A língua italiana apaga quase sempre o pronome pessoal, que, quando aparece, tem um valor expressivo. Ao contrário, no francês e no inglês, o uso do pronome diante do verbo é obrigatório, porque os pronomes identificam as pessoas do discurso. Por exemplo, em francês o indicadivo presente do verbo parler (falar) possui quatro formas com a mesma pronúncia (são homófonas): a 1ª, 2ª, 3ª pessoas do singular e 3ª do plural. Em inglês o indicativo presente do verbo speak (falar) possui 5 formas homófonas e homógrafas. Em italiano cada uma das pessoas tem a própria desinência que a distingue das outras formas. (Dardano & Trifone, 1995, p.290).
Francês Inglês Italiano
Je parle /parl/ I speak /spi:k/ Io parlo Tu parles /parl/ You speak /spi:k/ Tu parli Il parle /parl/ He speaks /spi:ks/ Lui parla Nous parlons /par’lõ/ We speak /spi:k/ Noi parliamo Vous parlez /par’lé/ You speak /spi:k/ Voi parlate Ils parlent /parl/ They speak /spi:k/ Loro parlano
Quadro 2e: Comparação entre os paradigmas verbais do Francês, Inglês e Italiano
O Italiano tem, como se pode ver, a morfologia verbal rica de formas, o que exlica o predomínio de sujeitos nulos.Existe uma correlação estreita entre o uso dos pronomes pessoais sujeito e a morfologia verbal.
Há, contudo, casos em que o pronome deve ser expresso:
a) Expressões em que há apenas uma palavra, com sentido de uma frase inteira (chi è
stato? Io) ou em frases elípticas onde o pronome seja acompanhada de um infinitivo,
um adjetivo ou um substantivo (io ammazzare tutti signori – Manzoni)
b) Quando o pronome vem modificado por um aposto, em uma oração relativa, etc. (che
ho mai fatto io, servo inutile)
c) Em usos contrastivos (tu esci, lui studia e io devo lavorare per tutti; Loro corrono i
d) Em expressões enfáticas e em todas as vezes que se tenha vontade de acentuar a parte de uma pessoa em uma ação (Giulio, tu vedi che io lavoro, che io mi lagoro la vita
per la famiglia – Amicis, Cuore); (io solo combatterò – Leopardi, All’Italia). Além
disso, em frases de uma só proposição é normal pospor o pronome ao verbo (ci penso
io, fate voi)
e) Para desfazer possiveis ambiguidades quando uma mesma forma verbal se usa para mais de uma pessoa, como por exemplo no subjuntivo. As três primeiras pessoas são idênticas e em geral, é necessário colocar os pronomes (bisogna che io, tu, lui o lei
sappia la verità; lo faccio io questo lavoro)
No italiano, como nas demais línguas de sujeito nulo, não se preenche sujeitos impessoais (piove, sembra), diferentemente do que ocorre nas línguas de sujeito pleno, como o inglês, o francês e o alemão.
(26a) ____ Piove (26b) _____ Sembra che sia un bel giorno di sole! (27a) It rains (27b) It seems to be a beautiful sunny day!
Segundo Simone (1993), “ o italiano hoje já seria uma lingua de sujeito nulo só na sua forma escrita”, apontando, talvez, na direção tomada pelo PB. No entanto, não há evidencias quantitativas que possam dar suporte a essa afirmação.
Se considerarmos, por exemplo, o trabalho de Calabrese (1986), a afirmação de Simone (1993) não se sustenta empiricamente. De acordo com o autor, quando o referente de um sujeito é “esperado” (é um tema; é um sujeito pré-verbal; e não há elementos intervenientes que prejudiquem a interpretação de um sujeito nulo) o pronome é obrigatoriamente nulo (28a). O uso de um pronome expresso nesse contexto teria outro correferente que não estivesse na função de sujeito (28b).
(28a) Quando Carloi ha picchiato Antonioj, proi era ubriaco.
Existe, portanto, para Calabrese, uma complementaridade entre um sujeito nulo e um expresso, como mostra o exemplo (29)
(29) Mentre il dottorei visitava Mariaj incinta proi*j / leij*i canticchiava.
Se o sujeito for correferencial com “Il dottore” será nulo; se seu referente for “Maria”, será expresso.
Fernandes Soriano (1989) avança nessa noção de não-alternância ou não- opcionalidade entre pronomes nulos e plenos, invocando o Princípio "Evite Pronome"
Um sujeito, em línguas como o espanhol e o italiano só seria expresso (além dos contextos de ênfase e contraste) com as formas verbais homófonas, como é o caso do imperfeito do indicativo e espanhol e do subjuntivo no italiano:
(30) lba yo/el tranquilamente andando por la calle cuando cayó un obús. (31) É necessário che tu vada
Soares da Silva (2006) em sua dissertação investiga a representação do sujeito pronominal em duas variedades do espanhol: na fala de Madri e na de Buenos Aires, e comprova que em ambas as variedades, o índice de sujeitos nulos é alto. Esse fato nos faz pensar na afirmação de Simone (1993): até que ponto realmente o italiano seria uma língua de sujeito nulo só na língua escrita, se os dados do espanhol, que também é uma língua de sujeito nulo, nos mostra exatamente o contrário?
Para concluir, pode-se dizer que o italiano e o espanhol são línguas de sujeito nulo. Uma observação informal do italiano e espanhol falados pode nos dar bem a medida do que significa a ocorrência de um sujeito nulo quando existem elementos que permitam a recuperação do seu conteúdo. Vejam-se os exemplos a seguir extraídos do filme de Giuseppe Tornatore, Una Pura Formalítá:
(32) Chiedi al comissárioi quando proi arriva.
(33) Non l'ho accompagnata proi è tornata da sola.
(34) ... ricevo una suai lettera. L'apri e notai che per la prima volta proi aveva scritto
Os referentes dos sujeitos nulos acima, dois complementos e um possessivo desfazem a impressão deixada pelos exemplos de Calabrese de que a relação de comando entre referente e pro seria necessária e ajudam a compor uma idéia do que é o "referente esperado" ou o que é a restrição imposta a uma língua do grupo pro-drop de só recorrer ao pronome pleno se a identificação de “pro” estiver comprometida. Ora, tais exemplos, mais uma vez, não confirmam o que diz Simone (1993) sobre a mudança na língua italiana, de que na língua falada veríamos mais ocorrências de sujeitos plenos.
Passemos à metodologia e à análise dos dados, que constituem o objetivo dessa pesquisa.