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Norwegian legislation

In document Strategy on Invasive Alien Species (sider 31-35)

O segundo papel é denominado questionador (ou papel B), e é composto por analistas para quem um dos principais problemas enfrentados ao longo da implementação é a “péssima qualidade dos estudos”, ao tratar dos EIAs produzidos pelos empreendedores que solicitam a licença para uma obra (Entrevista 32) – ver tabela abaixo com os códigos da subcategoria “principais problemas”. Como uma analista contesta: “não tem como tirar leite de pedra (risos). Os estudos são muito fracos, muito ruins, os dados, dá vontade de chorar. Isso não serve para nada, nem para encosto de porta. É muito fraco” (Entrevista 32). Essa má qualidade dos EIA elaborados pelos empreendedores seria resultado da incompreensão das empresas quanto à importância do licenciamento. Para uma analista, um empreendedor:

(...) teria que realmente entender qual o papel do licenciamento mesmo. Não é simplesmente assumir que aqui é uma exigência, ou pensar como peso. Na maioria das vezes, nos seminários organizados por empresas, você ouve o licenciamento ser colocado como estorvo, gargalo, que não contribui. Ele é visto dessa forma por quem deveria... até dentro da instituição tem gente que vê assim. Aí uma coisa está relacionada com a outra, vai alimentando a outra. Deveriam participar do licenciamento de uma forma comprometida, de levar a sério, de entender que o papel daquilo é melhoria a situação do país e que eles deveriam ser uma parte disso. E não colocar o ganho imediato de sua empresa acima de um ganho para a sociedade. (Entrevista 25)

Tabela 19. Códigos centrais das subcategorias “dinâmica interna na coordenação” e “principais problemas” do papel questionador.

Subcategoria B. Questionador

Principais problemas Conflitos internos à coordenação muito grandes; Participação ineficiente e restrita;

Má qualidade das informações dos empreendedores; Dinâmica interna na coordenação Relação com superior – pouco incentivo à pró-atividade;

Discordâncias entre colegas;

Relação com superiores – discordância.

Fonte: elaboração da autora com base em entrevistas qualitativas com analistas de meio ambiente da COTRA e da COHID – DILIC/IBAMA.

Outro problema que todos entrevistados do papel B identificaram como central seria a “participação social ineficiente e limitada”. Eles entendem que a participação da sociedade que deveria ser qualificada e ampla, indo além das instituições já previstas pelo licenciamento, como a audiência pública. Como uma analista descreve: “Acho que a participação tem que ser qualificada, de uma maneira que as pessoas, que as comunidades atingidas pelo empreendimento, que elas tenham domínio e acesso às informações para dominar os processos. Sem informação, como elas vão participar? ” (Entrevista 32).

A participação falha e restrita também é relacionada ao problema dos “conflitos internos” à coordenação. Ao identificarem o processo do licenciamento ambiental como pouco participativo, os analistas do papel B percebem que esse problema é pouco contestado pelos superiores e por colegas que, “na inércia”, não reconheceriam a importância da participação no processo. Com fica claro na fala:

O pessoal tem alergia a participação. Participação social para eles é audiência pública, nos moldes da audiência pública do IBAMA, é só proforma. (...) Eu vejo alguns colegas que parece que ficam na inércia. (...). Com a socioeconomia é extremo, é quase um desprezo até. Com os impactos socioeconômicos. O pensamento que predomina é: “coitado do empreendedor que vai ter que mandar todos os empregados embora, sabe? Tem que dar a licença! ” (Entrevista 32).

Os principais problemas apontados pelos analistas do papel questionador estão relacionados, então, à própria dinâmica interna da coordenação, que é marcada pelo conflito. Os burocratas desse papel sentem “pouco incentivo à pró-atividade” e pouco apoio por parte dos superiores – ver códigos da subcategoria “dinâmica interna à coordenação” na tabela acima. Os analistas que desempenham o papel questionador entendem que a função do analista é prejudicada por parte da chefia. Um dos motivos da discordância seria o pouco reconhecimento de seu esforço para garantir a qualidade das análises, o que exigiria um ritmo mais lento de produção. Eles percebem que sua atuação envolve custos em termos de tempo e conhecimento; ou seja, para fazer uma análise

qualificada para eles, o trabalho dos analistas desempenhando o papel B demoraria mais. Como uma analista aponta: “então tinha essa coisa de eu demorar mais, procurar incorporar, qualificar a análise, estudar, o contexto de cada coisa, e isso toma tempo mesmo, mas eu te garanto que já estava ganhando tempo, eu já estava agilizando meu trabalho” (Entrevista 25). A “avaliação de desempenho com base números, não qualidade”, seria, então, prejudicial – um analista declara, por exemplo: “O resultado foi que eu tive avaliação negativa na avaliação de gratificação, nota de cinquenta por cento em tudo” (Entrevista 22). Esse aspecto fica evidente nas palavras da entrevistada:

