É a curiosidade do investigador que está na base de qualquer pesquisa e a sua escolha desmistifica o seu caráter neutro, pois na maioria das vezes revela as suas próprias preocupações científicas. Por mais simples que o investigador seja nas suas pretensões, qualquer investigação é orientada por preceitos teóricos que levam à escolha do objeto de estudo e à definição de todos os procedimentos (Becker, 1994). O investigador é peça fundamental na recolha de dados. Primeiro descreve e só depois analisa, foca-se em todo o processo, os dados são analisados indutivamente, centra-se no significado das coisas (Bogdan & Biklen, 1994).
O conhecimento científico possui várias características: é organizado; sistemático; empírico (baseia-se na experiência, nos fenómenos e nos factos); racional (assenta na lógica e na razão, mais do que na intuição); objetivo (descreve a realidade como ela é ou como pode ser); replicável; sistemático; metódico; comunicável (reconhecido e aceite pela comunidade científica); analítico (entra na complexidade dos fenómenos); e cumulativo (parte de conhecimentos científicos anteriores) (Almeida & Freire, 2003).
O tipo de recolha de dados depende dos objetivos e das preocupações do investigador e das situações com que este se defronta, pelo que muitas vezes é difícil encontrar a melhor técnica de investigação para levar o seu trabalho a bom porto, adequando as várias tipologias de métodos. Um paradigma é um enquadramento maior de uma teoria que aceita um determinado ponto de vista, em relação ao fenómeno em estudo e as formas válidas de o estudar. É fundamental que o investigador tenha, à partida um conhecimento aprofundado do leque de possibilidades que permitirão desenvolver o seu trabalho dentro dos paradigmas qualitativo, quantitativo ou, eventualmente, misto, já que cada um deles tem as suas vantagens e desvantagens.
O paradigma Positivista, Empiricista (Almeida & Freire, 2003; Deshaies, 1992), tem origem nas ciências naturais (Almeida & Freire, 2003; Chizzotti, 2003) e recorre à quantificação, através do tratamento estatístico, como se fosse o único modelo de investigação que garante a generalização (Chizzotti, 2003). Tem como características a objetividade, a fiabilidade (Hill & Hill, 2009; Marañano, 2004), a teoria antecede o objeto de investigação, os instrumentos para a recolha de dados são predefinidos, procura-se que a amostra seja representativa, os fenómenos são observados em termos estatísticos, é orientado para a comprovação hipotético-dedutiva (Cook & Reichardt, 1986; Hill & Hill, 2009; Marañano, 2004) e para resultados fiáveis, sólidos e reprodutíveis (Cook & Reichardt, 1986).
Esta parte da investigação (Estudo 1) recorre preferencialmente a uma estatística multivariada, bem como a um plano previamente estabelecido, examinando relações entre variáveis e confirmando ou não as hipóteses de pesquisa por dedução (Denzin & Licoln, 2005). Permite obter respostas de um elevado número de participantes, permitindo ao investigador descrevê-las, compará-las, relacioná-las e demonstrar que certos grupos têm determinadas características (Bell, 1997) para corroborar ou não as hipóteses e tem como objetivos explicar, predizer e controlar os fenómenos (Almeida & Freire, 2003), bem como a generalização dos resultados e a sua extrapolação para o universo (Chizzotti, 2003; Cook & Reichardt, 1986; Duarte, 2009, Hill & Hill, 2009). Os investigadores transformam as respostas dos sujeitos em dados, possibilitando medir informações, conhecimentos, valores, preferências atitudes, crenças, colocando- as sob a forma de dados quantitativos, usando escalas (Tuckman, 2005). “Quantitative research is an approach for testing objective theories by examining the relathionship among variables. These variables, in turn, can be measured, tipically on instruments,
so that numbered data can be analized using statistical procedures (Creswell, 2014, p.4)”.
Ainda segundo esta perspetiva, os fenómenos sociais têm apenas uma explicação objetiva, sem qualquer valorização dos aspetos subjetivos, com uma medição rigorosa e controlada, analisando os dados a partir de fora. É possível, através da utilização de metodologia quantitativa, estabelecer causas prováveis para os objetos em estudo, descrever o padrão de ocorrência dos eventos observados e validar estatisticamente as variáveis, o que poderá favorecer a extrapolação de resultados para o universo (Marañano, 2004).
