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No período em que as manifestações artísticas e culturais se levantaram defrontando as práticas incubadoras de uniformidades advindas da abstemia (entre as décadas de 1950 e 1970, como o beatnik e o hippie), poucos foram tão à frente disso quanto o punk (HOME, 1999). A perspectiva das práticas anárquicas de seu princípio ativo (o CRASS), mais que o apelo “niilista” ou “descolado” de seu princípio fabricado (Sex Pstols e Ramones), causaram impacto na sociedade inglesa, principalmente pela repulsa da sociedade motivada pelas letras de conteúdo anti-cristão e contrárias à política de Estado, o que elevou as vozes de prisão por parte de um amplo espectro conservador inglês, passando pela disfunção propositalmente causada entre um Estado e outro. Todas as facetas sociais que demonstravam a presença do Estado ou do moralismo se tornavam alvos do CRASS: a indústria fonográfica voltada ao punk, o casamento, a política, o Estado, a propriedade, etc., eram constantemente atacados. O princípio proudhoniano do qual “a propriedade é um roubo” e de que encerra-se nela uma “inversão das ideias

humanas”, donde a ênfase na ação de deixar “a outros o encargo de disciplinar o mundo”

(PROUDHON, 2008, p.21-23) eram práticas comuns, principalmente pelo apoio a ocupações de prédios abandonados e pela incursão nestes espaços para a produção cultural e política.

A evocação destes eventos reitera o vigor das resistências num período de germinação neoliberal, de uma permanência da moral cristã, de existências paralisantes de incertezas políticas e de futuros, e de ascensão indiscriminada da organização atual do Estado. Entretanto, a mesma semente que vingaria o caos que destrói a ordem para, de suas cinzas, construir o novo, gerou a implicação prática dissonante de seus preceitos. Falamos do straight edge, já nos anos de 1980. Se por um lado, como vimos, o punk era viável aos marginais, por outro o straight edge, sob aparência de uma relação saudável

com o ambiente se alinhava às expectativas de uma sociedade classemediana, sobremaneira em termos de moral cristã e de práticas de controle de si.

Todavia, a aplicabilidade do straight edge, com seu discurso majoritariamente vegetariano e ambientalista, deve muito ao lançamento de um disco em específico: a coletânea P.E.A.C.E. lançada em 1984 pela Radical Records, que era uma gravadora de propriedade do fanzine (zine) Maximum RocknRoll e do músico e ativista Dave Dictor (da banda Million of Dead Cops, M.D.C.59). Este disco, cujo título é um acrônimo para “paz, energia, ação, cooperação e evolução”60 era acompanhado por um zine de 72 páginas, no qual estavam contidos textos sobre diversos assuntos, incluindo artigos sobre poluição e desarmamento nuclear. Na parte musical deste projeto, 55 bandas amontoam letras e sons dissonantes, urrando contra a política neoliberal, o governo, a polícia, a “paz”, a moral estadunidense, a guerra, etc. Destacavam-se as bandas italianas e suas

perspectiva estritamente anarquista, à exemplo da Raf Punk, que assinou a música “Contro la pace, Contro la guerra”:

[...] E eu não quero que a paz seja uma desculpa para implantar a calma / para terminar com os hare krishna cantando / em uma cabana na montanha / para esterilizar os meus instintos / meu desejo de fazer a batalha / Passivo e apático sem nenhum arrepio de tensão / que não é ver a merda do Michael Jackson na televisão / Sem paz, sem igualdade, sem anarquia / nenhuma cooperação, nenhuma evolução / se você não tomar uma posição contra o status quo. / Contra a paz garantida pelos proprietários e festas / mantida através do estado policial. / Contra a guerra como um motivo da militarização / e à hierarquia da sociedade / e uma válvula de escape / da tensão política e do intestino económico /

59 O M.D.C. é uma banda formada no Texas, iniciando sua trajetória no hardcore punk em 1981. Suas letras ácidas renderam-lhes um grande reconhecimento do cenário hardcore punk mundial, principalmente por seu envolvimento com a causa anti-homofobia. A banda mantém-se ativa até os dias atuais.

