1.7 Definitions
1.7.7 NorSIS
O respeito para com os indígenas, tanto individual como coletivamente deve ser a tônica do relacionamento entre as partes. A seguir Fernando Schiavini17, técnico indigenista, em entrevista, orienta como se comportar em aldeias indígenas. Ele inicia com uma informação valiosa, que em hipótese alguma pode ser descartada, sob o risco da visita não frutificar ou mesmo não dar certo. Trata-se da pesquisa sobre a comunidade a ser visitada. Na continuação, ele menciona o respeito que deve existir junto a outro povo de costumes diferente do que é vivido pelo visitante. Na fala de Schiavini, é observado três eixos em suas orientações. Primeiro é o respeito para com o outro. Segundo é a atenção e educação no comportamento diário e o terceiro eixo é o relacionamento profissional com as comunidades indígenas. Ele orienta dizendo que o visitante:
17 Indigenista, servidor do quadro da FUNAI, organiza a vinda de grupos indígenas para a Chapada dos Veadeiros, para o evento Aldeia Multiétnica, onde ocorre, dentre outras atividades, as Rodas de Prosa. Profundo conhecedor da causa indigenista, com publicações de livros sobre este tema.
67 Pesquise tudo o que for possível sobre o povo e a região que você vai visitar. A FUNAI mantém uma boa biblioteca sobre a questão indígena em Brasília, assim como outras instituições. Regionalmente, procure as bibliotecas, museus e universidades. É também possível obter muitas informações pela internet, lá se poderá obter não somente informações históricas, mas também notícias e artigos sobre a questão indígena. Respeite as autoridades da aldeia. Procure inicialmente o cacique ou alguém que o esteja substituindo. O cacique é a pessoa escolhida pela comunidade para representa-la externamente. Nessa condição ele deve intermediar toda a relação que você deverá ter com a aldeia. E quanto aos momentos festivos, todas as comunidades indígenas possuem seus rituais, festas e brincadeiras. Eles devem ser respeitados. De modo geral, em qualquer cultura, procura-se não se misturar assunto sério com festividades, a não ser em casos muito graves. Aguarde, portanto, o momento certo. Quanto aos acordos realizados, respeite-os, pois os povos indígenas possuem tradição oral. Muitas comunidades, entretanto, exigem atualmente documentos escritos das decisões tomadas com representantes externos, o que é de pleno direito. De qualquer forma, os acordos orais ou escritos devem ser respeitados. Se você os cumprir integralmente, poderá cobrar particular ou coletivamente de quem eventualmente os tenham rompido (SCHIAVINI, 2013).
Além do respeito relatado acima, Schiavini menciona outras atitudes comportamentais importantes, agora no âmbito educacional e de cortesia. Ele menciona que:
Seja educado e atento, pois visitar uma aldeia indígena é o mesmo que visitar qualquer povo no mundo que tem uma cultura diferente da sua. Você é um forasteiro. Não entre em nenhuma casa se não for convidado ou sem pedir licença. Espere ser recebido e acomodado e somente então diga o assunto que o trouxe ali. É de boa educação aceitar comidas e bebidas do anfitrião, mesmo que não se goste delas. Atente para os hábitos cotidianos (comer, beber, tomar banho, cumprimentar as pessoas, etc.) e logo se sentirá à vontade. Se tiver dúvidas, pergunte às pessoas do lugar sobre hábitos e costumes. Geralmente as pessoas gostam de falar sobre a sua própria cultura para os que não a conhecem. É importante não ostentar as sua posses, pois as comunidades indígenas de modo geral não acumulam bens materiais e podem ainda estar passando por dificuldades diversas. Leve para a aldeia somente o indispensável para suas necessidades básicas, isso ajudará também em sua locomoção. Não se negue à amizade. Pessoalmente você poderá se simpatizar com determinadas pessoas ou famílias da comunidade. Nada mais normal que pessoas se simpatizem com outras. Se esse é o caso, não se furte a travar laços de amizade com elas. Se a amizade for construída em bases honestas e igualitárias, todos terão oportunidade de aprender e evoluir com ela. (SCHIAVINI, 2013).
68 Havendo relacionamento profissional com comunidades indígenas visitadas, Schiavini relata que o visitante:
Não crie falsas expectativas. Evite a tentação de dar “boas notícias” antes da hora. Somente faça afirmações sobre fatos e proposições que aconteceram ou que você tem plena certeza que irão se realizar. Formalize as relações com a comunidade. Procure falar de seus objetivos de trabalho somente em reuniões formais, salvo as informações iniciais que deverão ser dadas ao cacique, na chegada. O cacique é apenas uma das autoridades da aldeia. Outras existem e devem entender os objetivos de sua presença. Todas as comunidades indígenas possuem seus locais de discussão e tomada de decisões coletivas. Geralmente são considerados “locais da verdade”. Procure fazer as reuniões nesses locais. Fale claro, objetivamente e em linguagem simples. Procure repetir várias vezes os pontos principais das proposições. Não esqueça que para as comunidades indígenas o português é apenas uma segunda língua. Sobre imparcialidade, quase invariavelmente, em qualquer comunidade indígena, duas ou mais facções disputam a liderança da aldeia. Elas podem, inclusive, contar com alianças externas, que podem ter interesses espúrios na comunidade. Procure não se envolver e tampouco ser envolvido por elas. Escute a todos com atenção e faça proposições que possam dar saída para os impasses. Os povos indígenas tomam suas decisões por consenso e não por votação. Não force a tomada de decisões imediatas. O consenso sobre determinado assunto poderá demorar bastante ou mesmo não se realizar. Há um ‘tempo indígena’ que deve ser respeitado nas tomadas de decisões importantes. Elas podem depender de composições políticas internas e até de consultas espirituais (SCHIAVINI, 2013).
Não obstante o Brasil ter mais de 230 etnias e quase duzentos idiomas e que o universo indígena é multicultural, pois cada povo tem o seu modo peculiar de vida, o conjunto de orientações do Fernando Schiavini, se colocado em prática, proporcionará ao visitante grandes possibilidades de êxito no seu intento, seja qual for o objetivo da visita à comunidade.