O ambiente não é o ambiente propício para você ser uma pessoa que traz esses problemas, sabe? Que chame atenção, que faz alguma coisa mais aprofundada. Todo mundo que faz algo mais aprofundado é sistematicamente desencorajado, ou até punido, assim. A próprio [fulana] quase foi retirada da coordenação porque estava fazendo um trabalho bem intenso na [uma rodovia na Amazônia], e estava muito envolvida. (Entrevista 32)

A tentativa de mudar uma analista de coordenação (como foi dito no trecho acima) é associada à percepção de que a função do analista é não só prejudicada, mas também ameaça por parte da chefia – o sentimento de “insegurança/ameaça” é importante na subcategoria “meio socioeconômico” do papel B, que descrevemos na seção seguinte. Analistas do papel B também relatam situações em que tiveram atenção chamada por superiores e a mudança tácita de equipe, exemplificadas nas falas abaixo:

Daí a gente foi chamada na sala dele, e ele falou que a gente não tinha que se manifestar porque a gente não foi solicitando a se manifestar, entre outras coisas. Falando que se a gente não estivesse gostando do jeito que ele estava coordenando a diretoria, a gente poderia ir embora, coisas assim, sabe? Foi um processo bem traumático, bem crítico aqui dentro. (Entrevista 32) Então tá (sic), duas semanas depois, eu sou daquela equipe, [e a chefe fala] “olha, você não quer passar o que você escreveu para o [fulano]? Ele continua (Entrevista 22).

E a gente é meio podada de fazer. Por exemplo, a gente faz um parecer e indica uma série de medidas, ou de entraves para o empreendimento acontecer. Aí, tipo... O que acontece aqui é que se a equipe não está de acordo com a chefia, eles colocam outras pessoas. (...). (Entrevista 32). As percepções dos servidores do papel B quanto às dinâmicas internas na coordenação são também marcadas pela visão de que há discordâncias entre os colegas. Os analistas que desempenham o questionador tendem a perceber que as funções do licenciamento não são bem cumpridas por seus colegas da coordenação ou pela instituição, o que causaria a omissão, desconsideração ou subestimação de impactos sociais, como narrado abaixo:

Socioeconomia quer dar valor [aos impactos sociais], mas não sabe como fazer. Relação péssima. Causa um impacto social, que simplesmente não tem

histórico, não tem primor, não tem qualidade. As pessoas fazem de qualquer jeito. Só para constar, só para falar que fez. O campeão de produtividade faz relatório assim, três linhas ou repete, escreve de outro jeito, reescreve o que o cara já escreveu. Programa aprovado. (...). Na [uma ferrovia no Goiás], um questionamento que ninguém tinha visto era uma mancha no mato. Tinha uma mancha desse tamanho, não dava para entender o que era. Passei uma tarde procurando documentos para descobrir o que era, porque a equipe não discute impacto social. A área era um pátio para 680 caminhões por dia. Um pátio, estacionamento para 680 caminhões, uma cidadezinha desse tamanho.... Solta 600 machos numa noite numa cidade desse tamanho para ver o que acontece. Não tem, não avalia, não avalia a questão. O dia que o lugar lá virar um bordel, a segurança pública vai ser reforçada? Quem vai fazer isso? (Entrevista 22).

A conjuntura política atual, sobretudo o período em que durou o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, está relacionada à intensificação de conflitos internos no IBAMA e à divisão clara de grupos divergentes dentro da coordenação – como uma entrevistada aponta:

Depois das eleições os grupos se identificaram, (...) viraram a favor do golpe político ou do impeachment e do combate à corrupção. Houve um acirramento dos embates (...) as pessoas falam que tem a COTRA fria, a COTRA quente, a COTRA produtiva, a COTRA improdutiva. Ocidental e oriental... ela é separada, têm uns corredorezinhos (Entrevista 22).

