O conceito de Ideologia desvenda como os valores liberais penetram no conjunto do tecido social. Assim como a teoria democrática e as noções de esquerda, porém, o conceito repousa na incerteza de significados, o que dificulta a sua compreensão. Além disso, a diversidade de interpretações se traduz em divergências. Conforme Giddens, “if are such things as contested concepts, and if there were a prize for the most contested concept, the concept of ideology would very nearly rank first” (GIDDENS, 1991, p.21). Eagleton (1997) lista pelo menos 16 concepções diferentes para o termo e deixa claro que a sua lista não abarca a totalidade de suas acepções. Essa variedade ocorre, em grande medida, porque o seu uso foi sendo adotado por interesses políticos e discursivos nos múltiplos espaços de
comunicação existentes na sociedade atual. Assim, o termo não se restringe apenas ao uso acadêmico – principalmente nas ciências sociais e na filosofia – mas também é recorrente no senso comum por meio dos discursos políticos, dos meios de comunicação e, conseqüentemente, das discussões cotidianas. A popularização do termo foi seguida, ainda, pelo aprofundamento de sua conotação negativa, como afirma Bourdieu, “descrever uma afirmação como ideológica é, muitas vezes, um insulto, de modo que essa própria designação torna-se um instrumento de dominação simbólica” (BOURDIEU e EAGLETON, 1996, p.266).
A noção de ideologia possui duas vertentes principais, uma política e a outra
epistemológica (EAGLETON, 1997). A noção política remonta a desconfiança entre
adversários (MANNHEIM, 1956, p.56). Não se trata de uma situação interpretada como mentira, mas de uma conduta que causa estranhamento ao olhar do outro, podendo ser interpretada como um equívoco que desperta alguma suspeita. Essa perspectiva, conforme Mannheim (1956), é descrita primeiramente por Maquiavel, que apesar de não utilizar o termo ideologia, afirma que “o pensamento do palácio é uma coisa e outra bem diversa o da praça pública” (MANNHEIM, 1956, p.58). Desta forma, ressalta que existiriam diferenças entre o pensamento dos senhores e dos servos, motivadas por suas distintas posições sociais. Essas diferenças, por sua vez, tornam seus objetivos e práticas políticas distintas e, por vezes, incompreensíveis ou estranhas aos membros do grupo oposto.
A noção epistemológica, por sua vez, possui raízes ainda mais profundas que chegam às origens da metafísica, com o pensamento platônico73, passando pelo Novum Organum de Francis Bacon e sua concepção sobre os ídolos, que representam as falsas crenças que impediriam o desenvolvimento do conhecimento objetivo. Para Bacon, a ideologia representaria a fonte dos erros da razão humana (MULLINS, 1972). Chega-se, então, ao iluminista francês Destutt de Tracy que cria o termo ideologia (KONDER, 2002).
De Tracy apresenta o termo em 1801 para designar a sua proposta de uma nova disciplina filosófica, a ciência das idéias. A origem da palavra, portanto, não remonta a um conceito, mas a denominação de um ramo de conhecimento. Conforme Larrain, quando o termo “ideology first appears is very much concerned with the polarity of subject and object” (1979, p.37), que marca a discussão suscitada pela redução da realidade aos fenômenos
73 Como afirma Konder (2002, p.15), em seu Mito da Caverna, “Platão já advertia seus contemporâneos de que podiam estar enxergando sombras e pensar que estavam vendo seres reais”. Com isso, Platão alerta para a distinção entre a essência de um ser e a sua aparência, o que pode ser considerado uma construção teórica fundamental para a posterior formulação do termo ideologia (no sentido de falsa consciência).
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observáveis, realizada pelo empirismo filosófico. A discussão fundamental era se o ser cognoscente poderia confiar apenas nos sentidos e na experiência para conhecer determinado objeto, debate esse que acompanha a filosofia desde sua origem. A resposta dos então chamados ideólogos, grupo de filósofos que juntamente com De Tracy desenvolveram a ideologia, era uma tentativa de elucidar a relação entre o sujeito e o objeto, ou, dito de outra forma, os ideólogos se preocuparam em compreender e explicitar como a realidade material interfere nas idéias (EAGLETON, 1997).
Devido à tentativa dos ideólogos de intervir no regime político de Napoleão, é que as duas origens do termo vão se entrecruzar. Segundo Konder, “o grupo deu sinais de que desejava ensiná-lo [Napoleão] a dirigir o Estado” (2002, p.22). Napoleão acusará os ideólogos de propagarem idéias falsas sobre a sua política e a seu respeito. Com isso, Napoleão trouxe o termo ao jargão político, tornando-o negativo, pois designaria a tentativa de iludir e criar uma falsa realidade com objetivos políticos latentes.