O Paradigma Interpretativo ou Fenomenológico (Almeida & Freire, 2003; Deshaies, 1992) surgiu como uma reação à perspetiva anteriormente referida (Almeida & Freire, 2003) e combina algumas tendências que podem ser designadas pelas teorias que as fundamentam: fenomenológica (Almeida & Freire, 2003; Chazzotti, 2003), construtivista, crítica, etnometodológica, interpretacionista, feminista e pós- modernista; que podem, também, ser designadas pelo tipo de pesquisa: pesquisa etnográfica, participante ou investigação-ação. Os fenómenos humanos dão significado às coisas e aos indivíduos nas interações, os quais podem ser descritos e analisados sem recurso à estatística (Chazzotti, 2003). A teoria vai sendo reformulada à medida que se vão obtendo dados analisando os dados, tal como as hipóteses, os casos selecionados para estudo deverão ser importantes para o tema em estudo; a complexidade é aumentada pela inclusão do contexto. A amostra pode ser assente em princípios teóricos, mas a sua seleção e o seu número não pode ser previamente definida e não se pretende a generalização como no método quantitativo (Brannen, 1992).
Nas palavras de Creswell (2014, p.4)
Qualitative research is an approach for exploring and understanding the meaning individuals or groups ascribe to a social or human problem. The process of research involves emerging questions and procedures, data tipically collected in the participant’s setting, data analysis inductively building from particulars to general themes, and the researcher making interpretations of the meaning of the data.
Esta perspetiva considera que cada investigador poderá ter a sua própria interpretação dos factos (Chazzotti, 2003; Cook & Reichardt, 1986), que a vida social
é o reflexo da interpretação que as pessoas fazem do seu mundo e que a sua ação tem por base essa interpretação (Cook & Reichardt, 1986). Trata-se, portanto, de uma ótica mais subjetiva, pois o investigador, enquanto instrumento de recolha de dados, está próximo do investigado, perspetivando a realidade a partir de dentro, mais intensivo, exploratório, descritivo e indutivo do que a abordagem quantitativa. É fundada na realidade e orienta-se para a descoberta e para o processo, tendo uma perspetiva dinâmica, não procurando generalizações (Cook & Reichardt, 1986).
Em suma, as duas perspetivas metodológicas têm diferentes métodos, mas a quantitativa aborda mais a análise de dados estatísticos, geralmente através de questionários e a qualitativas. Têm uma função mais interpretativa, recorrendo, em princípio, a um menor número de participantes, onde a observação direta, entrevistas ou questionários em formato de resposta aberta são privilegiados (Creswell & Clark, 2007; Tashakkori & Teddlie, 1998).
Onwuegbuzie (2000) referiu-se aos investigadores que se limitam a realizar investigação apenas qualitativa ou quantitativa como “uni-researchers” e Tashakkori e Teddlie (2003) consideram que estes não conseguem levar a cabo uma “bilingual
research”, revelando limitações. O uso exclusivo de um dos paradigmas de
investigação pode ser visto como um impedimento ao desenvolvimento das ciências sociais (Onwuegbuzie & Leech, 2005), pelo que a investigação em Psicologia e em Educação ficaria mais pobre se fosse reduzida a apenas uma perspetiva (Almeida & Freire, 2003). No entanto, apesar de estarmos perante duas abordagens completamente distintas (Creswell, 2010; Duarte 2009) os métodos qualitativos e os quantitativos podem combinar-se e assumir diferentes formas numa investigação.
