Os efeitos da privação alimentar e da fome vêm sendo observados desde épocas remotas e sendo descritos através dos tempos. Em 1928, inquéritos realizados em diferentes países, pela antiga liga das nações, divulgaram relatórios sobre as condições alimentares no mundo demonstrando que mais de 2/3 da humanidade viviam em permanente estado de fome (Castro, 1965).
Em 1974, durante a realização da Conferencia mundial sobre Alimentação, realizado pela Food and Agriculture Organization (FAO), órgão pertencente às Nações Unidas (ONU), os governos participantes defenderam o direito inalienável de todo homem, mulher ou criança estarem livres do risco de fome e da desnutrição para o desenvolvimento de suas necessidades físicas e mentais, de acordo com o conceito de Segurança Alimentar. Com a proposta os governantes esperaram uma redução de 50% do número de desnutridos no mundo até 2015 (Domene et al., 2003).
Com bases em estudos nutricionais realizados em todos os continentes, Food
and Agriculture Organization of the United Nations (FOOD, 2001), relatou que embora em termos percentuais, tenha havido decréscimo na incidência de desnutrição entre 1990 e 1999, em números absolutos 623,7 milhões de pessoas nesses continentes ainda são acometidas por essa carência nutricional.
Em 2002, no Segundo Fórum Mundial de Alimentação, constatou-se que o número de desnutridos diminui em 8 milhões a cada ano. Para alcançar os objetivos propostos pelos governantes em 1974, à taxa de redução deveria ser de pelo menos 22 milhões por ano. Dados como estes, mostram que todas as medidas tomadas até agora foram de pequeno impacto para a real diminuição do número de desnutridos no mundo (Domene et al., 2003).
Mais recentemente, dados estimados pela FAO em 2008, mostraram que o aumento do número de pessoas desnutridas de 2003 para o ano de 2007 foi de 75 milhões, sendo que no ano de 2007 existiam no mundo aproximadamente 923 milhões de pessoas afetadas pela desnutrição, e a cada 5 segundos, morre uma pessoa no mundo devido a alguma carência nutricional. Mostrando que, em pleno século 21, a
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insegurança alimentar mesmo não sendo nova aparece como um problema que assombra diversas nações.
Em 2010, segundo a FAO, é observada uma queda em 98 milhões de pessoas desnutridas no mundo, significando 9,6% no total de subnutridos, em grande parte devido ao crescimento da economia em países em desenvolvimento. Mesmo assim o número de pessoas que sofre de alguma carência nutricional ainda é relativamente alto.
Mesmo com toda evolução no combate a fome e desnutrição, dados mostrados pela WHO em agosto de 2010, na resolução de Joannesburg, mostram com grande preocupação que a desnutrição continua a ser uma das principais causas de morte e incapacidade para as crianças: 1 em cada 3 mortes, e 20% dos anos perdidos de vida saudável são atribuíveis à desnutrição em todas as suas formas.
Desnutrição proteico-calórica é definida pela Organização Mundial da Saúde como uma síndrome multifatorial de condições patológicas decorrentes de um desequilíbrio pelo aporte alimentar insuficiente, transporte ou utilização de nutrientes (por exemplo, proteínas, iodo ou cálcio) por células do organismo para assegurar o crescimento e manutenção de funções especificas do organismo (Sawaya et al.,2003). Muitas vezes o inadequado aproveitamento biológico dos alimentos ingeridos é motivado por alguns tipos de doenças, em particular infecciosas e parasitarias bem como um quadro de síndrome de má absorção (Monteiro, 2003).
No ano de 2006 foi estabelecida uma nova definição para desnutrição, sendo caracterizada por uma condição fisiológica anormal causada por deficiência, excessos ou desequilíbrios na ingestão de calorias, proteínas ou outros nutrientes (ONU, 2006). Este novo conceito abrangerá não só a falta, mas também o excesso alimentar (Comitê Permanente de Nutrição – Ctherini Bertine, 2006), englobando com isso outro grande problema de saúde pública nos dias atuais, a obesidade.
