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“Porque vemos sempre algo cada vez mais maravilhoso, a tal ponto que o homem não se cansa nunca de olhar e aprender”

Jakob Boehme, 1575.

Após transcorrer as etapas metodológicas que conduziram este estudo e estabelecer relações com os substratos teóricos, é possível concluir que os objetivos foram alcançados.

Verificou-se que os dois grupos estudados, residentes e pediatras são semelhantes quanto a própria religiosidade/espiritualidade. Podendo-se caracterizá- los como indivíduos ao menos moderadamente religiosos e que valorizam a espiritualidade em suas vidas. Ainda mais, concluir que suas características pessoais influenciam as suas práticas clínicas.

MacLean et al. (2003) concluíram em seu estudo que a espiritualidade e a religiosidade dos médicos influenciam o cuidado clínico e que muitos pacientes acreditam que os médicos devam estar cientes sobre suas crenças espirituais e religiosas.

Quanto à percepção das necessidades espirituais dos pacientes e seus familiares, ambos os grupos acreditam que a espiritualidade e a religiosidade influem positivamente na saúde e que, sua própria religiosidade e espiritualidade interferem no processo saúde-doença e na relação médico-paciente.

A doença de uma criança, especialmente a crônica, é uma das situações que apontam para a fragilidade humana, tornando as pessoas que enfrentam estas condições, ainda mais vulneráveis. Para lidar com a situação de crise é preciso considerar as estratégias encontradas pela própria família para enfrentar esta situação, as quais geralmente se apoiam em crenças, religiões e filosofias de vida, fazendo da espiritualidade um aporte que contribui para fortalecer a família. (DAMASCENO; SOUZA; SILVA, 2011).

Ao correlacionar os aspectos da religiosidade/espiritualidade dos residentes e pediatras à sua prática, observamos que, apesar dos entrevistados acharem pertinente, não se sentem à vontade e nem se consideram preparados para a abordagem das necessidades espirituais de seus pacientes. Podemos agrupar as principais razões apontadas em duas temáticas: o ensino médico (falta de conhecimento e de treinamento) e o processo de trabalho (falta de tempo).

As identidades religiosas e espirituais, crenças e práticas médicas estão começando a ser exploradas de maneira geral, especialmente no que se refere às suas relações clínicas e tomadas de decisões. Desta forma, os médicos tornaram-se conscientes de que as crenças religiosas e espirituais dos pacientes e as práticas podem desempenhar um papel no enfrentamento da doença, na tomada de decisão médica e em outros processos de saúde (Catlin et al., 2008).

A crise existencial trazida pela doença leva o paciente e seu grupo social a importantes questionamentos sobre suas vidas. São questionamentos intensamente impregnados de emoção, em que elementos inconscientes da subjetividade participam intensamente. Podem resultar em amplas transformações positivas ou em grandes catástrofes pessoais e familiares. A participação do profissional de saúde neste processo de elaboração é dificultada pelo fato de sua formação não valorizar e não prepará-lo para lidar com dimensões subjetivas não expressas de forma racional e clara. (VASCONCELOS, 2009).

Segundo Dantas Filho e Sá (2007), o médico antes de tudo é um ser humano e um cidadão, e como profissional sempre serviu como figura de referência de virtude em nossa sociedade. Mostrando disposição para o diálogo, principalmente na dimensão da espiritualidade, o médico cumpre também um importante papel na difusão de uma cultura de tolerância e respeito que transcende a relação médico- paciente e vai ao encontro de um clamor que perpassa toda a nossa sociedade.

É o começo do desmonte de uma postura autoritária e paternalista, na qual predomina a crença do médico em detrimento das crenças do paciente, explícitas ou implícitas; é o fundamento para as decisões negociadas e compartilhadas, para o consentimento livre e esclarecido; é o saneamento da visão reducionista do ser humano, da divisão corpo-alma, do desrespeito à autonomia do paciente; é o desenvolvimento de um modelo de médico que desejamos para nós mesmos e para os nossos familiares; é o florescer de novos direcionamentos menos conflituosos para questões relativas ao início e término da vida, à transfusão de sangue, aos transplantes de órgãos, às manipulações genéticas, etc. (DANTAS FILHO; SÁ, 2007, p. 276).

Neste início de terceiro milênio, a novo médico deve ter uma forte base técnico-científica e como lastro uma formação humanística e bioética consistente (SIQUEIRA, 2006). A formação humanística implica a necessidade do autoconhecimento e envolve a consciência do outro e de seus valores no que tange aos significados que atribui à vida.

E hoje, tanto para o senso comum como para a comunidade científica, a religião e as práticas espirituais exercem influências sobre a saúde. Em várias partes do mundo, universidades e hospitais têm trabalhado com essa realidade.