Resistência, ação, luta, cuspindo, gritando / revolução social! (Contro la pace, Contro la guerra. Raf Punk, 1984)61.

A participação das bandas italianas (07 no total) somada ao CRASS (ING) e ao Dead Kennedys (EUA) propuseram as formas anarquistas que influenciariam boa parte daqueles que ouvissem o disco ou lessem o zine. Propositalmente, o Dead Kennedys aparece na coletânea com a música Kinky Sex Makes The World Go Round62 que se passa, por inteira, em uma encenação onde ouve-se uma conversa telefônica iniciada pelo secretário do Departamento de Guerra estadunidense, tendo ao fundo a banda tocando, quase imperceptível, um emaranhado de sons.

Saudações: aqui é o Secretário de Guerra do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Temos um problema. As empresas querem que algo seja feito a respeito dessa situação econômico lenta do mundo. Os lucros têm sido um pouco magros ultimamente e precisamos estimular algum crescimento. Agora nós sabemos que há um número alarmante de jovens perambulando no seu país, sem nada para fazer, a não ser causar problemas para a polícia e danos à propriedade privada. E não parece que eles conseguirão um emprego algum dia. Já está na hora de fazermos algo construtivo com essas pessoas. Temos milhares deles aqui também. Eles estão rastejando por toda parte. A Empresa acha que é hora que todos nós nos sentarmos, juntos, e iniciarmos outra guerra. O Presidente? Ele adora a ideia! Todos esses mísseis rápidos sobrecarregados de Napalm. Pessoas correndo pela estrada, a pele em chamas. Os soviéticos parecem até gostar: o Kremlin está ansioso para algo real há anos. Quer um pequeno presente de despedida para o Sr. Brezhnev. Claro que não é divertido no Afeganistão. Então, o que você

61 [...] E non voglio che la pace sia una scusa per mettermi calmo / per finire a salmodiare l'hare krishna / in una baita di Montagna / per sterilizzare le mie pulsioni / la mia voglia di dare battaglia / passivo e abulico senza più un solo brivido di tencione / che non sia vedere la merda di Michael Jackson / e la televisione / No peace, no equality, no anarchy / no cooperation, no evolution / if you don't make a stand against the status quo / Contro la pace garantita dai padroni e dai partiti / mantenuta attraverso lo stato di polizia / Contro la guerra come movente della militarizzazione / e della gerarchizzazione della società / e valvola di scarico / delle tensioni politiche ed economiche intestine / Resistenza, azione, lotta, sputo, grida / rivoluzione sociale!

62 N.T. Algo como “sexo ‘depravado’ faz o mundo girar”. Kinky Sex é um termo utilizado para descrever diferentes formas de sexo, as quais fogem do padrão casual.

me diz? Nós nem sequer temos de vencer esta guerra. Nós apenas queremos reduzir um pouco deste excesso de população. Agora veja: basta começar a preparar um projeto; um projeto como muitas dessas pessoas que você puder. Vamos chamar até a última criança que podermos alcançar com nossas mãos, segurá-los com alguma velocidade, dar-lhes uma ou duas horas para aprender a usar um rifle automático e enviá-los à seu caminho. Líbia? El Salvador? Que tal Irlanda do Norte? Ou um "regime de repressão moderada" na América do Sul? Nós vamos inventar uma boa história de ameaça soviética no Oriente Médio - precisamos do petróleo deles. Tivemos na Líbia tudo pronto para ir, e o esquadrão da morte do coronel Kadafi nem sequer apareceu. Eu te digo que o homem não é confiável. O Kremlin tive seus dedos no botão, tal como fizemos. Agora é só pensar por um minuto. Nós podemos fazer esta guerra tão grande, tão grande. Quanto mais as pessoas matam nesta guerra, mais a economia vai prosperar. Podemos nos livrar de praticamente todos em fila se planejarmos direito. Leve todos os preguiçosos do direito de bem-estar para fora de nossos rolos de computador. Agora não se preocupe com as manifestações. Apenas estimule a oferta de drogas. Então, muitas pessoas têm se viciado em heroína e anfetaminas desde que assumimos, assim como no Vietnã. Tivemos todo mundo tão ocupado com LSD que nunca ficou muito forte. Manteve a guerra funcionando muito bem. É fácil. Nós temos a nossa juventude na faculdade tão interessada em cerveja que não se importam se começarmos a fabricação de bombas germinativas novamente. Coloque um arsenal nuclear no seu quintal, eles nem sequer sabem como se parece. Então, que tal isso? Olha, guerra é dinheiro. Os fabricantes de armas me dizem que se a fabricação de bombas não chegar até a produção completa, toda a economia vai entrar em colapso. Os soviéticos estão no mesmo barco. Estamos todos de acordo que chegou o momento para a guerra nuclear. O que você me diz? (Kinky

