4.4 Case studies
4.4.1 North Sea haddock
Na interação em sala de aula, os alunos estão expostos a diversas variáveis de ordem psicológica e de linguagem. Os alunos podem, por exemplo, ter receio em dizer algo tanto por questões culturais, quanto por não saberem se serão compreendidos. Cândido Jr. (2006, p. 51) afirma que no processo interativo, “os aprendizes têm oportunidade de refletir, testar hipóteses, perceber lacunas existentes no conhecimento que têm dessa nova língua”. Do mesmo modo, Almeida Filho e Franco (2009, p. 16) afirmam que a interação “recupera e movimenta os conhecimentos para a comunicação verbal ou não, é ela que permite ao falante-ouvinte trazer informações para o jogo comunicacional e negociá-las sob o pressuposto de que pelo menos alguma interpretação será possível.”.
Nestes processos, os alunos, muitas vezes utilizam a CE para compensar falhas ou quebra na comunicação. A CE pode ocorrer, dentre outras formas, como negociação na língua-alvo. Consideramos, portanto, que a negociação tem como natureza a CE do aluno. As negociações são de três tipos: de significado, de conteúdo e da forma (CÂNDIDO JR., 2006). Em um PTBT, o aluno deve estar atento ao conteúdo ensinado, e também deve produzir enunciados significativos sobre o assunto. Assim, as negociações ocorrem em diversos momentos da sala de aula. No trecho a seguir, observamos os alunos utilizando a CE para negociar tanto o significado, quanto a forma:
105 (transcrição da aula 2012-11-14-turma 1 – 02’31’’)
Otto: Que não reconhecem (.) ninhuma:: ninhuma autoridade. Agora si. (...) Que nenhum governo.
Kaleem: No tem governo, no? Otto: Que não:: hum?
Kaleem: no tem governo lá os sertanejos. Mas a gente:: está pensando cobre cangaceiro, né? Otto: Canga::ceiro!
Kaleem: Uhum. Isso. Isso only.
Otto: hum.. eu/ toda diferença ideia. No obedecem ou não se sub/ ou talvez no se:: (...) Kaleem: Que no se?
Otto: Que no se subordinam. Que no respeitam uma outra:: otro poder. Otro governo. Polícia. Si. Kaleem: No se?
Otto: Subordina. Soborninar como (...) No se se esta palarvra está bem, mas preciso (...) Subordinar seria fazer o que uma autoridade disse. Fazer o que disse a poliCIa o presidente. Kaleem: Ok. So, no tem/ no se
Otto: No se subordina. O talvez, no respeita, pode ser. Otra palavra. Kaleem: No se sobre!
Otto: Que no se respeita. Kaleem: Respect! Respect, hã!
A primeira negociação que ocorre é a de significado. Ela acontece quando Kaleem argumenta que eles estão falando somente de cangaceiros e não sobre sertanejos em geral. Apesar de Otto não ter mencionado essa generalização em seu discurso, Kaleem o questiona. Quando Otto confirma o tópico da conversa, afirmando ser somente do cangaceiro, Kaleem reforça a abrangência que a discussão deveria ter afirmando Isso. Isso only. A negociação, neste caso, recai sobre a amplitude de significado das palavras sertanejo e cangaceiro. Kaleem precisa certificar-se que os significados que eles estão atribuindo, como não ter governo são características somente dos cangaceiros, pois ele entende a diferença semântica dos termos em questão, além de compreender suas especificidades no tema maior que estavam estudando: o nordeste. Além de utilizar a L1 como estratégia de compensação, ele também negocia o significado para continuar no ato enunciativo.
Em seguida, quando Otto utiliza o vocabulário subordinar, há quebra na compreensão de Kaleem, que pergunta o significado da palavra por meio da repetição do contexto em que ela foi produzida. Otto explica o vocábulo, entretanto, Kaleem não está seguro sobre sua compreensão e por isso, Otto utiliza outra palavra para ajudá-lo a compreender o vocabulário em questão. Kaleem imediatamente reconhece a palavra respeito que é um cognato com respect da língua inglesa e encaminham para a conclusão do tópico de discussão. Foi no processo colaborativo
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possibilitado pela interação dos alunos que as negociações ocorreram. Notamos que as negociações de significado e da forma estão fortemente relacionadas com a CE dos alunos que precisam a todo o momento calibrar suas falas para serem compreendidos por seus pares. Elas também estão relacionadas ao desenvolvimento da CG uma vez que no processo de negociação, o aluno observa tanto o significado quanto a forma de modo contextualizado. Barbirato (2005) menciona que as negociações podem produzir níveis mais altos de compreensão entre os participantes e auxiliá-los no processo de aquisição da LE. Concordamos com a autora, pois se as negociações não fossem utilizadas, poderia haver abandono da fala por algum dos integrantes e o processo comunicativo não se instauraria.
