Com a instituição do Estado monárquico em Israel, as comunidades do campo continuaram sendo a base produtiva. No entanto, ocorreu a transição de uma economia tribal para uma economia tributária. A transição trouxe mudanças significativas para as relações tradicionais israelitas. A monarquia era a realidade
283 Veja discussão sobre esse assunto no artigo de Roland Boer, Women First? On the Legacy of
“Primitive Communism”, em: Journal for the Study of the Old Testament, London, Sage Publications, vol. 30, n. 1, 2005.
284Cf. François Houtart, Religião e modos de produção pré-capitalista, p. 16ss, 33ss. Veja também
Darcy Ribeiro, O processo civilizatório. Estudos de antropologia da civilização. Etapas da evolução sociocultural, p. 60-72.
285 Cf. 1Rs 21.
286 Ciro Flamarion S. Cardoso, Modo de produção asiático: nova visita a um velho conceito, Rio de
social nos vales. Mas, por fim, alcançou as montanhas, onde as tribos haviam se instalado.287
O tribalismo igualitário israelita288 foi integrado ao tributarismo monárquico e por ele submetido. No entanto, antes mesmo do surgimento e estabelecimento da monarquia, nos tempos finais do tribalismo, vários fatores já contribuíam para o abalo nas relações clânicas. Tais fatores, que abriram espaço para a chegada da monarquia tributarista em Israel, foram determinantes para o aparecimento de dois grupos distintos. Por um lado, aqueles que se estabeleceram nas cidades e, por outro, os que viviam nas aldeias camponesas. Causas externas e internas contribuíram para o surgimento de uma estrutura monárquica tributarista israelita.
Entre as causas externas que apressaram o surgimento da monarquia destacam-se o interesse dos reis de Moab e Amon (Jz 3,12-14; 10,6-9) e os de Canaã (Jz 4,1-2) em cobrar tributos dos israelitas, além das incursões dos midianitas, que arrasavam as plantações e roubavam o que encontrassem (Jz 6,1-6).
Porém, a ameaça maior vinha dos filisteus. A Filístia era um território pequeno, mas poderoso militarmente e politicamente. Eles tinham o monopólio do ferro (1Sm 13,19-23); impediram a presença militar egípcia na terra de Canaã e ocupavam o vácuo deixado pelos egípcios. Por isso, era uma ameaça permanente. Seus ataques a Israel eram contínuos (Jz 3,31; 10,6-8; 13,1; 1Sm 4-7; 16-17).
O interesse de tais reis era aumentar seu poder econômico e político. Mas este não era o único motivo pelo qual os reis atacavam o projeto tribal. O exemplo de vivência fraterna das tribos livre da opressão representava uma forte denúncia das cidades-Estado. Era um espaço que atraía cada vez mais pessoas escravas que fugiam de seus senhores e se integravam nos clãs de Israel (1Sm 25,10). Aos reis não faltavam, portanto, razões para acabar com o novo projeto dos hebreus.289 O surgimento de uma estrutura monárquica não teve somente como causa as ameaças externas. As principais razões foram internas à vida dos clãs e das tribos. Uma das causas internas que contribuiu para o enfraquecimento do sistema tribal foi a grande
287 Milton Schwantes, Breve história de Israel, p. 18.
288 Norman K.Gottwald, As tribos de Yahweh: uma sociologia da religião de Israel liberto 1250-1050
a.C. Veja ainda Martin Noth, História de Israel, Barcelona, Edicciones Garrida, 1966, p. 61-137. Também Antonius H. J. Gunneweg, História de Israel: dos primórdios até Bar Kochba e de Theodor Herzl até os nossos dias, São Paulo, Teológica, 2005, p. 83-96. E ainda Carlos Arthur Dreher, A formação social do Israel pré-estatal. Uma tentativa de reconstrução histórica a partir do cântico de Débora (Jz 5), em Estudos Teológicos, São Leopoldo, Faculdade de Teologia da IECLB, n. 26, 1986, p. 169-201.
289 Ildo Bohn Gass (org.), Uma introdução à Bíblia: formação do Império de Davi e Salomão, São
diferença econômica e territorial entre as tribos. Algumas tribos eram mais fortes do que outras e constituíam novos focos de poder.
Na religião, o javismo, libertador e partilhador, perdeu terreno para o baalismo da fertilidade, religião mais simples e mais afeita ao ritmo cotidiano. A corrupção dos sacerdotes (1Sm 2,12-17) foi uma das causas que contribuiu para o enfraquecimento do javismo e a desintegração da experiência tribal. Além disso, conforme 1Sm 8,1-9, a corrupção havia chegado também aos juízes, os primeiros responsáveis por zelar pelo exercício da justiça.290
No tocante à produção, o fato de terras novas serem ocupadas e a chegada do ferro e da cisterna promoveram mais excedentes, os quais transcendiam a necessidade da comunidade e colocaram o sistema igualitário num impasse decisivo.