Assim, existem três tipos básicos de alterações dietéticas: 1) diminuição da quantidade total de alimentos, ou seja, fome, também chamada de desnutrição calórica total. A nível severo, este tipo de desnutrição foi denominada marasmo; 2) alteração na composição dos alimentos consumidos, ou seja, alteração da qualidade da dieta. O que pode provocar um tipo de desnutrição severa, chamada kwashiorkor; 3) aumento na quantidade de alimento ingerido acima das necessidades para a sobrevivência do organismo, ou seja obesidade (Sawaya, 2003).
A desnutrição do tipo kwashiorkor, pode ser caracterizada pela deficiência de proteína encontrada principalmente no leite materno, além de vitaminas e sais minerais
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em um primeiro momento, e mais tarde na carne, que é um tipo de alimento mais caro sendo extremamente raro na mesa de populações mais pobres, estas se alimentando principalmente a base de carboidratos, (Mendonça, 2003; Voltarelli et al., 2008). Em primeira instancia vê-se um quadro de fadiga, irritabilidade, letargia, incluindo diarreia, anemia e retardamento motor.Não tratada, a doença evolui, a imunidade do paciente cai e o corpo apresenta edema. Em quadros graves, pode ocorrer deficiência mental e morte.Mesmo tratada, a criança que teve kwashiorkor dificilmente atinge altura e peso normais (Mendonça, 2003).
Este tipo de desnutrição é considerado como forma mais letal de má nutrição e tem um papel muito importante em pelo menos metade das mortes anuais de crianças no mundo em desenvolvimento. Dados mostrados pela Organização mundial da saúde (OMS) em 2007 mostram que esta forma de desnutrição afeta uma em cada quatro crianças em todo o mundo: 150 milhões (26,7%) estão com baixo peso e 182 milhões (32,5 %) têm desenvolvimento retardado. Relata-se que 55% das mortes infantis em países em desenvolvimento estão associadas à desnutrição, sendo que 12,2 milhões de mortes anuais de crianças menores de 5 anos, 6,6 são causadas pela desnutrição. De acordo com a OMS, a alimentação inadequada de recém-nascidos e crianças são responsáveis por um terço dos casos de desnutrição (WHO, 2007). No Brasil a prevalência de desnutrição em crianças menores de 5 anos de idade, aferida pela proporção de crianças com déficit de crescimento, foi 7% em 2006 (Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, 2009).
A palavra proteína deriva do grego “protéios”, que significa o que tem prioridade. Essa palavra tem um real sentido, já que de fato são elas as macromoléculas mais importantes das células. As proteínas são compostos orgânicos com uma estrutura complexa, resultante da união de inúmeros aminoácidos. Dos vinte aminoácidos que constituem as proteínas, nove são considerados essenciais, ou seja, não são sintetizados pelo organismo e devem ser adquiridos através da dieta. Esses compostos possuem funções vitais para os organismos, atuando de forma versátil, ou seja, possuindo diversificadas funções. As proteínas participam da estrutura dos tecidos (função estrutural), atuam como agentes reguladores das atividades biológicas (função enzimática) resultam em hormônios (função hormonal), atuam no combate a agentes estranhos ao organismo (função de defesa), além de servirem como fontes de aminoácidos (função nutritiva) (Lehninger, 2005). Baseado nisso, a desnutrição
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proteica é altamente prejudicial ao organismo, uma vez que as proteínas fornecem aminoácidos que regulam e cumprem funções fisiológicas e metabólicas no organismo.
