3. Empiri
3.3 Høringsuttalelser
3.3.2 Norges Bondelags høringsuttalelse og intervju
A integração a um GCEM excede a proximidade geográfica da residência. O que ocorre com freqüência é a adesão a um grupo em decorrência da afinidade que uma pessoa tem para com algum de seus integrantes. Via de regra pouca diferença há entre eles no que tange à idade, classe social e cultura. Contudo, quando um sujeito ainda não adquiriu o ethos classista-religioso ele passará por uma catequização para “mudança de mente e atitude”, como também será insuflado por todos os membros do GCEM a esforçar-se em chegar no “patamar de prosperidade que Deus espera dele”.
Por estes motivos, nesta coligação o ideário religioso é divulgado com maior aderência e o controle religioso se transfigura em algo tolerável tornando-se acessível e ambicionando levar a pessoa a um autoconvencimento de que aquela abordagem acerca da vida está correta. Nesta “segunda família” os indivíduos são estimulados a pensarem toda a existência e regularem suas disposições, aptidões, inclinações, habilidades, hábitos, compromissos e inclinações em conformidade com os preceitos religiosos (Geertz, 1989: 105). Por outro lado, esta “família cristã” propõe-se com seus discursos e cultos a amenizar as tensões, as angústias e as necessidades sofridas pelos fiéis em contato com a sociedade hodierna.
Um serviço prestado por esta “família da fé” é o exercício do papel que, via de regra, é convencionado aos pais no tratamento dado aos filhos em casa. A cobrança relacionada aos estudos, ao trabalho, à participação ativa na igreja, à procura de uma pessoa “certa” para namorar, ao abandono de linguagem obscena, ao cuidado com as amizades, à administração do dinheiro é feita pelos demais fiéis que fazem parte do GCEM. Há uma pressão coletiva para que o adolescente ou jovem mantenha-se dentro das prescrições da religião e a eficácia desta influência aumenta ainda mais quando as histórias pessoais de êxito são compartilhadas e as experiências espirituais ocorrem validando as exigências da igreja. Esta asserção adquire mais importância com o
resultado do questionário aplicado aos cento e vinte fiéis da CG na pergunta sobre os locais que as experiências religiosas costumam acontecer:
0 2 4 6 8 10 Templo GCEM Acampamento Casa Monte Escola/Trabalho Rua Outros
Gráfico 18: Locais em que ocorrem as experiências religiosas
No gráfico acima, 100% dos fiéis afirmaram que as experiências místicas são mais freqüentes nos cultos no Templo e nos encontros do GCEM, 90% declararam em casa, 50% no acampamento e na escola/trabalho, 30% na rua, 0% monte e outros.
Em diálogos informais alguns pais indicam que fazem questão que os filhos estejam vinculados a um GCEM, pois alegam que a partir do momento que eles integraram o grupo suas atitudes em casa se transformaram, as notas na escola melhoraram, eles ficaram mais responsáveis, entre outras ocorrências. Assim, os grupos de plausibilidade se destacam como amenizadores dos conflitos nos lares, ajudando os filhos, no âmbito da familiar nuclear, a realizarem seus projetos individuais em parceria com pais apaziguados pela religião e os benefícios internos que ela traz (Velho, 2004: 69).
Feitas as devidas adequações segundo as faixas etárias e grupos de afinidade, o mesmo ocorre nos GCEMs de casais, adultos, idosos. Exemplificando, as mudanças de atitudes costumam ser cobradas nos relacionamentos conjugais pelos envolvidos, contudo no grupo religioso é notada a pressão para que haja uma adequação àquilo que a CG espera de pessoas casadas. Com isso, firmando-se nos diálogos ocorridos nos “encontros familiares”, os atritos entre os cônjuges diminuem e os laços afetivos com o grupo, a igreja e os pastores se estreitam. Por conseguinte, a vivência comunitária pretendida no próprio nome do empreendimento religioso estudado, Comunidade da Graça, é mais bem observada no domínio do GCEM.
O compartilhamento e a solidariedade, características da compreensão conceitual de comunidade em Tönnies (1988) e Weber (1992), são elementos acionados nesta “Família” em contraposição ao anonimato e à impessoalidade visíveis nos cultos públicos no templo da CG. Contudo estas qualificações coletivas se mantêm em tensão com uma religiosidade emocionalista, subjetiva e intimista propagada tanto nas reuniões cúlticas quanto nos encontros dos grupos familiares. Parece circular nos discursos e ações desta igreja um tipo de coletivismo exclusivista dedicado à motivação e apoio aos pares da congregação e um individualismo compartilhado coletivamente capaz de reafirmar tendências contemporâneas pela busca de bem estar, sucesso e realização pessoais (Dumont, 1985).
