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A organização da escola influencia as relações e modos de agir dos sujeitos que dela participam, como fornece condições ou não para que os docentes produzam novos saberes sobre sua prática. Para Hargreaves (1998) “se quisermos compreender aquilo que um professor faz e porque o faz, devemos, portanto, compreender a comunidade de ensino e a cultura de trabalho da qual ela faz parte” (1998, p. 186). De maneira semelhante, Salgueiro (1998) afirma que “la práctica docente no se da en lo vacío, sino en una escuela que

presenta determinadas condiciones materiales e institucionales que la conforman” (p.268).

É necessário, portanto, conhecermos o local de trabalho das oito professoras participantes desta pesquisa.

A Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, criado em 1946, que tinha como objetivo atender os alunos da Faculdade de Filosofia matriculados em cursos de Didática. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação. Em 1972, o Centro Pedagógico (CP) foi transferido para o campus da Pampulha funcionando em prédio próprio.

O CP localiza-se no campus da UFMG, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, em frente ao prédio da Faculdade de Educação. A Escola conta com salas de aula, de arte, de atendimento à saúde, de atendimento dentário, de dança e teatro, de música, laboratórios de ciências e informática, horta, quadras, pátio, lanchonete, cantina, parquinho, salas de reuniões, de núcleos e administrativas. A Proposta Político-Pedagógica do CP, de 2003, centra-se na “identidade do aluno e na sua formação humana e escolar” (p. 2) e busca “a construção de uma autonomia do aluno pautada pela responsabilidade” (p. 6). Os princípios que norteiam a escola, segundo a proposta político-pedagógica são, entre outros: prática educativa construída coletivamente; reflexão coletiva realizada sobre a prática (...); democratização das discussões, da participação e das decisões de todos; formação integral dos alunos mediada pelos conhecimentos científicos; compreensão da aprendizagem como processo (2003, p. 6).

O Centro Pedagógico adota, em 2008, três ciclos de formação humana: o Primeiro Ciclo abrange os três primeiros anos, o Segundo Ciclo, o quarto, quinto e sexto e o Terceiro Ciclo os três últimos. A Escola atende 661 alunos, sendo 255 no turno da manhã – primeiro e segundo ciclos e 406 no turno da tarde – terceiro ciclo. A instituição também sedia o Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos, vinculado à Pró-reitoria de Extensão, que ocorre no período noturno. Atualmente está em implementação a escola de tempo integral no segundo e terceiro ciclos. Os alunos desses ciclos participam, em alguns dias, de atividades no contraturno. Cada turma do primeiro ciclo tem 25 alunos, sendo escolhidos por meio de sorteio para entrada no primeiro ano. A escola rompeu com o sistema classificatório em 1993 quando a seleção dos futuros alunos do CP era realizado por meio de testes. Esta nova forma de seleção, o sorteio, contribuiu para aumentar o número de alunos de diversas camadas populares, dos diferentes bairros de Belo Horizonte e região metropolitana, o que resultou na formação de turmas heterogêneas, apresentando tanto uma diversidade econômica quanto geográfica.

O perfil do corpo discente do Centro Pedagógico foi traçado, em 2006, por meio da aplicação de um questionário socioeconômico. Alguns dos resultados desse questionário serão aqui pontuados para permitir uma melhor caracterização do público atendido na escola. 53% dos alunos são do sexo masculino enquanto 47% são do sexo feminino. A maioria das famílias (44,4%) tem renda líquida de dois a cinco salários mínimos, em seguida tem-se 24,5% com renda de 5 a 10 salários mínimos e em terceiro lugar as famílias com renda entre 1 e 2 salários mínimos. A maioria dos pais possui o nível médio de escolaridade e ocupa-se de atividades que exigem essa escolaridade, como, por exemplo, vendedor, motorista, segurança, assistente administrativo etc.

São objetivos do Centro Pedagógico:

1. ministrar o Ensino Fundamental, tendo-o como base investigativa para a produção de conhecimento, de ensino e pesquisa;

2. constituir-se como campo de reflexão e de investigação sobre a prática pedagógica; 3. constituir-se como espaço de novas experimentações pedagógicas, que subsidiem avanços e reflexões sobre a prática educativa;

4. ser um campo de experimentação para a formação de professores e outros profissionais que tenham o espaço escolar como campo de trabalho (Ricci et al., 2007, p. 7).

Como o texto informativo esclarece, um dos objetivos da Escola é colaborar para a formação de professores. Essa prática é concretizada por meio da oferta de estágios supervisionados e por intermédio da formação continuada dos docentes em reuniões semanais de ciclo e núcleo. Os docentes do CP são de dedicação exclusiva o que possibilita espaços e tempos de formação difíceis de serem concretizados em outras escolas. Atualmente, o corpo docente é formado por 29 professores efetivos e 33 professores substitutos. O alto número de professores substitutos na escola deve-se à falta de concursos, nos últimos anos, para provimento de professores efetivos.

Os professores são organizados em grupos, de acordo com as áreas do conhecimento escolar, formando os núcleos. Têm-se os seguintes Núcleos: História e Geografia, Matemática, Arte, Letras, Educação Física, Ciências. Somam-se a esses os núcleos de Atendimento e Integração Pedagógica (NAIP) e o Núcleo Básico. O Núcleo Básico é composto de oito professores que atuam com o ensino de Matemática, Alfabetização e Letramento para o primeiro ciclo. Os professores são Pedagogos, licenciados em Matemática ou Letras. O NAIP atua junto com todo o corpo discente, promovendo ações de integração entre alunos, família e a escola. É composto por docentes que orientam e ministram aulas de Tópicos Especiais em Filosofia, uma assistente social e assistentes de alunos.

As oito professoras que integram o Núcleo Básico são as participantes desta pesquisa. Como mencionado acima, elas atuam nas áreas de Alfabetização, Letramento e Matemática no Primeiro Ciclo. São atualmente quatro professoras efetivas e quatro substitutas. O contrato da professora substituta é de um ano, prorrogável por mais um. As professoras efetivas são professoras Mestres aprovadas em concurso público federal. As reuniões do Núcleo Básico são semanais e organizadas (a cada mês) da seguinte maneira: duas reuniões para formação (uma para Matemática e outra para Alfabetização e Letramento); uma reunião administrativa e uma reunião para discussão do extraturno (reforço escolar).

Além das reuniões escolares e o ensino propriamente dito, as professoras efetivas participam de atividades de pesquisa, extensão e/ou administrativas. Cada professora efetiva assume as aulas de Português (de maior carga horária) de uma turma do primeiro ciclo e uma professora leciona Matemática para três turmas. As professoras substitutas

assumem as aulas de Português e Matemática de uma turma, além de participarem das reuniões e atividades do extraturno (aulas de reforço para alunos do primeiro ciclo no contraturno). As professoras substitutas trabalham 40 horas semanais na escola e as efetivas são de dedicação exclusiva. Cada professor substituto é contratado para um ano, sendo que seu contrato pode ser renovado por mais um, o que leva a uma alta rotatividade de professores na Escola.

As relações de colaboração entre os pares, o conteúdo da proposta político-pedagógico da Escola, o clima de reflexividade potencializada pela autonomia dos docentes e o tempo designado a essa atividade levam-nos a inferir que há boas condições para a produção e troca de saberes docentes nesta escola.