduos e reforçam “as noções de submissão e obrigação que marcam a ideologia do camponês brasileiro” (FORMAN apud SABOURIN, 2009, p. 51).
Dito isso, acreditamos que estas características das comunidades rurais são responsáveis pela manutenção das estruturas tradicionais, que em detrimento da racionalidade e da individualidade dominantes nos dias atuais, conservam laços de coletividade, de dádiva e
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de reciprocidade. Estes, por sua vez, se afirmam, segundo Sabourin, por ocasião das “festas familiares e religiosas” bem como de outras formas de hospitalidade que reforçam os laços de parentesco, amizade e vizinhança entre os indivíduos. Isto garante a reprodução da comunidade e a criação de uma identidade comum reafirmada pela atualização da tradição:
A reciprocidade generalizada (dádiva proporcionada a todos) pode ser observada na ocasião de convites e festas locais, religiosas (pagamento de promessas, celebração dos santos patronos), familiares (batismo, casamento e funerais) ou domésticas (abate e preparação de um animal) (SABOURIN, 2009, p. 54).
Assim, a reciprocidade se expressa por meio de formas de solidariedade, na produção ou na redistribuição de alimentos, que constituem o nível do real; mas ela existe também no plano simbólico, através da reza, do canto e do compartilhamento do verbo (SABOURIN, 2009, p. 52).
Pode-se dizer assim, que a tradição, tal como Sabourin propõe, é uma característica hoje típica, principalmente, das sociedades rurais que conservam os fundamentos tradicionais que dão sentido às trocas sociais e reafirmam os laços entre os indivíduos. Giddens (1997) acredita também que as tradições encontram-se presentes na sociedade contemporânea, pois a celebração de rituais garante a sua prática e a transmissão da tradição garante a sua reprodução. Por fim, tal como Geertz, acreditamos que os rituais em qualquer sociedade, são extremamente necessários ao homem, pois representam, “um polimento no mundo mundano das relações sociais e dos acontecimentos psicológicos (...) (dando a eles) um colorido a seu sentido do racional, do prático, do humano e do moral” (GEERTZ, 2008, p. 90). Desta forma, em meio a adaptações e interpretações causadas pela mudança geracional, as tradições sobrevivem à dinâmica plural e fragmentada da sociedade atual. 23