Ao se incluir atividades relativas à espiritualidade no currículo de Medicina, busca-se abranger a dimensão espiritual dos pacientes na sua consideração como seres humanos e desenvolver um entendimento sobre os reflexos da espiritualidade na saúde das pessoas.

Lucchetti e Granero (2010) e Lucchetti et al. (2012) descreveram os desafios enfrentados na integração de espiritualidade nas faculdades de Medicina brasileiras, ressaltando que grande parte das barreiras é a de haver poucos estudos brasileiros publicados sobre o tema; a visão de que a Medicina deve se manter secular e, portanto, deve evitar abordar questões religiosas, pois pode ser vista como coercitiva por alguns pacientes; e ao fato de que poucas conferências médicas brasileiras abordaram o tema espiritualidade e saúde antes do ano 2000, já que os departamentos de pesquisas universitárias raramente investigaram tal temática, assim como apenas um programa de pós-graduação existe em todo o país.

Através de competências reforçadas na prática clínica, o desenvolvimento de currículos e políticas de saúde e da busca de agenda de pesquisa para apoiar a inclusão da espiritualidade e da religião em relação à saúde e especialmente à pediatria, será possível termos na atenção à criança a abordagem das necessidades religiosas e espirituais como parte integrante de um bom atendimento pediátrico.

Ainda sobre as questões de treinamento Lucchetti e Granero (2010) afirmam em seu estudo que na anamnese médica, a história social, o questionamento da atividade física, os hábitos e vícios podem proceder à abordagem da espiritualidade de forma natural, podendo-se incluir o assunto no segmento que aborda os hábitos de vida e de condições socioeconômicas dos pacientes.

O pediatra deve reconhecer o sofrimento e os sofredores e ouvir suas histórias, criando um contexto para reduzir o sofrimento, proporcionando reflexões sobre suas vidas. (PAULA; NASCIMENTO; ROCHA, 2009).

Portanto, diante da importância e valorização crescente da religiosidade e da espiritualidade na saúde é urgente inserir a discussão do tema na educação médica e no processo de trabalho do pediatra.

Na graduação médica, a religiosidade e a espiritualidade e suas interfaces na saúde podem ser inseridas de forma interdisciplinar, transdisciplinar e transversal, como forma e função, contemplando o conhecer, o fazer e o ser, espaço em que as vivências e as emoções dos alunos possam ser discutidas, e a poesia possa ser recitada. Na transdisciplinaridade não há espaço ou tempo para conhecimentos hegemônicos.

Nas atividades extracurriculares como estimulo à pesquisa, bem como incluído em cursos e congressos acadêmicos e na educação permanente dos profissionais da saúde.

Os educadores devem criar espaços para um diálogo mais profundo sobre a complexidade da vida, em que outras dimensões além da racional devem ser compartilhadas.

Os pediatras e os residentes em pediatria mostram-se abertos e dispostos a incluírem esta temática em seu trabalho, como grupo de estudo, bem como nas discussões dos casos clínicos.

Enfim, no processo de trabalho do pediatra, a abordagem das necessidades espirituais dos pacientes e suas famílias pode ser incluída na anamnese clínica através de ferramentas como a aplicação de escalas de aferição e valorização dos aspectos espirituais e religiosos, e como habilidade de comunicação na relação médico paciente.

Na atenção integral à criança e à família, a espiritualidade e a religiosidade devem estar presentes no trabalho vivo do médico em ato, local de infinitas possibilidades, como instrumento comunicacional, no respeito bioético e como força que pode influenciar positivamente o processo saúde-doença.

E o que não é a realidade senão o produto, em um tempo e espaço, do espírito infinito...

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APÊNDICE A - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

1. Título do projeto: “A Espiritualidade e a Religiosidade na prática pediátrica”

2. Desenho do estudo e objetivo(s): O presente estudo objetiva avaliar a religiosidade e espiritualidade dos médicos pediatras, seu conhecimento sobre o tema e como é aplicado em sua prática clínica;

3. Descrição dos procedimentos: Será aplicado um questionário padrão para todos os participantes. O questionário será impresso em papel com perguntas de múltipla escolha e será preenchido durante o horário de trabalho. A forma de preenchimento será presencial, ou seja, o voluntário preencherá o questionário no momento da entrega pelo pesquisador e devolverá após o seu término;

4. Descrição dos desconfortos e riscos esperados nos procedimentos: Sem risco.

5. Benefícios para o participante: Não há benefício direto para o participante, nem prejuízo. É um estudo totalmente isento de vinculações hierárquicas e administrativas ou de influências que possam interferir no seu vínculo como médico na instituição, afastando quaisquer pressuposições de natureza coercitivas em decorrência da sua participação na pesquisa, bem como no relatório final do estudo.

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