O controle do ferro, por exemplo, foi determinante para a diferenciação social, a elitização. Quem tivesse acesso a ele passava a ter significativas vantagens sobre os demais. Além disso, as montanhas se adequavam mais à produção de vinho e azeite. Ao contrário do cereal, que exigia baixa condição de estocagem e uma especialização bem menor, o vinho e o azeite requeriam uma boa infraestrutura. Quem se dedicava a esses produtos precisava investir durante certo tempo sem retorno. E quando o retorno se dava, ocorria em forma de excedente comercializável, o que rompia os laços da igualdade tribal.
A circulação de mercadorias teve um papel primordial na dissolução das estruturas comunitárias e desvaneceu a antiga possessão comum do solo, porquanto tornou desigual o estado de fortuna dos diferentes membros da comunidade.291
Por fim, a introdução do boi na produção permitiu o enriquecimento de uma nova classe de proprietários, os “donos de bois”, fazendo com que o pai da casa se tornasse um senhor de escravos por dívidas e proprietário de outros bens.292
O boi era um bem tão valioso que o primeiro livro de Samuel menciona esse termo 27 vezes. No código da aliança (Ex 20,22-23,19), texto considerado dessa mesma época, o termo boi ocorre 25 vezes. Até mesmo um provérbio reconhece que a força do boi aumenta a produção, gera acúmulo (Pr 14,4).293
Os interesses econômicos e a introdução do arado com lâmina de ferro (1Sm 13,19-21) e puxado pelo boi aumentaram significativamente a produção agrícola.
290 Idem, p. 13-14.
291 Ciro Flamarion S. Cardoso, Modo de produção asiático: nova visita a um velho conceito, p. 10. 292 Carlos Frederico Schlaepfer, A Bíblia: introdução historiográfica e literária, p. 53.
Mas, o enriquecimento não foi igual para todos. Apareceram desigualdades sociais. Quem não tinha as melhores terras estava excluído desse avanço tecnológico para a época. Ficava para trás. As diferenças entre famílias, os clãs e mesmo as tribos se acentuava.
O gado pequeno (ovelhas e cabras) não representava grandes mudanças nas áreas agricultáveis. Seu pasto localizava-se fora do âmbito da agricultura. Já com o gado de grande porte a situação era bem diferente. Seu alimento estava nas áreas agricultáveis. Isso provocou graves consequências para a estrutura social do Antigo Israel. O gado tirava o espaço (Ex 21-22) e devorava a comida que, a rigor, seria das pessoas. A terra utilizada para a produção de alimento se tornaria terra de produção de pasto.
O gado contribuiu para a exclusão, empurrando para a periferia uma camada mais empobrecida. O boi provocou desequilíbrio ao acelerar o aparecimento de pobres de um lado e ao projetar segmentos sociais enriquecidos de outro lado. Por ser uma mercadoria de difícil mobilização, o gado necessitava de armas de defesa, isto é, de exército.
Portanto, as relações tradicionais clânicas foram enfraquecendo à medida que algumas tribos, clãs e anciãos foram enriquecendo na base do gado, do óleo, de trocas vantajosas, de comércio. Agregado a isso, os templos e as estradas tinham grande relevância para o comércio, porquanto o primeiro servia como armazém e pelo segundo circulava o excedente das casas, dos clãs e das famílias, contribuindo para o acúmulo de alguns em detrimento da maioria camponesa empobrecida.294
As mudanças ocorridas na transição e no estabelecimento da monarquia em Israel motivaram o crescimento e o desenvolvimento. No entanto, os beneficiários desse crescimento e prosperidade foram uma porcentagem pequena da população. Por questões de segurança, os cidadãos mais abastados, os chefes dos clãs israelitas, diante da invasão dos filisteus, começaram a se mudar para as cidades.295
Mesmo assim, a grande maioria da população (aproximadamente 95%) permaneceu nas comunidades aldeãs rurais contando com seus próprios meios de produção: terra em posse familiar e rebanhos de ovelhas e cabras. Eram famílias
294 Ver Milton Schwantes, As monarquias no antigo Israel. O estado monárquico no final do século
XI a.C.: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica, São Leopoldo/ São Paulo, CEBI/Paulinas, 2006, p. 36-51. Também Milton Schwantes, Breve história de Israel, p. 19-20.
295 Carlos Frederico Schlaepfer, A Bíblia: introdução historiográfica e literária, Petrópolis, Vozes,
estendidas compostas por 20 ou 25 casais.296 Houve poucas mudanças na estrutura e na natureza da comunidade aldeã até o período persa.297