Mannheim alerta, porém, que “a história do conceito de ideologia, de Napoleão ao marxismo, a despeito das mudanças no conteúdo, conservou o mesmo critério político de realidade” (1956, p.68). Esse critério político se baseia na observação das relações sociais, ou, dito de outra forma, o conceito de ideologia sempre exprime a preocupação com a forma
com que a situação de vida influencia o pensamento (MANNHEIM, 1956).
Em finais do século XIX e, principalmente, no transcorrer do século XX, contudo, o termo passou a ganhar os mais diversos significados e se popularizou, ao mesmo tempo, foi aprofundado e debatido incessantemente. A literatura sobre ideologia passou a dividir o conceito em duas principais correntes conceituais. A primeira, “is called a ‘world-view’, or even a Weltanschauung, by English American writers who believe that there is no exact English equivalent of this German word. This notion of a ‘world-view’ or Weltanschauung or (to give it another name) ‘total ideology’, is not altogether clear” (PLAMENATZ, 1970, p.17). Essa primeira acepção do conceito, denominada, portanto, como ideologia total, ou, como ideologia fraca, nos termos de Stopinno (2003), “designa sistemas de crenças políticas, conjunto de idéias e valores cuja função é a de orientar comportamentos coletivos relativos à ordem pública” (KONDER, 2002, p.10).
A segunda corrente, denominada concepção particular74, forte, negativa ou falsa consciência, considera que ideologia são as idéias e representações deformadas ou disfarçadas da realidade, “cujo verdadeiro reconhecimento contraria interesses” (MANNHEIM, 1956, p.51). Essa acepção está vinculada diretamente ao trabalho de Marx, que a desenvolve, principalmente, em seu livro A Ideologia Alemã, definido a ideologia como falsa consciência. Löwy (1985, p.12) ressalta que “quando Marx, na metade do século XIX, encontra o termo em jornais, revistas e debates, ele está utilizado em seu sentido napoleônico, isto é, considerando ideólogos aqueles metafísicos especuladores, que ignoram a realidade”.
Conforme Mannheim (1956), a concepção política de Napoleão, contradizendo os círculos acadêmicos, não é apenas a que mais influenciou as interpretações posteriores, mas, ao mesmo tempo, aquela que demonstrou maior correção na interpretação da realidade. Se os ideólogos buscavam conciliar a realidade empírica com a formulação das idéias, Napoleão acusou-os de fazerem exatamente o contrário, permanecerem na metafísica tentando inferir e interferir no mundo concreto. Dito de outra forma, era um grupo de filósofos produzindo idéias falsas sobre o mundo (perspectiva de Marx) ou descoladas dos conflitos reais da sociedade (perspectiva de Mannheim).
Dentro das duas perspectivas teóricas se encontram diferentes concepções de ideologia. Eagleton (1997, p.16), sumariza essas concepções da seguinte forma: “de Hegel e Marx a Georg Lukács e alguns pensadores marxistas posteriores – esteve muito preocupada com idéias de verdadeira e falsa cognição, com a ideologia como ilusão, distorção e mistificação; já uma outra tradição do pensamento, menos epistemológica que sociológica, voltou-se mais para a função das idéias na vida social do que para seu caráter real ou irreal”. Ainda, conforme o autor, “é possível definir ideologia de seis maneiras diferentes, com um enfoque progressivamente mais nítido” (EAGLETON, 1997, p.38).
Um primeiro significado, segundo Eagleton (1997), ideologia é considerada de forma semelhante ao conceito mais amplo de cultura, isto é, como o conjunto de práticas sociais, processos simbólicos e de como os indivíduos vivenciam estas práticas e símbolos. Outra definição do termo é ideologia como visão de mundo de um grupo social ou político
74 Se considerarmos a compreensão de Mannheim (1956), em seu livro “Ideologia e Utopia”, a perspectiva particular tem duas características principais, a primeira é a sua origem psicológica, portanto, individual. A segunda é a noção de que ideologia se trata de uma mentira cujo objetivo é enganar o interlocutor. Por isso, o autor afirma que a noção de ideologia como falsa consciência, tal qual a formulada por Marx, não é particular, mas uma fusão entre a perspectiva total e a particular. O detalhe é que parte da literatura sobre ideologia denomina o conceito marxista como particular, principalmente por não conhecerem integralmente a obra de Marx. A questão será debatida mais profundamente adiante.
