O fim da utilização da água é o que vai determinar o nível do seu tratamento, sendo certo que quanto mais nobre o uso a dar à mesma, maior será o nível desse tratamento.
Group Raindrops (1995) distinguiu o uso da água pluvial nas regiões não industrializadas em quatro grupos, preconizando os tratamentos a serem aplicados (Tabela 2.4).
Tabela 2.4- Diferentes qualidades de água para diferentes aplicações (adaptado de Group Raindrops, 1995)
Uso requerido pela água: Tratamento necessário: Irrigação de jardins Nenhum tratamento Prevenção de incêndio
Condicionamento de ar
Cuidados para manter o equipamento de estocagem e distribuição em condições de uso
Fontes e lagoas, descargas de autoclismos, lavagem de roupas e lavagem de carros.
Tratamento rigoroso, devido ao possível contato do corpo humano com a água.
Piscina/banho, consumo humano e no preparo de alimentos.
Desinfeção, para a água ser consumida direta ou indiretamente.
2.7.2. Recomendações
Os métodos para preservar ou melhorar a qualidade da água pluvial num SAAP incluem o projeto adequado, a sua correta operação e manutenção e o seu tratamento. O projeto deve prever:
Uma área de recolha limpa e impermeável de materiais não tóxicos, devendo, ainda,
haver o cuidado de evitar proximidade de árvores sobre aquela;
Tubagens de saída de água dos reservatórios salvaguardando uma distância mínima de 5
cm acima do fundo destes, para evitar os detritos que se possam acumular;
O fundo do reservatório deve contemplar uma inclinação em direção a uma depressão e
local de acesso que permita a sua inspeção, manutenção e limpeza;
As entradas de água devem estar dotadas de um sistema de filtragem para impedir a
entrada de corpos estranhos no reservatório. Este último deve ser coberto e totalmente protegido da luz para prevenir o crescimento de algas;
Um sistema de filtragem e/ou dispositivo de “primeira lavagem”, com o objetivo de
eliminar detritos e folhas, antes do armazenamento da água.
A especificação técnica ETA 0701 consigna cuidados a ter no controlo e uso da água pluvial, tais como:
Controlo da qualidade da água no reservatório com uma periodicidade máxima de 6
meses.
Efetuar correções de pH da água sempre que esta seja superior a 8,5 ou inferior a 6,5.
Efetuar tratamentos suplementares (como, por exemplo, floculação, desinfeção, etc.)
sempre que a área de superfície de recolha se localize em zonas mais poluídas.
Todo o tratamento ou desinfeção da água pluvial deve ser concretizado a jusante do
sistema de bombagem, ou seja, antes da entrada da água pluvial na rede não potável.
A utilização da água pluvial na rega e lavagem não implica qualquer tratamento
complementar desde que observadas as prescrições técnicas de instalação respetivas. Enquanto a utilização de água pluvial sem tratamento em descargas de sanitários, apenas deve ser admitida quando a água respeite, no mínimo, as normas de qualidade de águas balneares, nos termos da legislação nacional e das Diretivas europeias aplicáveis (DL n.º 236/98, de 1/8, que transpõe a Diretiva n.º 76/160/CEE, do Conselho, de 8/12), sob pena
adequado.
2.8. Constituição de SAAP
2.8.1. Descrição geral
Os SAAP são constituídos por componentes básicos (Santos, 2011; Magalhães, 2013):
Superfície de Captação/Recolha: compreende a área de receção da chuva (normalmente
telhado da habitação);
Sistema de Transporte: integra todos os componentes que direcionam a água captada para
o tanque (algerozes ou caleiras e os tubos de queda);
Dispositivos de Filtragem: desempenham a função de remoção de detritos e poeiras da
água captada antes de chegar ao tanque (dispositivo first-flush e os dispositivos de filtração);
Dispositivos de Armazenamento: os reservatórios de armazenamento;
Tratamento: cujo objetivo é a remoção de sólidos para usos não potáveis e essencial para
sistemas potáveis;
Rede de Distribuição: reporta-se ao sistema de transporte da água pluvial para o seu uso
final (por bombagem ou gravidade).
Na Figura 2.6 apresenta-se um esquema típico onde se identificam os principais componentes de um SAAP.
(b)
Figura 2.6 – (a) Esquema base de um SAAP. Disponível em
http://www.cidadessustentaveis.org.br/boas-praticas/sistema-de-aproveitamento-de-agua- de-chuva-em-florianopolis-reduz-o-consumo-e-ajuda-da (consultado em Janeiro 2014). (b)
Isometria do esquema base de um SAAP. Disponível em http://www. http://modaetica.com.br/com-que-roupa-lavada-e-passada-eu-vou/ (consultado em
Dezembro 2014).
Os equipamentos que constituem os SAAP podem ser projetados, desenvolvidos e montados de raiz paralelamente à construção do edifício, ou serem instalados em habitações ou edifícios já construídos, havendo diversas soluções técnicas para a sua instalação.
2.8.2. Sistema de recolha/captação
Os telhados e terraços são as superfícies preferenciais para a recolha da água pluvial nos edifícios, dadas as suas características impermeáveis e menor contaminabilidade. A qualidade da água recolhida em tais superfícies dependerá da qualidade dos materiais usados na sua construção.
Ao longo do processo de captação é habitual ocorrer algumas perdas resultantes da ação da evaporação, arrastamento pelo vento e fugas no percurso, motivo pelo qual se torna necessário introduzir o conceito de coeficiente de escoamento. Este coeficiente será fornecido em função do tipo de superfície de recolha e representará o quociente entre o volume total de escoamento
recomendável selecionar revestimentos com um coeficiente de escoamento mais elevado em detrimento dos que absorvem mais água, com o propósito de reduzir as perdas.
Tabela 2.5 - Valores dos coeficientes de escoamento (ANQIP - ETA 0701, 2009)
Tipo de cobertura Coeficiente de escoamento Coberturas impermeáveis (telha, cimento, asfalto, etc.) 0,80
Coberturas planas com gravilha 0,60 Coberturas verdes extensivas (pouco porosas) 0,50 Coberturas verdes intensivas (muito porosas) 0,30
A área de recolha de água de um edifício é dada, normalmente, pela área de implantação deste.
2.8.3. Sistema de transporte
Uma vez recolhida a água é direcionada para o reservatório através dos componentes de condução: caleiras e tubos de queda (constituídos em PVC, alumínio ou aço galvanizado), sendo que deverão estar dotados de mecanismos de filtragem grosseiros para impedir a passagem de detritos de maiores dimensões. As caleiras, por exemplo, poderão ser dotadas de malhas de plástico ou de metal em toda a sua extensão (Figura 2.7). No que se reporta as partículas menores, elas serão retidas posteriormente pelos dispositivos de filtragem do sistema.
Figura 2.7 – Representação da malha de plástico ou metal para proteção. Disponível em Bertolo (2006) / (consultado em Janeiro 2014)
Na composição de todos os elementos do sistema deve evitar-se a utilização de chumbo ou outras substâncias que possam contaminar a água a armazenar.