3.3. Subjects of verb phrases with can
3.4.2 Some notes on can with perception verbs
A escola denominada “Ecologia Urbana” procurava vincular a organização social à disposição espacial. A forma do meio ambiente construído seria uma
“manifestação física de processos de organização social” e a disposição dos assentamentos urbanos sintetizaria a acomodação da organização social ao meio ambiente físico (cidades como órgãos do organismo social). Essa analogia biológica, desenvolvida a partir dos estudos da denominada Escola de Chicago15, passou a nutrir estudos econômicos, geográficos e sociológicos sobre o espaço (GOTTDIENER, 1997, pp.35-37).
A ecologia urbana girou em torno de duas fases, anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial.
Na fase pré-Segunda Guerra, os pensadores entendiam que a cidade crescia em torno de um núcleo central, que concentraria todos os elementos de diferenciação de funções metropolitanas. A descentralização e o conseqüente desenvolvimento das áreas contíguas ocorreriam por um processo de desdobramento de zonas funcionais, que passariam a circundar o núcleo central. O crescimento seria uma resposta à necessidade de expansão e ao crescimento populacional, para fora e por meio da sucessão/invasão de áreas periféricas. Esse crescimento demográfico, aliado à possibilidade de locomoção proporcionada pela introdução do automóvel, levaria a uma maior competição econômica e funcional, por conseguinte, competição por espaço. Como resultado, surge uma organização social mais complexa com a conseqüente expansão da área da metrópole.
O quadro final desse processo seria representado por um “centro industrial, comercial, administrativo especializado” (funções de nível mais elevado), que seria circundado por uma zona de transição, e, a seguir, por uma zona externa com funções residenciais especializadas e centros locais de atividade econômica (GOTTDIENER, 1997, pp. 236, 237).
Para a primeira Escola de Chicago, desse modo, o espaço era o resultado da competição econômica e da seleção funcional. Por meio de um processo biológico de “invasão”, “competição”, “sucessão” e “acomodação”, as populações disputavam as melhores localizações, a partir de uma divisão econômica do trabalho. Essa teoria passou, desse modo, a explicar as formas de localização de grupos étnicos diferentes ou
15 Corrente de pensamento sociológico desenvolvido na Universidade de Chicago/EUA, que promoveu
uma das primeiras contribuições aos estudos dos centros urbanos e do crescimento metropolitano ao defenderem “um claro entendimento de que a pesquisa concreta da cidade revelaria a ação organizada de princípios formais de comportamento humano”. Os padrões espaciais deveriam ser explicados pela “natureza humana”. Seus principais teóricos foram Robert E. Park, Ernest W. Burgess, Roderick D Mackenzie (primeira escola) e Amos Hawley (segunda).
de funções econômicas distintas, como se movimentavam na cidade e (re) produziam seus espaços.
O centro da cidade, como resultado de sua posição geográfica, dominava a competição desencadeada em torno dele. O aumento de população provocaria uma divisão do trabalho mais especializada e uma nova competição, resultando em descentralização (uma analogia para o ciclo “invasão-sucessão” da Biologia). As funções perdedoras no centro dispersavam-se para a periferia e assim a cidade crescia de dentro para fora, onde o centro concentraria os preços mais competitivos e estaria circundado por anéis concêntricos (GOTTDIENER, 1997, pp. 40, 41).
Embora houvesse diferenciação funcional, as partes gozavam de integração e ajuste. A atuação impessoal do mercado, segundo a teoria, classificaria os indivíduos por localização, de acordo com suas preferências e também por sua capacidade de pagarem pelas melhores localizações. Se as periferias das cidades crescem por competição espacial seria justo pensar que o centro também cresceria, a partir da incorporação de usos mais dinâmicos e intensos da terra, o que provocaria a reestruturação dos espaços centrais das cidades. Desse modo, a produção dos espaços aconteceria sem conflitos, de forma espontânea.
Uma importante crítica, entretanto, veio da própria Escola de Chicago, no pós-guerra. Novas propostas passaram a defender que a diferenciação sócio-espacial e a mudança na forma urbana derivariam de dois fatores: do crescimento populacional e do desenvolvimento de tecnologias de transporte e comunicação. O transporte e as comunicações explicariam a desconcentração populacional, ao facilitarem a comunicação e os deslocamentos (GOTTDIENER, 1997, p. 49).
A descentralização industrial, nesse contexto, estaria ligada a mudanças tecnológicas que influenciariam a tal modo o processo de produção industrial que facilitariam a localização de atividades para fora dos lugares centrais. Estes funcionam como base econômica e no entorno deles se aglomerariam as demais atividades urbanas.