Os investigadores adeptos dos dois paradigmas usam técnicas analíticas para extrair significado (Dzurec & Abraham, 1993), pelo que o conceito da metodologia mista tem vindo a ser utilizado e aperfeiçoado por vários autores (Creswell, 2003; Teddlie & Tashakkori, 2006). Estes abordam fenómenos reais e dão sentido aos dados. Ambas as perspetivas se relacionam, uma vez que a pesquisa quantitativa permite a identificação de processos importantes e, paralelamente, fornece à abordagem qualitativa a base da sua descrição (Cupchik, 2001). Esta combinação pode dar origem a uma de três situações: a) convergência e a confirmação mútuas, levando às mesmas conclusões; b) complementaridade, mostrando aspetos diferentes do mesmo problema; c) divergência dos resultados, possivelmente por ter um quadro teórico desadequado ou por erros metodológicos (Kelle & Erzberger, 2005).
Esta abordagem apresenta, assim, várias vantagens na investigação em ciências sociais, podendo melhorar a qualidade dos resultados (Jones, 1997) e possibilitar a ampliação da obtenção dos mesmos, proporcionando ganhos para a investigação na área da educação (Dal-Farra & Lopes, 2013). A investigação poderá ser mais sólida se combinar diferentes perspetivas e métodos para estudar o mesmo fenómeno (Patton, 1990a), o que apresenta algumas vantagens (Patton, 1990a; Reichardt & Cook, 1986). A pesquisa que recorre a métodos mistos é, portanto, “[…] uma abordagem de investigação que procura combinar dois métodos: o qualitativo e o quantitativo […]” (Creswell, 2007, p.27). Apesar de serem duas abordagens diferentes, ambas se complementam no que respeita à apresentação de resultados.
O recurso aos métodos mistos tem a ver com uma certa evolução que a investigação foi sofrendo e com a possibilidade de se obter uma abordagem que tenta utilizar os pontos fortes de ambos, procurando dar resposta aos problemas (Creswell, 2010), mas também como resposta aos investigadores que têm abordagens diferentes (Creswell, 2010; Duarte, 2009), pelo interesse crescente do pluralismo metodológico e uma maior abertura neste domínio (Duarte, 2009).
As abordagens quantitativa e qualitativa permitem metodologias distintas, com potencialidades e limitações (Tashakkori & Teddlie, 1998) sendo que a primeira se relaciona mais com questões estatísticas e a segunda com aspetos interpretativos. As metodologias qualitativa e quantitativa não devem ser vistas como rígidas, como polos opostos ou dicotómicas (Newman & Benz, 1998). Já a metodologia mista conjuga a metodologia quantitativa e a qualitativa, ultrapassando as limitações quer de uma, quer de outra, permitindo uma complementaridade dos dados e análises comparativas mais aprofundadas do que cada uma das metodologias que, isoladamente, não permitiria (Cook & Reichardt, 1986). “Mixed methods research resides in the middle of this continuum because it incorporates elements of both qualitative and quantitative approaches (Creswell, 2014, p.3)”.
Os métodos mistos possibilitam que os problemas possam ser explorados a partir de diferentes perspetivas, pois as abordagens quantitativas e qualitativas fornecem diferentes visões que permitem um entendimento mais completo dos fenómenos. Esta metodologia é sustentada pelo Pragmatismo, o qual procura aplicar os métodos mais apropriados em função daquilo que é exigido, das situações em que a pesquisa ocorre e das consequências a serem consideradas, ao invés das condições preexistentes. Os métodos mistos são intuitivos, permitindo flexibilidade para combinar metodologias e
o desenvolvimento das capacidades de pesquisa e de adaptação da pesquisa para responder às questões de investigação (Serrant, 2015).
Segundo Creswell (2014, p.4)
Mixed methods research is an approach to inquiry involving collecting both quantitative and qualitative data, integrating the two forms of data, and using distinct designs that may involve philosophical assumptions and theoretical frameworks. The core assumption of this form of inquiry is that the combination of qualitative and quantitative approaches provides a more complete understanding of a research than either approach alone. Tendo em conta os objetivos deste estudo, considerou-se adequado desenvolvê- lo numa metodologia mista, tendo por base instrumentos que assumiram a forma de um questionário e uma entrevista semiestruturada. Pareceu, assim, ser uma opção viável para a concretização desta investigação, pois, como referido anteriormente, concilia as vantagens de ambos os métodos, pelo que enriqueceria o trabalho (Creswell & Clark, 2007).