4 DISCUSSION AND ANALYSIS
4.2 Norway’s International Climate and Forest Initiative (NICFI)
As OES prosseguem objetivos de impacto social na tentativa de colmatar uma falha na sociedade. Preencher a falha é o que guia os indivíduos que se associam a uma causa, constituindo ou apoiando a atividade das OES na prossecução desse interesse e objetivo. O dicionário de termos e conceitos desenvolvido por Smith et al. (2006: 111) define o impacto das OES como “o conjunto de consequências que advém da atividade da OES
nos membros” (impacto interno), “utentes da organização e sociedade em geral”
(impacto externo). Já a eficácia é apresentada como o nível com que se atinge esse impacto, isto é, “o impacto que as partes interessadas pretendem que seja alcançado com
o uso dos recursos e o executar das operações” (Smith et al., 2006: 75). Apesar de as
definições serem claras, a realidade mostra o processo de medição do impacto como complexo e difícil de efetivar pelas organizações (Lecy et al., 2012; Ritchie e Kolodinsky, 2003). Numa revisão de literatura realizada por Lecy et al. (2012), aponta-se a ausência de definições e de identificações de parâmetros básicos do processo de medição de eficácia organizacional como uma das causas para a falta de consenso em torno da avaliação.
Não obstante a dificuldade das OES, a exigência de prestação de contas é uma realidade. Desde logo, esta surge dos doadores-investidores, quem, à luz da teoria da dependência de recursos, controla os recursos de que a organização necessita (Pfeffer e Slancik, 1978). A satisfação dos indivíduos e entidades que financiam as atividades das OES torna-se um foco para a sua direção, pois, quando estes estão numa relação de agenciamento, tornam- se os atores mais importantes para os gestores (Carman, 2011).
Os doadores-investidores das OES desempenham o papel de pagadores dos serviços prestados e bens vendidos pelas organizações, pelo que são atores que exercem grande controlo sobre estas organizações. Segundo Frooman (1999), o controlo exercido pelos doadores-investidores sobre a organização materializa-se em duas dimensões: (i) determinam se a organização obtém os recursos de que precisa e (ii) se a organização
pode usar os recursos da forma que pretende fazê-lo. O consentimento dos doadores- investidores sobre a colocação de recursos à disposição das OES é obtido através do cumprimento de obrigações que emergem desta relação, nomeadamente ao nível processual e organizacional, conforme decorre da teoria institucional. No entanto, a componente de voluntariado que caracteriza a ES, em detrimento do trabalho pago, justificam a adaptação à realidade da ES das premissas em que a teoria institucional assenta (Witesman, 2016). Nesta realidade, a tradicional teoria institucional, na qual assenta a premissa de que as pressões do ambiente levam a que as organizações adotem estruturas e processos de forma a ser percecionada como mais legítimas e bem-sucedidas (Carman, 2011), não encontra aderência na ES no que se refere à proteção legal, restrições e existência de incentivos para esta mão-de-obra.
No quadro dos doadores-investidores empresariais, Martínez (2003) classifica em três tipos a natureza dos interesses destes atores: (i) pressão social sobre as empresas; (ii) objetivos económicos e sociais; e (iii) o investimento comunitário perspetivado enquanto fonte de vantagem competitiva. Assim, as empresas estão motivadas para desenvolver alianças com as OES na medida em que possam aumentar a sua legitimidade e reputação (Oliver, 1990), elevar o seu estatuto social e reconhecimento (Stuart, 2000), ou como uma oportunidade para aprendizagem no campo da responsabilidade social corporativa (RSC) (Arya e Salk, 2006).
A RSC consubstancia-se na integração das necessidades sociais com as necessidades empresariais, o que exige que se esteja preparado para ajustamentos organizacionais, relações de prestação de contas, e incentivos (Porter e Kramer, 2006). Teoricamente, no âmbito das parcerias criadas com as OES, prossegue-se um objetivo de caráter social (Waddock, 1989), pelo que o sucesso destas parcerias tem que ser fundamentado no “valor social gerado pela colaboração” (Austin, 2010: 88). Segundo Porter e Kramer (2006), duas abordagens de RSC podem ser adotadas pelas empresas: RSC reativa ou RSC estratégica. Na abordagem reativa, apenas se exige que a empresa identifique as atividades empregues que causem danos à sociedade e mitigue esses danos. Já a abordagem estratégica é mais exigente, na medida em que as empresas têm que conseguir identificar oportunidades que permitam gerar um impacto positivo na sociedade e na sua capacidade competitiva. A Tabela 5 caracteriza e distingue ambas as RSC reativa (cinzento claro) e estratégica (cinzento escuro).
49 Tabela 5. Caracterização das perspetivas de RSC reativa ou estratégica
Impacto social
genérico Impacto social na cadeia de valor
Dimensões sociais do contexto competitivo
Boa cidadania Mitigar danos causados pelas atividades da cadeia de valor
Filantropia estratégica que alavanca recursos para melhorar áreas relevantes do
contexto competitivo
RSC reativa
Transformar atividades da cadeia de valor para beneficiar a sociedade e ao mesmo tempo
fortalecer a estratégia
RSC estratégica
Fonte: Adaptado de Porter e Kramer (2006: 89)
Os benefícios para a sociedade que se pretendem alcançar com o investimento das empresas em RSC podem demorar longos períodos até se efetivarem. No entanto, as empresas procuram apurar o resultado gerado na sua política de RSC a fim de alcançarem os benefícios na arena competitiva.