Fundamentados no papel desempenhado pelo centro, surgiram modelos econômicos que associavam as decisões por localização residencial e comercial ao custo de transporte, em que os tomadores de decisão deveriam optar por preços mais elevados da terra no centro da cidade ou custos elevados de transporte na periferia (GOTTDIENER, 1997, pp. 52 e 59).
Vemos, desse modo, que a segunda fase da ecologia urbana deteve-se sobre a argumentação de que a sociedade cresceu e se tornou complexa, assumindo uma
forma urbana peculiar, motivada por inovações tecnológicas – transporte e comunicação. Essa tecnologia permitiu que a sociedade migrasse e se integrasse em áreas espalhadas, distantes e cada vez maiores, porém coordenadas com seu núcleo central. Desse modo, a desconcentração passou a acontecer por meio de ferrovias, depois foi facilitada pelas rodovias, considerando que o automóvel permitiu que a habitação se separasse dos locais de trabalho e de compras, o que levou a cidade a um grande diferencial espacial em termos de funções econômicas e culturais. Esse fato provocou segregação sócio-espacial entre aqueles que permaneceram mais próximos ao centro e aqueles que se deslocaram para os subúrbios (GOTTDIENER, 1997, pp. 238 e 239).
As conclusões dos pesquisadores da “ecologia urbana”, portanto, permaneciam vinculados a fatores deterministas, sem vinculação direta com fatores estruturais, com a economia ou com a ação de agentes interessados na dinâmica urbana, muito embora as explicações já passassem a incorporar fatores tecnológicos na análise em superação à competição biológica por espaço.
A partir da segunda guerra, houve uma mudança no perfil social das famílias que ocuparam o centro das cidades. Segundo a análise convencional, esse fato se deu em virtude de características da demanda, ou seja, do “exercício da preferência” exercido pelas famílias que resolveram migrar-se para os subúrbios. Portanto, essa tese não discutia as pressões sofridas por populações que se deslocaram espacialmente, motivadas por políticas de governo, reestruturações espaciais promovidas pelo setor produtivo, relocalização de empregos, valorização imobiliária, etc. (GOTTDIENER, 1997, p. 240).
Tratar os padrões espaciais (dispersão) como produto das decisões dos proprietários sobre localização impõe a idéia de que as transformações sócio-espaciais experimentadas pelas cidades são naturais, ou seja, uma representação material de preferências sociais.
A explicação para o esvaziamento de áreas centrais, segundo os ecologistas, se centraria, do mesmo modo, na perda de atratividade e no surgimento de deseconomias de aglomeração que as tornaram menos atrativas para consumidores e produtores em comparação às áreas suburbanas em desenvolvimento.
Portanto, para ambas as fases da corrente de pensamento denominadas de ecologia urbana, o modelo de crescimento experimentado (pautado por desigualdades
sócio-espaciais) seria inevitável e até natural, de maneira que intervenções corretivas não seriam bem vindas.
Os estudos ecológicos pautaram-se na distribuição espacial, sobretudo na descrição das diferenciações espaciais. Por outro lado, não explicavam como padrões sócio-espaciais marcados pela desigualdade eram produzidos por forças sistêmicas na sociedade, ou seja, a relação entre a produção de injustiças sociais e suas manifestações espaciais (GOTTDIENER, 1997, p. 23).
Para os ecologistas, ainda, a cidade monocêntrica é sucedida pelo espaço policêntrico em virtude de terem as cidades antigas se tornado ultrapassadas do ponto de vista tecnológico, o que resultou na perda de importância para os investimentos. Desse modo, uma forma espacial substitui a outra e se sucedem seguindo uma analogia com a biologia darwiniana. O “darwinismo social”, resultado da associação de análises sócio- espaciais com mecanismos biológicos, resultou por afastar da interpretação as forças sociais que contribuem para a produção e reprodução do espaço - a divisão do trabalho, a acumulação de riqueza, a atuação do mercado imobiliário e do planejamento urbano estatal, etc. (GOTTDIENER, 1997, pp. 238 e 266).
Se para a ecologia urbana, a desconcentração16 e as transformações intra- urbanas ocorreriam em virtude de inovações nos meios de transporte e comunicação (determinismo tecnológico), a economia política marxista centra sua análise no modo de produção capitalista, no conflito e na apropriação da mais-valia para superar a “ideologia ecológica”. Para os marxistas, o crescimento urbano pode ser explicado pela necessidade de expansão capitalista e sua conseqüente busca de acumulação de capital, não sendo admissível, desse modo, o caráter de inevitabilidade dos padrões espaciais desiguais, derivado da análise anterior.