ou seja, o entrelaçamento entre diversos domínios culturais ou ordens, já que ―esta exigência de ordem constitui a base do pensamento primitivo, mas unicamente pelo fato de que constitui a base de todo pensamento‖ (Ibidem).
Além disso, deve-se destacar que para os Kalankó todos os elementos envolvidos no sistema da energia encantada, tornam-se vivos e que, ao produzir elementos vivos, constituem-se elementos híbridos, que não pertencem nem à ordem natural nem à cultural. Isto por ―não deixar escapar nenhum ser, objeto ou aspecto, a fim de lhe assegurar um lugar no interior de uma classe (Ibidem)61.
Desta forma, ao produzir energia encantada os Kalankó produzem vida e se produzem vida, produzem de certa forma novos sujeitos e novos pontos de vista.
A questão do ponto de vista tem sido cada vez mais debatida e aprofundada na literatura etnológica. O trabalho de Viveiros de Castro (2002) mostra muito bem como na cosmovisão indígena, com foco nas etnografias amazônicas, há um grande jogo de perspectivas. Dependendo de onde está o ponto de vista, enxerga-se um universo diferente ou coloca-se no universo de uma forma distinta.
Neste cenário, a humanidade é sempre o ponto de vista preponderante e, a partir dela, os corpos variam de forma. Um humano, do seu ponto de vista – humano – enxerga o porco do mato como tal, mas o porco do mato, do seu ponto de vista – humano – enxerga o humano como uma presa62.
Entre os Kalankó, quem participa do trabalho que materializa a energia encantada no terreiro é vivo e deve, portanto, ter agência, intencionalidade e ponto de vista63.
Nestes casos, este sujeito pode ser um campiô, um canto ou, principalmente, um encanto. Este último pode inclusive assumir a perspectiva do índio, estabelecendo-se na terra e tendo o poder de transformação, que pode curar, aconselhar ou matar.
61 É o que acontece com os elementos da falsa modernidade, analisada por Latour (1994). O autor evidencia um continuum que vai da natureza à cultura. Se os elementos da modernidade estão quase sempre posicionados no espectro central do continuum, o sentido que se dá a eles está sempre em um ou outro pólo, apontando para a modernidade falsamente ligada ao pólo cultural que controlaria a natureza.
62 O encontro mais perigoso neste universo é com o jaguar, que quer convencer o humano de que o ponto de vista humano está com ele e que o humano não possui tal humanidade (VIVEIROS DE CASTRO, 2002).
63 A questão do ponto de vista e das perspectivas no universo Kalankó é aqui apenas apresentada, devendo a mesma, ser mais bem trabalhada em outros estudos, pois parece apontar para certa relevância no universo em questão.
Tal mudança de perspectiva é clara em alguns torés, como por exemplo, Abre-te porta janela
que é por ela, eu quero entrar X2 eu vou avisita
a mesa do ájuca X2
As duas células deste toré são repetidas intermitentemente, estabelecendo um continuum de ponto e contraponto, num movimento de subida e descida do tom. A perspectiva do cantador é a do encantado, que pede uma passagem para poder assumir a perspectiva do sujeito e interferir na terra – lugar do índio. O que fica claro quando se usam os verbos abrir e entrar, referindo-se a uma casa ou a um corpo.
Desta forma, quem canta assume a perspectiva do encanto, estabelecendo tal entidade na terra e assumindo poderes especiais. Em certos momentos o corpo do cantador pode assumir a energia encantada e o encanto fala pelo cantador.
O ponto de vista e a agência de um sujeito estão, portanto, diretamente relacionados ao acolhimento da energia encantada. O termo acolher na comunidade aponta para a ação de aceitar, respeitar e se abrir para algum elemento exterior. A subjetividade encantada assumindo então o corpo do sujeito índio.
Lá, ainda, para que tais elementos permaneçam vivos, eles devem ter um tratamento especial. O mundo Kalankó é cheio de obrigações e responsabilidades. Existem vários tipos de obrigações, que são ligadas ao encruzamento e a defumação do elemento.
O maracá, por exemplo, encruza-se de dois em dois dias. A veste de praiá, todo dia. A semente encantada, que representa materialmente o próprio encanto, também deve ser zelada. O corpo é outro espaço para obrigações como será trabalhado no capítulo 6.
Tonho Preto me disse que deve sempre, ao acordar, fazer o sinal da cruz. Este sinal deve ser repetido quando for para cama, dormir. Ele deve, também, fumar o campiô diariamente e encruzá-lo duas vezes ao dia.
O ciclo anual, também tem suas obrigações. O Ritual do Umbu, no sábado de aleluia, é uma obrigação, diferente do rito de 25 de julho, realizado em celebração ao dia que ―reapareceram‖ para a sociedade. Este ainda não virou tradição e por isso é classificado como não-vivo.
Há, portanto, uma série de obrigações que configuram um processo de transformação dos objetos e corpos, que só assim conseguem acolher a energia encantada.
Deste sistema de pensamento pode-se concluir que o poder de transformação, para os Kalankó, está localizado no plano da ciência indígena, que é fortemente marcada pela criatividade. Além disso, o processo de preparação dos corpos é fundamental para a realização da experiência.
Neste processo, criam-se imagens que transcendem a condição local e posicionam os sujeitos do grupo numa situação ideal.
A ciência Kalankó é, portanto, poética, mostrando ―que o saber teórico não é incompatível com o sentimento, que o conhecimento pode ser objetivo e subjetivo ao mesmo tempo, enfim que as relações concretas entre o homem e os seres vivos colorem às vezes com matizes afetivos‖ (LÉVI-STRAUSS, 1989 [1962]: 54).
Para os Kalankó, os recursos e os elementos são finitos e só uma ação ligada à lógica de associação e recorte é realmente capaz de transformar a vida na região. Isto ocorre porque o ―universo instrumental é fechado, a regra de seu jogo é arranjar-se com os ―meios-limite‖, isto é, um conjunto sempre finito de utensílios e de materiais bastante heteróclitos‖ (Ibid: 33).
A solução na aldeia é, então, dar vida a estes objetos. Seu Edmilson me contou em uma de nossas conversas em 2005 que a semente de Santina fugiu, implicando ao objeto agência e intencionalidade. Segundo ele, ―aquela semente que ela tinha fugiu... é... quando tava perto de Deus leva... aí a semente fugiu... aí a semente fugiu‖.
A puxada64 representa o balanço do maracá – vivo –, a partir da pulsação
intermitente do instrumento. Este procedimento determina o andamento do canto e dá a dinâmica da vida na aldeia. Seja na produção de primos e parentes, seja na elaboração de
64 Note-se que a valorização da puxada como elemento da música nativa e do maracá, para além da performance musical, também aparece nos estudos de Pereira (2004) sobre os Kapinawá/PE.
esquemas simbólicos. Quanto mais rápido o andamento da puxada, maior a intensidade da vida.