Sex Make’s World Go Round, Dead Kennedys, 1984)63.

63 Greetings: This is the Secretary of War at the State Department of the United States. We have a problem. The Companies want something done about this sluggish world economic situation. Profits have been running a little thin lately and we need to stimulate some growth. Now we know there's an alarmingly high number of young people roaming around in your country with nothing to do but stir up trouble for the police and damage private property. It doesn't look like they'll ever get a job. It's about time we did something constructive with these people. We've got thousands of'em here too. They're crawling all over. The companies think it's time we all sit down, have a serious get-together and start another war. The President? He loves the idea! All those missiles streaming overhead to and from Napalm. People running down the

Essa longa transcrição traz um apelo velado. O que o Dead Kennedys recitava, mesmo que em tom de vazão à teorias da conspiração, detalhava grosseiramente a justificativa para a guerra, intentando para seu apelo econômico em detrimento da destruição iminente da vida humana, animal e vegetal no planeta. Era um discurso contra a guerra, mas não qualquer guerra. Seu discurso girava em torno da denúncia à guerra nuclear, tão alarmada durante a Guerra Fria. A denúncia64, ainda, garantia o tônus de ódio ao governo Reagan, foco de quase a totalidade das bandas punk estadunidense deste período (O’HARA, 2005). Quase concomitante à tudo isso, vê-se claramente uma divisão

de práticas e ideias entre o punk (que tendia a um anarquismo pelo viés das práticas de contestação através da ação direta) e o straight edge (conservador) enquanto que ambos os lados produziam intensamente o hardcore da década de 1980, talvez seu último elo comum.

road, skin on fire. The soviets seem up for it: the Kremlin's been itching for the real thing for years. Want a little going-away preent for Mr. Brezhnev. Hell, Afghanistan's no fun. So whadya say? We don't even have to win this war. We just want to cut down on some of this excess population. Now look: just start up a draft; draft as many of those people as you can. We'll call up every last youngster we can get our hands on, hand'em some speed, give'em an hour or two to learn how to use an automatic rifle and send'em on their way. Libya? El Salvador? How 'bout Northern Ireland? Or a "moderately repressive regime" in South America? We'll just cook up a good Soviet threat story in the Middle East-we need that oil. We had Libya all ready to go and Colonel Khadafy's hit squad didn't even show up. I tell ya that man is unreliable. The Kremlin had their fingers on the button just like we did for that one. Now just think for a minute. We can make this war so big, so big. The more people we kill in this war, the more the economy will prosper. We can get rid of practically everybody on your dole queue if we plan this right. Take every loafer on welfare right off our computer rolls. Now don't worry about demonstrations. Just pump up your drug supply. So many people have hooked themselves on heroin and amphetamines since we took over, it's just like Vietnam. We had everybody so busy with LSD they never got too strong. Kept the war functioning just fine. It's easy. We've got our college kids so interested in beer they don't even care if we start manufacturing germ bombs again. Put a nuclear stockpile in their back yard,, they wouldn't even know that it looked like. So how 'bout it? Look, war is money. The arms manufacturers tell me unless we get our bomb factories up to full production the whole economy is going to collapse. The soviets are in the same boat. We all agree the time has come for the Big One, so whadya say?

