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O urbanismo sustentável é uma disciplina que articula múltiplas e complexas variáveis e incorpora uma aproximação sistêmica ao desenho urbano com uma visão integrada e unificada, trazendo, como consequência, a superação da divisão clássica do urbanismo tradicional e seus critérios formais e estilísticos (RUANO, 1999). O urbanismo sustentável busca desenvolver e aplicar ferramentas, modelos, estratégias e tecnologias para auxiliar as cidades no cumprimento de metas e políticas de sustentabilidade de forma integrada. Por meio de uma abordagem sistêmica para o planejamento de comunidades ou bairros, a cidade poderia conseguir um maior nível de sustentabilidade e proteção ambiental. Desse modo, o urbanismo sustentável deve propor novas formas de apropriação do espaço, coerentes com a sinergia e equidade entre as esferas social, ambiental e econômica (SILVA; ROMERO, 2011). Os projetos de urbanismo sustentável obedecem à percepção de escalas, sustentando as funções vitais, restabelecendo o sentido e orientação no tempo-espaço, face à necessária adequação aos habitantes, seus usos e equipamentos. A forma pela qual este modelo deve ser aplicado depende de cada região e suas características físicas (geologia real, topografia e ecologia), culturais e socioeconômicos. A associação de compacidade, diversidade de usos e transporte coletivo forma uma estrutura sistêmica e integrada que deve ser considerada na implantação de distritos urbanos sustentáveis. O estabelecimento de padrões de qualidade ambiental, tradicionalmente representados por normas e legislação, pode ser traduzido na forma de princípios de sustentabilidade aplicados ao desenho urbano (PORTES, 2013). Desde a década de 80, a ideia de "cidade compacta" tem sido favorecida acima de outros padrões de urbanização (horizontal, disperso, suburbano) na definição de políticas públicas. A compacidade promove diversos usos sobrepostos em um tecido urbano denso, facilita a ordenação pela maior regularidade formal e promove o aumento da coesão social, respeitando as condicionantes locais (clima, topografia, patrimônio cultural e ambiental) e regionais e as escalas de apropriação do espaço. A compacidade deve ser adotada como configuração espacial, eliminando-se os vazios urbanos e promovendo a ocupação de áreas subutilizadas. A compacidade e diversidade de usos reduzem as distâncias de deslocamentos entre moradia, trabalho e serviços, desse modo, agem como elemento de incentivo à caminhada e ao ciclismo como meios de deslocamento diário (SILVA; ROMERO, 2011).

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O aumento da densidade diminui o custo relativo de implantação da infraestrutura e de transportes, reduzindo a necessidade de expansão da cidade para áreas periféricas e a consequente destruição do meio ambiente. O transporte público pode ser mais racional e eficiente, o que diminui a demanda por automóveis, libera o tráfego das ruas e reduz a consequente contaminação do ar e poluição sonora. Este modelo de planejamento aprimora a paisagem urbana e o espaço público, ao mesmo tempo que reduz os impactos observados nas cidades difusas (SILVA; ROMERO, 2010). Esta forma urbana compacta e diversa pode ser observada nas cidades europeias em geral, como por exemplo, Barcelona (Figura 4).

Figura 4 – Barcelona como modelo de cidade compacta de alta densidade

Fonte: http://skyscrapercity.com. Acesso em: 28/09/2016

As densidades elevadas associadas ao transporte de alta capacidade favorecem o surgimento de atividades econômicas de comércio e serviços, em função da concentração de pessoas e passageiros, atendendo a comunidades locais e encorajando o pedestrianismo (NOBRE, 2004). Para isso, as residências, transporte público, trabalho e serviços devem se localizar a uma distância “caminhável”, que, segundo o USGBC (2009), “é o percurso médio que a maioria das pessoas consideraria percorrer a pé para realizar suas atividades diárias”. Essa distancia corresponderia a aproximadamente 400 metros ou 5 minutos de caminhada.

Uma densa rede de ruas internas e conexões com o entorno devem propiciar oferta de caminhos possíveis, otimizando os percursos. De acordo com o movimento Novo Urbanismo (CNU, 2010), os trajetos a pé ou de bicicleta devem ser feitos por ruas “amigáveis” ao pedestre, cujos elementos característicos são: edifícios de escala humana, alinhados ao longo da calçada; presença de comércio no térreo; ruas estreitas; calçadas largas; acessibilidade universal; mobiliário urbano e arborização. O conjunto desses elementos propicia um domínio público seguro, convidativo e produtivo, além de visualmente interessante.

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A diversidade de usos é um aspecto integral para a vitalidade urbana, a combinação não se limita a residencial e comercial, mas também deve incluir uma variedade de estabelecimentos. A diversidade de usos em uma mesma área promove a redução dos deslocamentos casa- trabalho-casa e permite a construção de bairros dinâmicos, caracterizados pela presença de atividades durante todo o dia. O uso misto evita que áreas centrais, predominantemente comerciais, fiquem abandonadas à noite e nos fins de semana (NOBRE, 2004).

De acordo com Gehl (2015), os fatores-chave para estimular a vida nas cidades são: rotas diretas, lógicas e compactas; espaços públicos de dimensões compactas; e uma clara hierarquia entre os locais mais importantes. Segundo este conceito, uma cidade dinâmica precisa de alta densidade, grandes concentrações de moradias e locais de trabalho, combinação de espaços públicos convidativos e uma massa crítica de pessoas que queira utilizá-los. Cidades vivas requerem estrutura urbana compacta, densidade populacional, distâncias aceitáveis para serem percorridas a pé (400 m) ou de bicicleta (4 km) e espaço urbano de qualidade, com acessibilidade, mobiliário urbano e paisagismo. Algumas dessas qualidades podem ser observadas no centro de Copenhague, capital da Dinamarca (Figura 5).