Há, ainda, a negociação do conteúdo, como podemos verificar no excerto a seguir na aula sobre comidas típicas do sul:
(transcrição da aula 2013-06-14-turma 2 – 46’59’’)
PP: [professora falando sobre o barreado, um prato típico de Santa Catarina] é um prato típico né, é igual feijoada, já comeram feijoada?
Zane: sim
PP: gostaram? É diferente né? Chiara: si
PP: você gostou?
Zane: tem uma:: diferença grande ã:: grande entre simplesmente feijão e feijoada? PP: sim
Zane: e qual que é a diferença?
PP: o feijão é aquele que se come todo dia no restaurante Zane: e feijoada tem carne?
PP: a feijoada, ela geralmente o feijão é preto, então já muda aí! No Rio de Janeiro o feijão geralmente é preto, mas aqui no sudeste/ aqui no sudeste não! aqui em São Paulo, ele é marrom i você tem pedaços de porco
Zane: A::então eu como feijoada quase todo dia! PP: A é?
Zane: porque:: PP: com feijão preto?
Zane: com feijão preto principalmente porque eu moro na família carioca, daí eles são acostumados a fazer? ou de fazer?
PP: acostumados A fazer! Zane: A fazer com feijão preto PP: só que a feijoada ela é BEM/
Zane: mas é feijoada ou não ou é? É feijão com? (.) feijão preto?
No trecho, Zane está com foco voltado para o conteúdo. Para responder a pergunta da professora sobre gostar ou não de feijoada, ela precisa assegurar-se que compreende bem as
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implicações culturais daquelas palavras. Assim, inicia um processo de negociação de conteúdo com a professora para ampliar seu conhecimento sobre o assunto. O processo de negociação não termina neste trecho. Optamos por fazer o recorte do diálogo, pois acreditamos que o trecho anterior é suficiente para demonstrarmos o uso da negociação de conteúdo. Diferentemente da negociação de significado e da forma que estão bastante relacionadas à CG dos alunos, a negociação de conteúdo relaciona-se a outros componentes da CC. Notamos que a interrupção do discurso não ocorre por problemas na construção da fala, mas por questões que estão conectadas com a mensagem maior do discurso. A compreensão que Zane procura vai além do nível semântico que envolve os vocábulos feijão e feijoada. Ela precisa compreender a distinção cultural para relacionar o fato ao seu cotidiano para, então, responder a questão que a professora lhe propõe. Além do uso da CE, observamos também o uso da CD e da CS na construção de significados culturais. A CI ocorre durante todo o trecho, pois a aluna entende o momento de tomar e deixar o turno, posicionar-se e pedir posicionamento, além de expressar surpresa e questionamento. É importante ressaltarmos que a negociação de conteúdo não exclui o uso da CG da aluna, como podemos perceber na preocupação de Zane ao dizer acostumados a fazer? ou de fazer?. A CG pode estar presente, já que há construção de discurso, entretanto, ela ocorre com menor frequência que as outras competências, pois o foco do diálogo recai no sentido e não na forma. Elaboramos a figura a seguir, relacionando as negociações em um PTBT com a CE dos alunos e a interação:
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Almeida Filho e Franco (2009, p. 15) afirmam que “a interação produz insumo sociocultural que gera mais interação gerando por sua vez condições para a aquisição da língua e cultura-metas num processo infinito.”. Deste modo, interpretamos que a interação é a base para que as negociações ocorram. Os três tipos de negociação podem ser alocados sob a CE do falante. Quando o aluno chama a negociação de significado, o foco de sua atenção está no nível do vocabulário, que faz parte da CG do aluno. Nos trechos apresentados anteriormente, podemos observar esta questão na negociação de Kaleem e Otto da palavra subordinar. Contudo, dependendo do contexto em que essa negociação ocorre, pode haver também a necessidade de negociar a palavra em seu nível sociolinguístico. Podemos observar este exemplo no momento em que Kaleem negocia com Otto a abrangência sociocultural das palavras sertanejo e cangaceiro. Na Figura 11, demostramos esta possibilidade com uma seta pontilhada. Na negociação da forma, o centro da atenção do aluno está no desenvolvimento de sua CG. Por último, quando o aluno negocia o conteúdo, tem por objetivo compreender o tema para construir seu enunciado com base em sua CD. Dependendo da qualidade da negociação de conteúdo, pode haver também abrangência da CS do aluno, como, quando Zane e a professora negociam os termos feijão e feijoada.