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Por estar mais de acordo com o estado da sociedade e das mentalidades do início da Idade Média, os episódios ou figuras do Antigo Testamento eram mais atrativos para a vivên- cia e manifestação da espiritualidade que o Novo Testamento. Um dos raros mosaicos preser- vados dessa época, o de Germigny-des-Prés, nos mostra Deus representado sob a forma da Arca da Aliança.

xercendo um ideal de perfeição ou nível mais elevado da experiência religiosa. Essas pessoas são chamadas de moges ou irmãos, monjas ou irmãs.

Fig. 1 - La mosaïque de l‟Arche d‟alliance, início do século IX, na Igreja Saint-Sauveur de Germigny des Prés, Paris.18

Num Ocidente superficialmente cristianizado, que um poder centralizador tentava unificar com o apoio do clero, a Jerusalém dos reis e dos grandes sacerdotes não podia deixar de exercer sobre os espíritos um fascínio muito particular. Assim, a Igreja desses tempos parece preocupar-se sobretudo, com a encarnação e a estabilização, procurando realizar na terra a Cidade de Deus. (VAUCHEZ, 1995, P. 16)

Para tanto, a Igreja teve o apoio do poder leigo: os decretos eclesiásticos, antes letra morta, ganharam força de lei. Com Pepino, em 755, inicia-se o “pacto” de retribuição entre poder laical e Igreja. Esta rezava pelo rei, fornecia-lhe uma parte dos quadros de sua adminis- tração e contribuía para garantir a lealdade de seus súditos enquanto o poder público acatava as decisões da Igreja, como por exemplo, as obrigações dominicais e abstenção do trabalho nesse dia, o pagamento do dízimo, etc. Com tal garantia de lealdade a Igreja sacaralizava o juramento que, a partir de Carlos Magno, se tornou a base das instituições políticas.

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Dá-se aí a conformidade da cristandade da Alta Idade Média com o antigo Israel. Car- los Magno é qualificado de “Davi” ou “novo Josias”, e outros reis do Ocidente (Wamba em Toledo, 672; Pepino, 751; Egfrid na Inglaterra, 787) são ungidos pelos bispos como sucesso- res de Saul e Salomão. “Mas a influência do Antigo Testamento marcou muito mais profun- damente as mentalidades religiosas e a vida espiritual. É na época carolíngia que o cristianis- mo começa a preocupar-se com práticas exteriores e obediência a preceitos” (VAUCHEZ, 1995, p. 17). Paradoxalmente, esse retrocesso ao Antigo Testamento, em detrimento do Evan- gelho que libertara o homem da escravidão da Lei, pode surgir como um progresso espiritual, pois é importante considerar que o ideal de liberdade espiritual do Novo Testamento era ina- cessível aos povos bárbaros. Nesse cenário “a fé cristã corria o risco de se degradar em práti- cas supersticiosas” (VAUCHEZ, 1995, p. 17), por isso o restabelecimento das observâncias vétero-testamentárias constituíam uma organização para os batizados.

Entretanto, dois séculos antes, já se fazia presente nas comunidades cristãs celtas a imitação literal das instituições e das disposições legais do Antigo Testamento, tais como res- peitosa submissão ao clero e, a este, a obediência aos seus superiores; obrigação legal do dí- zimo; a assimilação do domingo ao Sabbat. Mas, o impacto da antiga Lei tem sua particular importância no âmbito da moral sexual, “no qual foram recuperados numerosos preceitos do Levítico: impureza da mulher após o parto [...]; abstenção de relações conjugais durante cer- tos períodos do ano litúrgico; severas penitências infligidas na sequência de poluções notur- nas, etc.” (VAUCHEZ, 1995, p. 18). A influência da maioria destes interditos e de suas res- pectivas sanções foi tão intensa que se manteve em vigor até o século XIII.

“Na época carolíngia, a prática religiosa constitui menos a expressão de uma adesão interior do que uma obrigação de ordem social” (VAUCHEZ, 1995, p. 18). Embora nesse contexto de cristianização forçada da fé, alguns clérigos, como Alcuíno, defendessem a liber- dade do ato da fé, alguns leigos, sendo Carlos Magno o primeiro, inescrupulosamente toma- vam em prática a máxima Compelle intrare, ou seja, “força-os a entrar” na Igreja. É aí que se efetiva a idéia de que todos os súditos do imperador , exceto o grupo de judeus, deviam adorar o mesmo Deus que ele. Além da conversão forçada, tal concepção administrativa da religião “legitima a utilização da coação física pelo poder leigo com a finalidade de reprimir os cismas e as heresias” (VAUCHEZ, 1995, p. 18). Os concílios reunidos por Carlos Magno definem prescrições e exortações sobre a vida religiosa do clero e dos leigos. Esse é o clima espiritual da época carolíngia.

Nesse modelo de Igreja, ”povo de Deus” da Bíblia, o sacerdote carolíngio, que se as- semelhava ao levita, passou a desempenhar mais o papel de homem de oração e de sacrifício que o de pregador ou de testemunho; se distinguia dos fiéis pelo conhecimento que tinha dos ritos e das fórmulas eficazes. O sacramento da ordem, antes ministrado apenas pela imposição das mãos, passa a fazer uso da unção (ritual encontrado no Antigo Tetamento, Números 3,3), tornando o padre o ungido do Senhor. Ao favorecerem o clero a formar uma casta sacerdotal, separada do resto do povo por suas funções e seu status, os carolíngios acabaram por instituir a monarquia episcopal (estruturada em arquidiocese, diocese, paróquia), o que colaborou para sua crescente coesão. Apesar de sedentarizado e hierarquizado, esse clero recebeu privilégios jurídicos: as igrejas constituíam espaços sagrados e os que ali se refugiavam gozavam do di- reito de asilo (reconhecido pelas leis civis desde o século VII); os padres possuíam o privilé- gio do foro, o qual subtrai as suas pessoas e bens à jurisdição leiga, e do dízimo, que assegu- rava a manutenção deles e a dos pobres.

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