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relativamente amplo. Um terceiro significado é o de ideologia como “um campo discursivo no qual os poderes sociais que se autopromovem conflitam e colidem acerca de questões centrais para a reprodução do poder social como um todo” (EAGLETON, 1997, p.39). Dito de outra forma, nessa perspectiva, ideologia é um discurso orientado para ação em prol de interesses coletivos contrários ao grupo politicamente dominante. Na quarta perspectiva, ideologia é a utilização, por um grupo dominante, de idéias e valores que garantam a sua posição, legitimando seu poder e gerando cumplicidade dos grupos subordinados. O quinto significado, semelhante aos dois anteriores, contudo, neste os valores que legitimam o grupo no poder são distorções da realidade, enquanto nos significados anteriores a ideologia é neutra. Por fim, o sexto significado, conforme Eagleton (1997), ideologia pode ser considerada como uma falsa consciência, contudo, não advém de uma determinada classe dominante, mas das próprias relações sociais de produção. Segundo o autor, “o exemplo mais célebre de ideologia nesse sentido é (...) a teoria de Marx sobre o fetichismo das mercadorias” (EAGLETON, 1997, p.40).
Além dessa diversidade de concepções, ainda existem composições analíticas que utilizam diferentes tradições do conceito de ideologia em um único constructo teórico ou mesmo, compreendem ideologia como um conjunto de crenças ou sistema de idéias e valores que tornam a vida comunitária possível ao mesmo tempo em que envolvem a noção de falsa consciência.
A análise de Dumont (2000), por exemplo, compreende ideologia como “valores sociais gerais, englobantes, que devem ser distinguidos claramente da simples presença de um traço ou de uma idéia num plano ou noutro da sociedade” (2000, p.15). Por isso o autor compreende a existência de duas principais ideologias, a hierárquica e a igualitária, que regulam o funcionamento das sociedades tradicionais (assim como das orientais) e das sociedades modernas (ocidentais), respectivamente. Assim, conforme a definição apresentada pelo antropólogo, ideologia não é falsa consciência, porém, o próprio autor analisa que nas sociedades igualitárias, a ordem individualista interfere e dificulta a compreensão da origem social das categorias de pensamento. Dito de outra forma, a compreensão de Dumont da ideologia como valores gerais se apresenta também como falsa consciência, uma vez que o individualismo impede que as pessoas percebam que “os homens se criam uns aos outros” (MARX, 1965, p.37) e passem a acreditar que o indivíduo está acima da sociedade e carrega em si a humanidade (DUMONT, 1997; MACPHERSON, 1979).
De certa forma, como será tratado no item 2.4. deste capítulo, para Marx, em A Ideologia Alemã, a formação da ideologia inicia com a universalização dos valores contrários aos valores dos grupos dominantes, que abarcam interesses tanto da futura classe dominante quanto dos grupos que serão dominados. Neste primeiro momento, segundo Marx, não se trata de ideologia, mas da consciência das contradições sociais. Somente com o estabelecimento de uma nova classe dominante, a consciência se torna ideologia (falsa consciência), pois a nova classe dominante necessita legitimar a manutenção de sua posição, escondendo as novas contradições que se estabelecem na sociedade. Para isso, conseguem naturalizar os valores que haviam sido universalizados (LARRAIN, 1979). Embora para Marx ideologia seja a falsa consciência, se, considera-se a ideologia como visão de mundo decorrente da posição social (ou classe), ela está presente na teoria marxista como consciência, durante a necessária universalização dos valores que torna possível a revolução (MARX, 1965). Dito de outra forma, a ideologia total está presente em Marx, porém, é compreendida como consciência.
Frente à diversidade de compreensões a que o conceito de ideologia está submetido, uma tentativa sociológica de por ordem na confusão foi “realizada pelo famoso sociólogo Karl Mannheim em seu livro Ideologia e Utopia, onde procura distinguir os conceitos de ideologia e utopia” (LÖWY, 1985, p.13). O autor compreende dois significados do conceito, a ideologia total e a particular, ambas “retornam ao sujeito seja este individuo ou grupo, tencionando compreender o que ele afirma (...) isso quer dizer que opiniões, afirmações, proposições e sistemas de idéias não são considerados na forma em que se apresentam, mas interpretados à luz da situação de vida de quem as exprime” (MANNHEIM, 1956, p.52).
Por conseguinte, tanto o conceito de ideologia total quanto o conceito de ideologia como falsa consciência, consideram que as idéias são funções de quem as sustenta decorrentes do seu meio e posição social.