Triste de quem vive em casa, …
Sem … um sonho, no erguer de asa, …
Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. Nada na alma lhe diz … Ser descontente é ser homem. Que as forças cegas se domem Pela visão que a alma tem … E assim, passados os quatro Tempos do ser que sonhou, A terra será teatro Do dia claro, … Quem vem viver a verdade?
(Fernando Pessoa – MENSAGEM) [Alves, 2011: 319]
Escrever sobre a liberdade é refletir sobre os pensamentos utópicos. O escritor ao confrontar o leitor com comportamentos anti-humanos alimenta um sentimento de esperança e de utopia.
D. João II deu vida aos sonhos. O Príncipe Perfeito reinou com “a imposição da Lei e a defesa da Grei” (Alves, 2011: 355).
Pola Lei e Pola Grey foi a divisa de D. João II ao tomar o poder, apoiado nas ruas
pelo povo que sofria os abusos dos nobres. Esse grande vulto que a rainha de Espanha designou O Homem e que, conforme Veríssimo Serrão refere ao prefaciar a Crónica de Garcia de Resende, desde muito novo sentira a res publica como ideal que transcende o detentor do poder e o irmana com a grei. Para a posteridade fica a imagem do Príncipe Perfeito: do legalista que impôs com dureza os direitos da Coroa, mesmo com sacrifício dos familiares e cortesãos; do rei que foi certo e constante na justiça para impedir atropelos à Coroa e protector dos povos; do sonhador governante que, para além de outros projectos, ordenou o descobrimento da Índia.
A divisa do Príncipe Perfeito, num sonhador golpe de asa, foi assumida pela Guarda [Guarda Nacional Republicana]. Pela Lei e Pela Grei é o farol orientador nos caminhos em busca da utopia.
O esforço legalista para impedir atropelos à soberania do Estado; o trabalho de protecção ao serviço das populações. Conforme a tradição, “Hora a Hora a Guarda Melhora”, mas em época de crise torna-se indispensável “adivinhar os perigos” e sonhar mais longe (Idem: 325-326).
A Guarda Nacional Republicana (GNR) escolhe para a sua divisa, Pela Lei e
Pela Grei, a qual se mantem inscrita no seu brasão (Idem: 117). Assim sendo, a
Guarda é fiel depositária da utopia eleita pelo Príncipe Perfeito. Não é uma missão fácil de ter a seu cargo, tão difícil responsabilidade: defender o povo e impor a lei contra “os abusos dos nobres”. A aplicação dos imperativos legais, nem sempre é líquida. Por este fato os tribunais, bem como as entidades administrativas devem decidir em função do espírito do legislador.66
Sociedades perfeitas defensoras da liberdade e utópicas sempre cativaram os grandes pensadores. A literatura é utilizada pelos autores idealistas, visionários e com a vontade de reformar o comportamento social, para alcançar o bem comum e uma sociedade ideal, muitas vezes utópica, pois o sonho da sociedade exemplar é apenas, e só um sonho (cf. Shaw, 1978: 467). No entanto, esta pintura das imperfeições que aflige a sociedade pode ser retocada, atenuando deste modo, as distopias sociais.
A utopia sugere alternativas para organizar a sociedade. Pode ser um pensamento otimista, o que talvez represente um anti-poder instituído. Poderá ser uma sociedade pautada pela esperança, onde a justiça social reina. Este sonho é sinónimo de liberdade e de igualdade de oportunidades para todos os seres humanos. Representa uma cura para o desencantamento da sociedade, é sobretudo um lugar de resistência e de crítica social.
Os compromissos utópicos alicerçados na liberdade sempre foram os temas eleitos por ideologias e por projetos políticos. Também, as vítimas de injustiças, de crises económicas, de decisões políticas prejudiciais à maioria das populações encontram na utopia a esperança para a solução das suas dificuldades. Este sonho espelha a liberdade de pensamento, de concorrer a oportunidades profissionais, de contribuir para uma vida digna em sociedade e o direito à defesa perante a justiça. Portugal distingue-se quer pela ênfase que põe na abolição da pena de morte, como defende a responsabilização e condenação de todos quantos cometam violações e abusos de direitos humanos em qualquer conflito, por exemplo, na Síria (cf. Silva, 2016:19).
Em 25 de abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas (MFA) desfraldou o estandarte da utopia e da liberdade. Ermelinda Duarte escreveu o poema “Somos
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V. Espécies de Interpretação pelo resultado: Interpretação Declarativa, Extensiva, Restritiva Enunciativa e Abrogante (Mendes, 1984: 252).
Livres”. Na época é entoado em todas as estações de rádio e na televisão portuguesa. Torna-se no hino da jovem democracia e o emblema da liberdade. (v. Anexo II: 135) 67
As possibilidades de utopias são possíveis em todas as formas de poder. Há cinquenta anos o idioma de poder era o francês, hoje, domina a língua britânica. Manuel Ferreira Patrício defende o falar e escrever em português como entidade linguística de substância científica, como instrumento de poder, incluindo o político. Sendo assim, é importante repensar o papel a desempenhar pela Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), na defesa da Pátria de Fernando Pessoa como hipótese de estratégia cultural e política (cf. Patrício, 2013: 33 – 35):
As nossas crianças já estão a aprender inglês na escola básica, suponho que a partir do pré-escolar. Não vejo que isso seja compensado com um reforço do ensino e aprendizagem do português.
O suicídio pátrio começa cedo (Idem: 35).
A liberdade e a utopia continuam a ser temáticas eleitas na atualidade e são legítimas aspirações da raça humana. Numa iniciativa inédita, Marcelo Rebelo de Sousa, atual Presidente da República juntou, na Mesquita em Lisboa, 17 confissões religiosas no dia da sua tomada de posse. Deste modo, o chefe de Estado português pretende destacar a importância da liberdade religiosa (Pena, 2016: 1-9). Na mesma cerimónia, Paulo de Carvalho canta a canção que serviu de senha ao 25 de abril, “E depois do Adeus” (Marcelino, 2016: 10-11). Estas iniciativas podem representar a esperança e o sonho por uma sociedade mais justa, mais humana, logo, menos distópica68.
67 “Ermelinda Duarte: História da Gaivota”. In https://www.publico.pt/noticias/jornal/ermelinda-duarte- historia-da-gaivota-169732 (publicado em 22 de abril de 2002 e consultado em 29 de fevereiro de 2016);
68 “
Veio uma tropa fandanga, uma malta de arruaceiros bem armados, muito bebidos, entraram pela casa à força e espancaram toda a gente. O comandante quis saber como se chamava a velha. Ela disse- lhe, Esperança Job Sapalalo, patrão, e ele riu-se. Troçou, a Esperança é a última a morrer. Alinharam o dirigente e a família no quintal da casa e fuzilaram-nos. Quando chegou a vez da Velha Esperança não havia mais balas. O que te salvou, gritou-lhe o comandante, foi a logística. O nosso problema há-de ser sempre a logística. Depois mandou-a embora. Agora ela julga-se imune à morte. Talvez seja” (Agualusa, 2016: 21-22).