Diante desses problemas centrais, os analistas interpretam que sua atuação requer a habilidade de “defender os direitos atingidos/populações vulneráveis”, e “questionar e ter visão crítica sobre os empreendimentos” dos atores executando a política – ver tabela abaixo. Essas percepções têm a ver com a ideia de que o licenciamento está vinculado aos direitos sociais. Como uma analista aponta, “licenciamento ambiental e direitos humanos é uma coisa (sic) totalmente interligada” (Entrevista 32). A necessidade de visão crítica é importante exatamente em razão dos problemas e da má qualidade dos EIA produzidos pelo empreendedor. Para uma analista, é preciso observar para além do que está escrito, como ela explica:

A gente é treinada para fazer crítica, de ler o texto e ir nos pontos, ver o que está errado, o que eles estão tentando contornar os dados, mascarar, ou tirar conclusão dos dados primários. Essa é uma capacidade que eu tenho, mas outros colegas têm outras capacidades, como seguir os procedimentos que eles mesmo estabeleceram. (Entrevista 32)

Tabela 20. Códigos centrais das categorias e “capacidades demandadas ” do papel questionador.

Subcategoria B. Questionador

Capacidades demandadas Defender direitos de atingidos e populações vulneráveis; Questionar e ter visão crítica sobre os empreendimentos. Fonte: elaboração da autora com base em entrevistas qualitativas com analistas de meio ambiente da COTRA e da COHID – DILIC/IBAMA.

A participação social e a defesa de direitos humanos no licenciamento são vistas pelos atores que desempenham o papel B como ideias que devem ser defendidas dentro do órgão, como contraponto à forma em que o trabalho é desempenhado dentro da coordenação. Nesse sentido, ela assume um valor semelhante à definição de “causa” de Abers (no prelo) ao descrever o conceito de “ativismo institucional”, entendida como um tipo de ideia que tem caráter político e que “precisa ser defendida contra forças poderosas de estabilidade ou mudança” (ibidem). Segundo a autora, a concepção da necessidade de defesa de uma ideia depende da interpretação dos atores, que podem acreditar que suas visões e ideais estão sob ameaça.

Os próprios analistas que exercem o papel B enxergam suas ações para promover a melhoria no processo do LAF como “ativistas” e “subversivas”, pois envolvem um certo tipo de “enfrentamento” por contarem com pouco apoio interno e externo da organização. Como uma analista argumenta:

“Você produz menos, dá muito mais trabalho não ter procedimentos, você gasta mais tempo, se desgasta com o chefe, se desgasta com os colegas. É um negócio infrutífero. Maior satisfação é enfrentando, é vencendo. Então o pessoal que se mantém e tal, pessoal muito engajado, ativista porque quer. Porque tudo pesa contra. Não tem outra área do IBAMA do licenciamento que se iguale em fatores que desmotivem, que elevem o custo do trabalho, da atuação profissional. (...). Se tivesse vontade externa, se tivesse incentivo da gestão, ficaria mais fácil. Mas fazer isso internamente, eles estão num ato subversivo ou um ato de mudança, uma revolução. As pessoas têm que mudar como veem, enfrentar as outras, sem contar com o apoio da gestão ou de movimentos de fora. (Entrevista 22)

A expressão “empurrador de bordas” aparece exatamente quando uma analista descreve sua função de defender uma ideia contra uma tendência da coordenação. Segundo uma analista, “o papel do analista da socioeconomia é empurrar essas bordas, é estar sempre tentando, sabe? Colocar, trazer a participação” (Entrevista 32). Essa função ganharia ainda mais importância em razão da conjuntura política do impeachment de Rousseff, que difundiu a percepção ainda maior de “ameaça” comentada antes, mobilizando ações e práticas pela mudança e melhoria dos processos. Isso fica claro quando uma analista constata:

O ataque ganhou mais força, chegaram com aquele discurso de simplificar o licenciamento, de que havia excessos, especialmente na socioeconomia, e era um discurso que a gente já ouvia sempre, dos empreendedores, mas a gente passou a ouvir cada vez mais dos próprios dirigentes do IBAMA, do MMA, da Presidência, da própria Dilma. Enfim, a gente viu que não dava para ficar parado, quieto, porque a coisa estava avançando, ganhando velocidade (Entrevista 25).

In document Strategy on Invasive Alien Species (sider 31-35)