Figura 5 – Vivacidade urbana no centro revitalizado de Copenhague

Fonte: http://skyscrapercity.com. Acesso em: 28/09/2016

Tais princípios contrastam fortemente com o planejamento urbano praticado em muitas áreas contemporâneas, onde os planejadores, muitas vezes, constroem espaços públicos genéricos e priorizam o espaço privado. Ruas, bulevares, alamedas, avenidas, passagens, terraços, jardins, pátios, praças, parques e áreas de lazer são distribuídos generosamente nos planos, mas não consideram as sequências naturais, quais são os espaços mais importantes, ou até mesmo se é válido construí-los. Em quase todos os casos, os resultados são áreas em demasia e espaços grandes demais para visitantes de menos (GEHL, 2015).

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A densidade, que representa quantidade, deve ser combinada com a qualidade sob a forma de bons espaços urbanos e infraestrutura eficiente. A implantação de uma “infraestrutura verde” protege os recursos naturais e traz uma série de benefícios. Pode consistir em uma rede de espaços permeáveis e arborizados, conectados por meio de corredores verdes recuperados, além de paisagismo e práticas para redução do escoamento superficial. Componentes urbanos como ruas, estacionamentos, telhados, canais e jardins podem oferecer diversos serviços ecológicos como: coleta e drenagem de águas pluviais (Figura 6); redução do efeito ilha de calor e da temperatura interna dos edifícios; aumento da eficiência energética; renovação e limpeza do ar; filtragem das águas de escoamento superficial; melhoria da saúde e qualidade de vida da população; redução de enchentes; e contenção de deslizamentos (USGBC, 2009).

Figura 6 – Exemplos de sistemas de drenagem com utilização de arborização

Fonte: http://skyscrapercity.com. Acesso em: 28/09/2016

Todas essas estratégias e soluções devem ser unificadas em um plano abrangente que integre compacidade e diversidade, prioridade a meios de transporte não poluentes (veículos elétricos, VLT, metrô, bicicletas, caminhada), criação de áreas verdes, manutenção da permeabilidade do solo, geração de energia local renovável e infraestrutura verde (HERZOG, 2011). Projetos de urbanismo sustentável devem adotar uma abordagem sistêmica, considerando todos os elementos atuantes e a relação entre eles nos impactos no meio ambiente, para aprimorar suas condições, como o impacto negativo que será causado pela sua execução. Neste caso, as cidades brasileiras sofrem pela falta de abordagem técnica e metodológica do espaço urbano, o que resulta em uma visão fragmentada e cartesiana do conjunto formado pela gestão urbana e atores econômicos (PORTES, 2013).

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Um dos desafios atuais para as gestões das grandes cidades brasileiras é a ocupação dos imóveis vagos ou subutilizados localizados em áreas centrais, onde há amplo capital social investido. A tendência atual é a reabilitação de edifícios atualmente abandonados para iniciar um processo de repovoamento destas regiões, por meio da produção de unidades habitacionais, o que gerará possivelmente a readequação do próprio espaço urbano. Portanto, não se trata apenas de programas de reabilitação de edificações, mas também de reabilitação de espaços urbanos. Tais ações almejam a produção de um ambiente urbano com qualidade de vida melhor e mais sustentável (ABIKO, MORAES, 2009).

Segundo os autores, ganha força atualmente o cenário de revitalização das regiões centrais, dotadas de infraestrutura completa, mas abandonadas por seus moradores e muitas vezes invadidas por população de baixa renda, contribuindo para a degradação do ambiente construído. Políticos, urbanistas e empreendedores privados estão se voltando cada vez mais para a requalificação de áreas urbanas subutilizadas que apresentem potencial de desenvolvimento.

A requalificação de áreas subutilizadas ou abandonadas e seu aproveitamento racional para fins de implementos urbanísticos pode promover, em escala local, o desenvolvimento de áreas específicas dentro da cidade, ao mesmo tempo em que evita a busca de novas áreas para expansão, além de maximizar o uso da infraestrutura instalada. Bairros existentes possuem a vantagem adicional de contar com a presença de edifícios históricos8 e eventos com relevância cultural.

Para alcançar a sustentabilidade urbana, um conjunto de princípios poderia aumentar a qualidade de vida ao criar espaços que enriqueçam o ambiente urbano. Para isso, os governos locais devem adotar uma atitude proativa e não passiva, de forma a promover práticas de urbanismo e construção sustentáveis. A busca por soluções para o crescimento dentro do perímetro urbano encontra exemplos de práticas e soluções inovadoras, ao planejar e implantar projetos de urbanismo em diversas escalas com foco em sustentabilidade. Assim, a requalificação urbana de áreas degradadas situadas à beira de corpos d´água, ou waterfronts, apresenta-se como uma oportunidade viável na busca do desenvolvimento urbano sustentável.

8 Jacobs (2011) argumenta que um projeto de requalificação urbana de um bairro histórico degradado deve preservar a identidade e diversidade arquitetônica existente, ao incluir uma mistura de usos e tipologias de construções, cada qual poderá necessitar de projetos diferentes, gerando interesse visual.

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