O coletivismo expresso na compreensão de “família da fé” é reafirmado na opinião de que Deus ofereceu à humanidade a oportunidade de ingressar à sua linhagem. O meio pelo qual isso se sucede é com a aceitação de Jesus Cristo como o filho de Deus e a adequação da vida ao modelo religioso ditado pela CG. A pessoa que não consente a isso, ou é alienada desta realidade, está determinada a ficar de fora da família de Deus e receber, após a morte, as conseqüências negativas deste ato. Por outro lado, a igreja é a reunião de indivíduos que fizeram a escolha em prol do cristianismo e agora formam “uma família e tem a Deus como Pai” (Bezerra, 2006d: 6).
Nas pequenas congregações, os CGEMs, os crentes tem a possibilidade de se relacionarem e conhecerem-se. A própria dinâmica grupal impressa pelo dirigente, devidamente treinado segundo a cartilha da igreja, constrange os integrantes a se irmanarem, apoiarem-se e promoverem a ajuda mutua. Vivencia-se uma proteção coletiva de modo a sanar possíveis debilidades espirituais, emocionais, físicas e materiais de algum participante. Para exemplificar, quando há fiéis desempregados os coordenadores dos grupos procuram auxiliar indicando-os a alguma empresa ou consultando os pastores e os empresários que integram esta instituição a fim de conseguirem uma vaga de emprego para os carentes.
Os discursos e os ritos religiosos nos pequenos grupos reafirmam a cosmovisão da igreja e respondem às demandas dos crentes. Exemplificando, segue o relato etnográfico de uma das participações em GCEM cujo tema tratado foi o perdão: A reunião começa com uma saudação do dirigente e em seqüência é colocada uma música
no CD Player na qual a cantora expunha, através da letra da canção, a sua necessidade de ser transformada por Deus porque a sua tendência à maldade era muito grande. Os fiéis acompanham cantando, uma oração é feita e o debate inicia. Em um dado momento um crente expõe ao grupo a sua dificuldade em absolver o seu pai que o ofendeu. A alocução de um outro participante em contraposição a este problema apresentado sentenciou uma falta de fé, de amor, de confiança e de coragem do ofendido. Outra pessoa discorreu sobre o perigo de se guardar a mágoa de alguém e vê-la se tornar em uma doença como câncer. O dirigente sugeriu que não se levasse em consideração a ofensa, porque Cristo na cruz perdoou a todos que o crucificaram. Aproveitando o ensejo vários crentes contaram suas experiências sobre como lidaram com a ofensa exercitando o perdão e os milagres decorrentes destes atos. Assim, entusiasmado, o ofendido se reporta ao grupo declarando que Deus o havia visitado durante os testemunhos e ele iria perdoar. Todos enfim se abraçam, choram, fazem um círculo de oração agradecendo a Deus pelo encontro. Posteriormente, um membro da igreja relata ao pesquisador que o fiel outrora ofendido havia se reconciliado com o pai.
O exemplo acima, obtido no campo de análise, é um dentre vários que demonstram que a prática comunitária dos GCEMs legitima parte considerável dos discursos religiosos da igreja. Nestes grupos, os dirigentes usam a literatura oficial da igreja e organizam as reuniões com base nos sermões feitos pelos pastores locais nos cultos às quartas-feiras e domingos que antecederam o “encontro familiar” dos cristãos. Desta forma, durante as reuniões cada uma das experiências emocionais-corporais reforçam os ensinamentos inculcados dando aos fieís a impressão de que Deus confirma as palavras emitidas na confraria principalmente pelos pastores e líderes. A interação entre as pessoas e a religiosidade, por sua vez, aumentam os vínculos e inibem o transito religioso.
