6. Discussion of Results
6.3. Numerical Calculation of Run-Out Distance
Com o objetivo de levantar sentidos e significados constantes no documento orientador da instituição para relacioná-los aos sentidos de prática de leitura, bem como ao papel de professor e de aluno no processo ensino-aprendizagem, atribuídos pelos professores e revelados pela análise de suas práticas, buscou-se a análise do Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, que descreve os princípios orientadores das ações e planejamento de atividades relativas a ensino, pesquisa e extensão da instituição para o período de 2012 a 2016. A análise desse documento possibilitou depreender os valores e princípios que direcionariam as práticas pedagógicas da instituição, visto que não há orientação explícita para o trabalho com a leitura.
O Projeto Político Pedagógico Institucional (PPI), constante no PDI, cujo objetivo é orientar o trabalho pedagógico, estabelece os princípios, diretrizes e metas direcionados à formação educacional, que espera ser “integral, técnica e tecnológica, avançada e emancipatória”, alicerçada na articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Os princípios constantes no PDI (2013, p. 19-20), são:
Integração entre conhecimento geral e conhecimento específico e entre teoria e prática (...); formação técnica e tecnológica, com desenvolvimento da capacidade investigativa, reflexiva e crítica, devidamente articuladas às questões artístico-culturais que a estes permeiam; formação básica sólida e formação profissional abrangente, capacitando o cidadão jovem e adulto de maneira autônoma na sua relação com as demandas de conhecimentos oriundos, não só de sua área profissional, mas também de sua relação social.
Embora não haja, no documento da instituição, nenhuma declaração explícita de sua ligação a uma teoria específica, os princípios orientadores de suas ações permitem uma compreensão da prática pedagógica fundamentada na concepção tecnicista da década de 1970, que retorna a partir dos anos 90 do século passado, sob orientações da política neoliberal para as reformas educativas no Brasil. Essas reformas surgem com um novo discurso, revelado pelas escolhas lexicais de substantivos e adjetivos do campo discursivo da teoria sócio-histórico-cultural, a saber: “integração entre conhecimento geral e
específico”, “teoria e prática”, “formação profissional abrangente”, “oriundos de sua área
profissional” e “de sua relação social”. Tais princípios são retomados em vários momentos. Por exemplo, quando determina: “faz-se necessário romper com a fragmentação do saber, buscando entrelaçar teoria e prática, pensar e fazer, ciências exatas, da natureza e ciências humanas” (PDI, 2013, p. 29), na formação de um ser humano historicamente constituído e vinculado às necessidade sociais e culturais.
As expressões destacadas materializam diferentes vozes presentes no discurso educacional: a racionalidade técnica defendida nos anos 1970 e 1980; os parâmetros curriculares para o Ensino Médio, ao buscar relacionar as diferentes áreas em uma formação integral; a perspectiva crítica, reforçada no objetivo de formar um ser humano historicamente constituído; e o desencapsulamento do ensino (ENGESTRÖM, 2011), ao buscar relacionar a teoria com prática na vida do aluno fora do ambiente escolar.
O Projeto Político Pedagógico Institucional coloca-se, assim, como um documento representativo das ideias e práticas que apoiariam as ações em construção nas práticas didáticas, de forma a possibilitar a formação integral do ser humano como se pode verificar na afirmação seguinte:
a formação omnilateral, ou seja, a formação verdadeiramente integral do ser humano, pressupondo, portanto, estabelecer nos currículos e na prática político-pedagógica da Instituição a articulação entre educação, cultura, arte, ciência e tecnologia, nos enunciados teóricos, metodológicos, políticos e pedagógicos da ação educativa institucional (PDI, 2013, p. 26).
A formação integral é enunciada pela “articulação entre educação, cultura, arte,
ciência e tecnologia”, e reforçada pelas escolhas lexicais “verdadeiramente integral”,
teóricos, metodológicos, políticos e pedagógicos”. A instituição valoriza, ainda, a formação
dos educandos para o trabalho na sua constituição de cidadão. Nos termos do PDI:
A formação acadêmica do cidadão pressupõe o reconhecimento e a exigência da educação integrada que reflita uma concepção teórica fundamentada em uma opção política, a de oferecer ao cidadão um saber omnilateral, formando-o, acima de tudo, como parte efetiva da construção da sociedade, entendendo-o, portanto, como sujeito da história e compreendendo a relação entre saber político, saber técnico e saber sócio e artístico-cultural. Para a educação com vistas à formação profissional e tecnológica, o trabalho é uma categoria central para a compreensão e a prática educativa, unificado à formação humanística e artístico-cultural que envolve toda a formação acadêmica do jovem e do adulto (PDI, 2013, p. 26-27).
O fato de considerar o trabalho como uma categoria central à formação profissional e tecnológica, unificada à formação humanística e artístico-cultural, pressupõe a formação do educando para a construção da sociedade, numa alusão às teorias sócio-históricas. Corrobora para essa interpretação, a utilização de termos característicos do campo semântico da teoria sócio-histórico-cultural, na proposta de formação do estudante, tais como: “agente efetivo da construção da sociedade”, ou “um ser social com consciência de
si, dos outros e da sociedade, um sujeito da história”, e que requer “espírito crítico, a capacidade de tomar decisões, de posicionar-se frente aos contextos de crise e de
mudanças” e a “autonomia intelectual e de trabalho”. As expressões destacadas apontam
consonância com ideias de base da TASHC, especificamente quanto à concepção de homem que visa formar: um sujeito com formação integral, com espírito crítico e autonomia intelectual capaz de interagir em contextos de crise e mudanças, ou seja, um sujeito histórico.
