Características da Produção
No Vale do Piancó, o nível tecnológico adotado pelos produtores é artesanal, caracterizando-se por praticamente nenhum uso de insumos, e mão-de-obra predominantemente familiar. O arroz vermelho é cultivado durante a estação chuvosa,
nos baixios alagados, conhecidos regionalmente como, “baixas de arroz”, que
correspondem às áreas de várzea dos rios, que se alagam com as chuvas.
Área de cultivo do arroz vermelho – ‘baixio’
O preparo do solo geralmente se dá através de tração animal, resumindo-se na
simples gradagem, chamada regionalmente de “corte de terra”, sem uso de qualquer tipo
de adubação. Por vezes os agricultores recebem apoio da Prefeitura, devido à requisição por parte do Sindicato dos Trabalhadores Rurais para o corte da terra através de tratores.
As variedades cultivadas no Vale do Piancó são a “Cáqui” e a “Maranhão”, variedades tradicionais manejadas pela agricultura familiar há mais de 200 anos. Os agricultores reservam as melhores sementes da colheita e conservam para o plantio do próximo ano, essa prática revela um respeitável saber tradicional associado ao manejo dessa semente, que garante até os dias de hoje a Segurança e Soberania Alimentar no Vale do Piancó.
Os agricultores se recusam a utilizar a semente de arroz vermelho melhorada pela EMBRAPA, e isso deve ser respeitado, pois se o arroz vermelho existe até hoje, todo o mérito se deve a estes agricultores familiares que durante séculos preservaram esse patrimônio alimentar e genético; além de que conservando a própria semente eles garantem autonomia no processo de produção do arroz vermelho, garantindo a soberania alimentar local.
A semeadura é feita com o início das chuvas, geralmente em janeiro, de forma manual, em covas, com uso de enxada ou de máquina mecânica, conhecida como matraca, e a colheita realizada no mês de março/abril, manualmente, com auxílio de serra e foice. Quando há perda devido à falta de precipitação, alguns produtores arriscam semear novamente estendendo a colheita até junho.
Após a colheita os grãos do arroz ainda contém um teor excessivo de umidade, assim a secagem é uma operação imprescindível, visando à retirada do excesso de água para o beneficiamento. A secagem do arroz é realizada de forma natural, em terreiros, controlando-se a temperatura e umidade dos grãos de forma empírica, baseada no conhecimento adquirido de cada um ao longo do tempo dedicado à atividade. De acordo com Pereira (2004), pelo fato de ser produzido em pequena escala, o modo de secagem usual para o arroz vermelho, é mediante a exposição direta dos grãos à radiação solar, em lajedos, terreiros e ambientes similares.
Após a secagem, o arroz é armazenado nos cantos dos barracões ou em sacos de náilon com capacidade de 60 kg. Este armazenamento, geralmente se dá na casa do próprio produtor ou na agroindústria de beneficiamento. As condições desse
armazenamento são deficitárias, alguns colocam o arroz diretamente sobre o piso, encostados nas paredes e por isto passível de contaminação por insetos ou à ação da umidade.
Características do setor de beneficiamento
As agroindústrias da região são caracterizadas como artesanais e rudimentares com baixo nível tecnológico, em toda região do Sertão da Paraíba, essas agroindústrias de beneficiamento do arroz vermelho são chamadas de “despolpadeiras”, termo que designa na realidade a máquina que realiza o beneficiamento do grão. A maior parte dos agricultores atualmente vende sua produção diretamente para o dono da despolpadeira,
o que eles chamam localmente de “encostar o arroz”, que vende para empresas
empacotadoras, ou seja, estes se configuram atravessadores da cadeia produtiva do arroz vermelho.
O agricultor que não “encosta o arroz”, paga R$ 0,15 centavos por quilo do arroz
beneficiado. Ele leva a saca de arroz bruto, em casca, com 60kg, paga R$ 9,00 reais, e depois de descascado e beneficiado a saca do arroz rende 40kg. Depois de beneficiado o arroz é vendido, durante a pesquisa realizada em dezembro de 2012 o arroz estava sendo vendido a R$ 3,50 o kg em armazéns da cidade.
No município de Santana dos Garrotes existem somente duas máquinas
‘despolpadeiras’, uma no centro da cidade, e outra no distrito de Pitombeira de Dentro,
ambas por serem rudimentares, apresentam problemas na regulagem para o beneficiamento, promovendo perda de grande parte do pericarpo e muitas vezes quebrando o próprio grão.
Características do setor de distribuição/comercialização
As empresas empacotadoras adquirem o grão beneficiado, das despolpadeiras, e comercializam em embalagens de 1Kg com marca própria, distribuindo no Estado, tanto em empresas de pequeno porte quanto em grandes redes de supermercados. Além das empacotadoras, foram identificados pequenos atravessadores no setor agroindustrial, os produtos a partir destes atores são entregues nas feiras livres, mercados públicos e armazéns. Observando as embalagens encontradas percebemos que todas elas encontram-se fora dos padrões oficiais para comercialização, pois, não apresentavam informações relativas à classificação do produto, como por exemplo, classe e tipo.
Na região do Vale do Piancó o arroz vermelho foi encontrado exposto para comercialização em pequenos supermercados, armazéns e feiras livres, exposto à venda na sua maioria a granel em sacos de náilon com capacidade para 60 kg; balcões de madeira compartimentados; baldes de plásticos e embalagens plásticas seladas com capacidade de 1 Kg.
Considerando a descrição da cadeia produtiva do arroz vermelho, percebemos que os produtores, o elemento mais importante da cadeia, são os que recebem a menor parte do lucro, pois são atravessados pelos beneficiadores e empacotadores, restringindo-os a simples fornecedores de matéria-prima, que vendem seu produto a um preço muito menor que ele é vendido no mercado final. Portanto o lucro da produção do arroz vermelho não é distribuído de forma justa e igualitária ao longo de sua cadeia produtiva.
No entanto são os produtores que arcam com a principal parte dos problemas, como terra própria e acesso à água. Mostra-se necessário então, uma reestruturação dessa cadeia produtiva, de forma que os produtores tenham domínio de todas as etapas da cadeia, retirando os atravessadores. Essa autonomia só será possível mediante obtenção de equipamentos de beneficiamento por parte da própria associação de produtores.
3.2.2. Agricultura Familiar no território semiárido - Santana dos Garrotes, Vale do