Pela observação constata-se que os fiéis compartilham a sensação de que estão amparados por uma coerência temática e uma sintonia entre os guias espirituais da CG e o Espírito Santo. Outro aspecto promotor do sucesso e crescimento da igreja nestas pequenas congregações é o investimento no estreitamento dos relacionamentos interpessoais; a exibição e avigoramento das afinidades coletivas; a criação de um nome fantasia e a confecção de camisetas e faixas que identificam o GCEM; e a noção de que a sociedade alternativa oferecida pela religião faz sentido, ajuda-os a viverem melhor na
sociedade e instiga-os a reproduzirem este convívio comunitário nos lares. Suspeita-se que parte considerável da eficiência na adesão à igreja dá-se especialmente pelas parcerias feitas entre os indivíduos e não tanto pelo acolhimento imediato da fé religiosa pós-impacto emocional. Observe a ponderação do Pr. Vander:
Você percebe que a igreja CG não é uma igreja de eventos como: vai ter o fulano de tal, a música tal, num sei o quê. Ela não é uma igreja de eventos. Se você quer ir a pessoa pega e vem para a igreja. Ela cresce por conta destes valores. Às vezes as pessoas olham para a nossa Comunidade pelo fato dela ter uma boa música e elas pensam que a igreja cresce por conta da música. Muita gente que não conhece a nossa essência, elas pensam que é por conta da música, mas não é. Não é. Nossa igreja... cresce por conta desta Palavra que é dirigida especificamente para as famílias. Ela cresce por conta deste valor que nós temos e que a gente luta dia e noite para que os nossos líderes e os nossos membros também tenham. Porque a partir do nosso testemunho que a gente vai atrair pessoas para o Evangelho. Então essa é a nossa forma de evangelizar. A gente não usa muito a televisão, folheto, panfleto, jornal. A gente não usa isso. A gente usa a vida das pessoas.140
Em meio ao coletivismo reforça-se também o individualismo com a garantia de que o próprio Deus é quem valoriza tal postura. Cada GCEM funciona como uma organização coletiva individualizada, ou seja, uma entidade que dá respaldo aos sujeitos religiosos unindo-se à família destes como mais um indivíduo coletivo (Velho, 2004: 74). O argumento comumente utilizado para referendar esta realidade é que Deus se vale, desde os tempos bíblicos, de um tratamento de tipo personal com cada fiel e dá a este último a opção de refletir se quer ou não acatar as ordens da religião. Para os membros da CG a Bíblia exerce grande autoridade sobre a ética, a moral e a espiritualidade das pessoas, portanto se ela legitima esta ideologia individualista característica da sociedade contemporânea então as tensões entre o “mundo” e a igreja diminuem.
Os crentes, embora tenham conhecimento do ideário eclesiástico, têm a liberdade para fazer suas escolhas, para pensar e agir segundo os seus próprios interesses, pois Deus zela pelo direito individual desde os primórdios em que o ser
humano fora criado. É certo que a igreja censura alguns atos ditos excessivos como o desrespeito às pessoas, a mesquinharia e o descaso àqueles que estão privados de suprir suas necessidades básicas, no entanto, de modo geral as aspirações individuais são preservadas nos discursos religiosos e nas experiências místicas.
Esta maneira individual de viver também abarca os cuidados com o corpo, isto é, os crentes devem ter uma alimentação balanceada, frequentar academias de ginástica, fazer caminhadas, zelar pela aparência e andar perfumados. Porém, o discurso legitimador deste ato esta respaldado na afirmação que cada fiel é portador em seu corpo do Espírito Santo, contida nos textos bíblicos de I Coríntios 3,16-17, “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”, e também I Coríntios 6,19-20: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”.
Com base nestas referencias assumidas como valorizadora da estética e do discurso médico pró-saúde, as pessoas que são sedimentárias e gordas por conta de um desregramento alimentar estão debaixo de maldição, os primeiros por não levarem a sério a instrução religiosa descrita sobre a prática de exercícios físicos e os segundos por adicionarem a esta as práticas agravantes dos pecados de glutonaria e bebedice. Somente aqueles que estão obesos ou não se exercitam em decorrência de doenças físicas recebem a condescendência e a absolvição da igreja. Ao assumir a consciência do valor corporal estimado pela CG e exercê-lo o fiel é tido como um religioso aplicado e, por isso, adquire prestígio na coletividade. Estas pontuações doutrinárias concernentes ao corpo, apesar de desconsiderarem as influências sócio-culturais brasileiras no pensamento teológico, apenas reforçam que “o corpo, no Brasil contemporâneo, é um capital, uma riqueza, talvez a mais desejada pelos indivíduos das camadas médias urbanas e também das camadas mais pobres, que percebem seu corpo como um importante veículo de ascensão social” (Goldenberg, 2007: 13).