Tendo por base que estudos sobre desnutrição proteica em humanos são mais observacionais do que experimentais, vê-se a necessidade da avaliação através de modelos animais controlados de acordo com a intensidade da desnutrição e o tempo de exposição (Giacomelli & Marçal-Natali, 1999). O rato, então, torna-se o modelo experimental mais utilizado nestes estudos devido às vantagens que apresenta, tais como fácil manejo, alta capacidade de adaptação aos diferentes protocolos de desnutrição, além de possuir metabolismo acelerado, sendo este, de alta relevância uma vez que permite investigações experimentais rápidas, principalmente daqueles distúrbios promovidos pela desnutrição apenas tardiamente no ser humano (Bello et al., 2005).
Existem hoje, varias metodologias pra induzir desnutrição em ratos. Alguns autores adotam o aumento do número de filhotes da ninhada durante o período de aleitamento, levando à competição pelo leite materno, diminuindo a disponibilidade de nutrientes para cada animal individualmente (Chase & MC Khann, 1969; Bell e Slotkin, 1988). Outro método utilizado é através da redução do conteúdo proteico oferecido à fêmea durante o período de amamentação dos filhotes (Pedrosa & Moraes Santos, 1987). Em outros trabalhos, essa desnutrição é promovida durante a gestação, com redução do teor de proteínas oferecido às fêmeas (Tonkiss et al., 1998). E ainda, com a diminuição do conteúdo proteico da dieta após o desmame (Benade et al., 1993).
Todas as metodologias citadas anteriormente são eficazes em promover um quadro de desnutrição em diferentes fases. No Laboratório de Fisiologia Cardiovascular (LFC) é adotado há alguns anos como modelo experimental para a desnutrição, a redução na oferta de proteínas após o desmame (Trópia et al., 2001; Oliveira et al., 2004; Bezerra, 2009).
Experimentos têm mostrado que a desnutrição seja ela pré- ou pós-natal pode levar a diversas alterações fisiopatológicas, tais como baixo peso ao nascer, crescimento retardado, alterações metabólicas, modificação na composição de lipoproteínas plasmáticas, alterações na hematopoese com baixa produção de novas células com grande parte apresentando-se anormais, surgimento de diabetes, obesidade, alterações nos níveis de pressão arterial, hipertrofia glomerular, aterosclerose e um comprometimento morfofuncional com modificações no comportamento e
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aprendizagem (Lucas et al., 1997; Lucas, 1998; Monteiro, 2003; Almeida e Mello, 2004).
Dados do LFC mostram um aumento do tônus vasomotor simpático em animais submetidos a um modelo de desnutrição proteica pós-desmame (Trópia et al., 2001). Os estudos ainda sob o mesmo modelo animal mostraram alterações nos valores basais de frequência cardíaca (FC) e pressão arterial média (PAM), além do aumento da variabilidade desses parâmetros, quando analisados em intervalos de noventa minutos, no domínio do tempo (Oliveira et al., 2004). Loss et al. (2007) demonstraram uma perturbação da homeostase cardiovascular decorrente da desnutrição. Nesse trabalho foram mostradas alterações no ganho do barorreflexo antes e após bloqueios autonômicos além de alteração no período de latência da resposta barorreflexa. Gomide
et al. (2007), relatou ainda que, existe uma importante interação entre o sistema renina- angiotensina e o sistema simpático vasomotor. Foi evidenciada uma hiperatividade do eixo renina-angiotensina na gênese da pressão arterial em animais desnutridos. Martins (2007) explanou através da análise da variabilidade da FC no domínio da frequência um aumento da atividade eferente simpática e redução da atividade eferente parassimpática após bloqueio autonômico em ratos submetidos à desnutrição proteica, sugerindo uma disfunção autonômica cardíaca nesses animais. Bezerra (2009) confirmou ainda que a desnutrição proteica pós-desmame promove prejuízos na regulação reflexa cardiopulmonar, com atenuação das respostas hipotensoras e bradicárdicas produzidas por administração de fenilbiguanida e, ainda, ratos desnutridos apresentam uma menor queda da atividade simpática após ativação do reflexo Bezold-Jarisch.