64 Cabe notar que esta música do Dead Kennedys se mostra como uma prática pela qual Burroughs já salientara em 1973. Para Burroughs, a palavra se constitui um vírus, que pode ser usada para a destruição. Esta aplicabilidade pode ocorrer através da operação playback (gravações reproduzidas) consistia em três gravações: na primeira, grava-se uma conversa ou um discurso; na segunda, põe-se gravações de cunho sexual envolvendo o sujeito de interesse ou um ente próximo, desde que seja alguém cuja prática seria “inadmissível”; na terceira, grava-se vozes de “desaprovação, odiosas”. Com isso, a fórmula para a desmoralização e a queda de um sujeito está produzida (BURROUGHS, 2011).

Figura 8: Coletânea P.E.A.C.E./War, Radical Records, 198465.

Na intensidade dos acontecimentos políticos, porquanto bandas punk traduziam através da música em duras críticas à gestão governamental de Ronald Reagan, de Margaret Thatcher, das ditaduras latinas e das opressões no oriente, o straight edge preocupava-se cada vez mais com a compreensão daquilo que havia se tornado, produzindo letras cada vez mais voltadas ao confronto ao álcool, ao tabaco e às drogas, e mais preocupado com abalados valores morais:

Você me diz que gosta do sabor / Você só precisa de uma desculpa / Você me diz que acalma os nervos / Você só pensa que isso parece legal / Você me diz que quer ser diferente / Você só muda para o mesmo / Você me diz que é somente natural / Você só precisa da prova / Você entendeu isso, porra? / Está nos meus olhos / E isso não parece assim

para mim / Em meus olhos / Você me diz que nada importa / Você só está assustado pra caralho / Você me diz que eu sou melhor / Você só se odeia / Você me diz que gosta dela / Você só queria gostar / Você me diz que eu não faço diferença / Pelo menos eu estou tentando, porra / Que porra é essa que você fez? Está nos meus olhos / E isso não parece assim para mim / Em meus olhos. (IN MY EYES, Minor Threat, In My Eyes, 1981)66.

Comparando através das letras as práticas transmitidas pelo Dead Kennedys na música Kinky Sex’s... e a desta música do Minor Threat (banda straight edge), as

diferenças entre punk e straight edge ganham contornos mais visíveis. Por via de uma proposta crítica ao governo Reagan, o Dead Kennedys seguira os passos do CRASS em torno do levante, em função de uma desestabilização moral; o Minor Threat, por outro lado, abriu à possibilidade a construção de uma contrariedade ao punk, travestido de sua protoforma para dar continuidade a um projeto moral no subterfúgio da guerra contra as drogas. Ora, na administração Reagan, a política do Just Say No perpetuada por Nancy Davis Reagan a partir do ano de 1982, estava baseada na educação infantil que enfatizava o uso de drogas, chegando a auferir a cifra de 1,7 bilhões de dólares para sua cruzada contra as drogas.

É neste período, entre a década de 1980, que começam a despontar os primeiros grupos majoritariamente straight edgers, pelos quais a violência e as práticas discursivas sob o tom do ódio contra usuários de drogas e alcoolistas aumentariam progressivamente. Nos Estados Unidos, bandas como Society System Decontrol (SSD) surgiram para

66 You tell me you like the taste / You just need an excuse / You tell me it calms your nerves / You just think it looks cool / You tell me you want to be different / You just change for the same / You tell that it's only natural / You just need the proof / Did you fucking get it? / It's in my eyes / And it doesn't look that way to me / In my eyes / You tell me that nothing matters / You're just fucking scared / You tell me that i'm better / You just hate yourself / You tell me that you like her / You just wish you did / You tell me that i make no difference / At least i'm fuckin' trying / What the fuck have you done? / It's in my eyes / And it doesn't look that way to me / In my eyes.

alavancar a guinada dada pelo straight edge na contramão do que o punk proporcionava: em vez de uma alternativa política para aqueles que faziam uso de quaisquer substâncias psicoativas ou viciantes, o straight edge aderira rapidamente a política do Just Say No da família Reagan. No momento em que é citado o “fim do punk” no momento da reeleição

de Ronald Reagan para a presidência estadunidense (BLUSH, 2001) o straight edge iniciava uma nova jornada rumo a uma conservação da moral cristã e anti-drogas, proibicionista, na fórmula que melhor funcionou para si: o uso da violência.