No entanto, percebe-se que, apesar desse discurso impregnado de termos sócio- históricos, o foco é a formação tecnológica, tal como reforçado no perfil profissional previsto para os egressos dos cursos técnicos e superiores do instituto, conforme declarado no PDI (2013, p. 41), que devem contemplar as capacidades:
de posicionamento crítico dos profissionais, frente às alternativas e projetos de desenvolvimento econômico, social, político e cultural em debate e enfrentamento na sociedade; de identificar e posicionar-se frente às tendências de desenvolvimento da ciência e tecnologia e seus reflexos, sociais e ambientais, na aplicação aos processos produtivos e de trabalho, a iniciativa e liderança na tomada de decisões; de articulação de equipes e de planejamento de metas, dentre outros, demonstrando profundo vínculo com as necessidades e compromissos sociais mais amplos, sendo
contemplados como variáveis determinantes do perfil profissional do egresso em todas as áreas e níveis de atuação do instituto no ensino.
Como demonstrado nos trechos analisados, o documento é repetitivo quanto à ideia de formação integral, reforçada por diferentes expressões do campo semântico relativo a ela como “posicionamento crítico dos profissionais”; “posicionar-se frente às tendências de
desenvolvimento da ciência e tecnologia e seus reflexos, sociais e ambientais, na aplicação aos processos produtivos e de trabalho”. É importante destacar que o documento utiliza uma linguagem genérica e muita ampla, como, por exemplo, em: “vínculo com as
necessidades e compromissos sociais mais amplos, sendo contemplados como variáveis determinantes”, dificultando com isso, a compreensão pelos professores quanto à delimitação dos sentidos presentes no documento e sua relação com a prática cotidiana. Em síntese, o Plano de Desenvolvimento aponta em linhas gerais os princípios e metas, mas não esclarece ou orienta como fazer, como adequar as práticas didáticas a esses princípios, de forma que resultem nas metas visadas. Tal fato é observado também nas políticas destinadas à formação básica e/ou de professores.
As diretrizes do PDI não fazem referência específica às áreas do conhecimento, como apresentadas nos Parâmetros Curriculares para o Ensino Médio – PCNEM; no entanto, os princípios orientadores da formação pretendida atendem aos parâmetros na área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, que preveem a leitura sob a ótica das competências e habilidades como exemplificada no excerto seguinte dos PCNEM, que enfocam algumas das habilidades relacionadas aos princípios e metas do PDI da instituição, a saber:
Representação e comunicação
Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
Utilizar-se das linguagens como meio de expressão, informação e comunicação, em situações intersubjetivas, que exijam graus de distanciamento e reflexão sobre os contextos e estatutos dos interlocutores; e colocar-se como protagonista no processo de produção/recepção.
(...)
Investigação e compreensão
Analisar, interpretar e aplicar os recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de
produção/recepção (intenção, época, local, interlocutores participantes da criação e propagação de ideias e escolhas, tecnologias disponíveis etc.). (...)
Contextualização sócio-cultural (...)
Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de: organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação (BRASIL, 2000, p.14).
As competências de representação e comunicação, investigação e compreensão, contextualização sócio-cultural podem ser relacionadas às competências expostas no PDI: “desenvolver competências de comunicação, desenvolvimento do raciocínio lógico-formal,
de forma a estabelecer relações inter e transdisciplinar”, além da capacidade de “tomar decisões e de transferir saberes anteriores para situações novas”. A previsão dessas competências no PDI revela que as orientações curriculares nacionais foram consideradas na elaboração de sua proposta pedagógica.
Pode-se observar que a visão de educação e, por extensão, dos estudos da linguagem, estão previstos no PDI, representados pelos temas recorrentes: “formação
omnilateral do ser humano”; “conhecimentos construídos a partir do trabalho enquanto
práxis”; “capacidades investigativa, reflexiva e crítica”; “ser humano historicamente
constituído e vinculado às necessidades sociais e culturais”, reforçados pelas escolhas de substantivos com carga semântica do campo relativo à teoria sócio-histórico-cultural: “formação integral”, “trabalho enquanto práxis”; e pelas expressões vygotskianas: “ser
humano historicamente constituído e vinculado às necessidades sociais e culturais”. No entanto, os PCNEM focam suas orientações no desenvolvimento de habilidades e competências, enquanto o PDI enfoca a formação omnilateral do homem, um profissional que aja como ser histórico, como já demonstrado anteriormente nos excertos analisados.
Pelos princípios e expressões analisadas, que revelam a base na perspectiva crítica objetivando a formação integral, espera-se uma postura crítica dos professores em suas práticas didáticas, que considerem a relação entre as diferentes áreas, entre teoria e prática, e que permitam ao aluno formar-se como sujeito crítico e atuante em seus contextos profissional e social. Espera-se que as práticas de leitura, portanto, sejam organizadas na perspectiva crítica, no sentido de propiciar ao aluno o desenvolvimento de suas capacidades para que ele se posicione como sujeito histórico em relação ao dito.
Essa postura teórico-metodológica almejada associa-se à base desta pesquisa que se fundamenta na visão da TASHC para os estudos da linguagem, ao objetivar a formação de um sujeito consciente de seu processo de formação, de internalização e externalização (VYGOTSKY, 1930, 1934), ou seja, na compreensão de sentidos e produção de significados, sendo capaz de intervir neste processo, buscando o tornar-se humano (NEWMAN & HOLZMAN, 2002).
A seguir descrevo a minha entrada em campo.