Embora no século passado, a obra machadiana se revela sempre atual, visto que a problemática apresentada pelo autor tem sentido universal: são os eternos problemas humanos que Machado, em sua visão aquilina, analisa de maneira pro- funda e pungente. “E vão assim as cousas humanas!” – exclama ele no cap. XI.
As cousas humanas de qualquer época, porque as verdades patéticas e pungentes que envolvem a espécie humana não envelhecem. Talvez envileçam. Os séculos correm e é sempre a mesma loucura, numa repetição cada vez mais acele- rada e alucinante.
Não será a Psiquiatra ou a Psicanálise moderna uma réplica da Ciência do Dr. Bacamarte? Será que a Casa Verde caberia os loucos do mundo atual? Itaguaí, sem dúvida, é apenas uma metonímia.
E o barbeiro? Não encarnaria ele as pretensões políticas de tantos regimes que alastram pelo mundo, sobretudo na nossa malfadada América Latina? Há tantos exemplos de governos que sobem e descem como o barbeiro…
Como se vê, O alienista é de uma flagrante atualidade. Mas não é a reali- dade brasileira ou fluminense. Já afirmamos que Itaguaí é apenas uma metonímia: na verdade, o fenômeno é universal – o que parecia “uma ilha” era, na verdade, “um continente”, como começava a suspeitar o Dr. Bacamarte.
Dois aspectos são ponderáveis em O Alienista, colocados, na visão ma- chadiana, satiricamente:
1) A sátira mais clara é ao cientificismo da época, configurada no Dr. Si- mão Bacamarte, como já apresentado. Sob o despotismo cientificista do Dr. Bacamarte, a população de Itaguaí ia capitulando impiedosamente. Em nome da Ciência, “quatro quintos da população estavam aposentados na Casa Verde” (ASSIS, 1967: 222). Implantou-se o terror na cidadezinha. “Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doudo” (ASSIS, 1967: 202).
A Casa Verde chegou a ser considerada “um cárcere privado” por um mé- dico sem clínica, dadas as excentricidades cientificistas do Dr. Bacamarte. A situação chegou a tal ponto, que, liderada pelo barbeiro, eclodiu uma rebelião em Itaguaí. A Casa Verde se tornara a “Bastilha da razão humana.” Era preciso destruí-la. Era pre- ciso destruir o Dr. Bacamarte.
“— Morra o Dr. Bacamarte! Morra o tirano!” (ASSIS, 1967: 207). “— Abaixo a Casa Verde!” (ASSIS, 1967: 208).
Os ânimos se serenaram quando o Dr. Bacamarte “recolheu à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguém mais tinha o
direito de resistir-lhe, menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à Ciência” (ASSIS, 1967: 221).
Mas o inesperado haveria de acontecer nas experiências científicas do Dr. Bacamarte: revendo sua teoria a respeito da loucura, o doutor chegou a conclusão sensata (quase toda a população de Itaguaí estava encerrada na Casa Verde) de que tinha que “admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto” (AS- SIS, 1967: 222). Quer dizer, seria considerado louco agora todo aquele que manifes- tasse, “perfeito equilíbrio das faculdades mentais”: num mundo de mentecaptos “louco” seria quem manifestasse alguma virtude, “um cérebro bem organizado”.
Mais uma vez em nome da Ciência, o Dr. Bacamarte procedeu à nova caça cientificista: o padre Lemos, um juiz-de-fora, um vereador honesto, um antigo rival que manifestou “retidão de sentimentos, boa-fé, respeito humano e generosidade” (ASSIS, 1967: 226) a mulher do boticário que revelara alguma “beleza moral”, e mais alguns espécimes raros que viviam em Itaguaí.
Colhido o material, o doutor procedeu à análise dos exemplares e ao paci- ente trabalho da cura dos pacientes: “cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo” (ASSIS, 1967: 231). Nenhuma virtude dos “equilibrados morais ou mentais” conseguia resistir às provas a que os submetia o Dr. Bacamarte.
A todos, o alienista ia restituindo a liberdade, depois de demonstrar “o per- feito desequilíbrio do cérebro” (ASSIS, 1967: 233) de cada um deles. Todos voltavam à louca e alucinante vida normal de cada dia! Será que “não havia loucos em Itaguaí?” “Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado?” (ASSIS, 1967: 233). O Dr. Ba- camarte ia chegando a essas conclusões. O trabalho da Ciência tinha sido em vão. A Ciência não conseguiu alterar a rota alucinante da Humanidade!
E, entre alegre e triste, o Dr. Bacamarte chegou à conclusão de que o único “cérebro bem organizado” em Itaguaí era o dele. Submetido à prova, o doutor se re- velou como o único possuidor de “um perfeito equilíbrio das faculdades mentais e morais”. Estava comprovado: O Dr. Bacamarte era o único louco de Itaguaí. E, “com os olhos acesos de convicção científica”, o Dr. Simão Bacamarte, o mais ilustre dos sábios dessas paragens, recolheu-se, solenemente à Casa Verde: era uma exigência da Ciência.
Por trás da sátira machadiana, escondem-se os eternos e pungentes dra- mas humanos: é o homem em sua caminhada pela vida à fora, numa corrida louca e insensata. “Mais do que uma história, diz Massaud Moisés, O alienista é uma inter- pretação condensada na angústia do homem em face de sua condição de alienado na terra onde vive e sua prisão apenas desfeita pela morte ou pela loucura impiedosa. É o problema do homem de sempre em face das mesmas interrogações; que é certo, que não é? A verdade? Quem está isento? Que vale, que não vale?” (ASSIS, 1967: 174).
No gesto derradeiro do Dr. Bacamarte, mais uma ironia profunda de Ma- chado de Assis: num mundo de mentecaptos e alienados, só os lúcidos (os que têm perfeito equilíbrio mental e moral) são os verdadeiros loucos!
2) A segunda sátira machadiana é de caráter político e se concentra na figura do barbeiro Porfírio que, efemeramente, se tornou “o protetor da vila (de Itaguaí) em nome de Sua Majestade e do povo”. Seu objetivo era “libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte” (AS- SIS, 1967: 213). Seu reinado, entretanto, dura pouco, sendo deposto por outro barbeiro, numa manobra rápida e fulminante.
A maneira como Machado de Assis narra os fatos é bastante humorística dentro do contexto da obra.
O episódio de Itaguaí não desmente as nossas tradições políticas e revo- lucionárias. Nem mesmo desmente as tradições do povo latino-americano. Percebe- mos, nos dias de hoje, exemplos atuais: quase que diariamente se vê governo que cai e outro que sobe nos países latino-americanos.
Lamentavelmente, muitas vezes, o poder cai nas mãos de gananciosos, pessoas desprovidas de civilidade e virtudes, como esse barbeiro do conto, que pouca coisa entende além da navalha e da barba. Levados pela ambição do poder e pelas circunstâncias do momento se elegem como ditadores vitalícios em defesa dos ideais democráticos e da ordem, em manobras rápidas e fulminantes.
Mais uma vez, a visão profética de Machado de Assis sobre a espécie hu- mana se revela válida e sempre atual. O fenômeno, igualmente, não é brasileiro, nem mesmo latino-americano. O fenômeno é, sem dúvida, universal, percebido e compre- endido na cidade de Itaguaí.