Ainda que as OES sintam pressão das empresas que nelas investem no âmbito da sua RSC, as OES demonstram grande resistência às solicitações dos financiadores (Arvidson e Lyon, 2014). Apesar do desconforto interno sentido pelas OES, as empresas continuam a solicitar padrões cada vez mais elevados de prestação de contas e de transparência, através da comunicação de informação financeira e social que estabelecem com as partes interessadas (Waters, 2008).
A par desta pressão dos doadores-investidores na área do reporte de avaliação por parte das OES, a procura por legitimidade junto das partes interessadas externas obriga as OES a adotar uma postura institucional, no sentido de adotar estruturas, processos e regulamentação (Carman, 2011). Consequentemente, apesar da conceptualização da ES levar a um entendimento da teoria institucional assente nas suas características de voluntariado e clientes/beneficiários (Witesman, 2016), “as solicitações do governo e dos
doadores levam as OES a adotar os métodos e valores do mercado” (Eikenberry e Kluver,
2004: 133).
De facto, os doadores-investidores têm-se pautado por um princípio de monitorização e fiscalização, sendo a Donor Bill of Rights (AFP et al., 1993) exemplo dessa postura. Segundo esta carta de direitos dos doadores, as OES devem divulgar informação sobre a
forma como as doações vão ser aplicadas, bem como demonstrar a capacidade da organização em atingir os OISA. O grau de cumprimento da missão das OES é, segundo o estudo de caso conduzido junto do Corpo Nacional de Escutas Português, o principal critério de avaliação de desempenho apontado pelas partes interessadas (Francisco, 2012). Neste estudo, o impacto de médio/longo prazo é identificado como um dos principais critérios de avaliação utilizado pelas partes interessadas destas OES.
O interesse é garantir que a resposta social seja efetiva e que o dinheiro público é empregue de forma eficiente e eficaz. Assim, os serviços prestados pelas OES, nomeadamente, no âmbito de lares, apoio domiciliário, creches, estejam sujeitos a relatórios de avaliação de desempenho e auditorias recorrentes por parte do ISS. Para estas e restantes OES, o Regime de Normalização Contabilística para as OES (Decreto- Lei 36-A/2011, de 9 de março) guia as exigências colocadas às OES que vão ao encontro das necessidades de informação das suas partes interessadas. Por um lado, define-se como materiais as omissões ou declarações incorretas que possam, “individual ou
coletivamente, influenciar as decisões económicas dos utentes, tomadas com base nas demonstrações financeiras” (Anexo II do Regime de Normalização Contabilísticas para
as OES). Por outro, é dada liberdade para a reformulação do modo de “apresentação das
demonstrações financeiras sempre que tal alteração proporcione informação fiável e mais relevante para os utentes das demonstrações financeiras” (Anexo II do Regime de
Normalização Contabilísticas para as OES).
A importância que os Estados colocam na medição do impacto da ES é cada vez mais evidente. Por exemplo, o investimento que a União Europeia tem dedicado ao projeto comunitário “Third Setor Impact 2014-2019” reflete a pertinência e da urgência na criação de consenso sobre as matérias da ES, nomeadamente no que respeita à sua avaliação.
Além do investimento em projetos de investigação, os Estados apostam na legislação enquanto meio de obrigar as OES a prestar contas. Destes são exemplo as obrigações que as OES de cariz social (charities), a atuar em Inglaterra e País de Gales, passaram a ter. Estas OES obrigam-se a reportar, à Charity Comission, em que medida estão a entregar o benefício público relacionado com a sua missão (Morgan, 2013).
As OES revelam a procura por evidências dos objetivos alcançados, tanto por parte das entidades que atualmente disponibilizam recursos à organização, mas também para atrair
51 a atenção de potenciais doadores-investidores (Arvidson e Lyon, 2014). Esta pressão já começa a ser sentida pelas OES, sendo uma realidade a necessidade de realizar esforços de avaliação de forma a responder aos requisitos de financiamento cada vez mais rigorosos (Thayer e Fine, 2001).
A literatura alia as preocupações de reporte aos investidores-doadores com a política de comunicação das OES, enquanto estratégia de comunicação com estas partes interessadas. Com base em estudos de caso desenvolvidos em OES canadianas, Wooding (2014) identifica três estratégias na gestão da relação com os investidores-doadores que as OES devem considerar:
Fazer o levantamento dos requisitos de comunicação dos doadores-investidores e deixá-los claramente definidos com os doadores-investidores antes de avançar com o projeto;
Cultivar a satisfação dos doadores através de uma comunicação efetiva e garantindo o seu comprometimento com a missão da organização;
Apostar em práticas de relações públicas que se alinhem com as crenças de negócio e a estratégia de construção da reputação corporativa, tanto do doador- investidor como da própria organização.
As estratégias identificadas focam-se na satisfação dos doadores-investidores, podendo- se afirmar que estes moldam o formato de reportes e critérios de avaliação de desempenho. Daí que, muitas vezes, a visão e interesse dos clientes e beneficiários não seja tida em conta na formulação do formato e critérios de avaliação (Ahmed, 2014).