Para darmos prosseguimento a esse trabalho, é indispensável procurar compreender como a experiência da tietagem, definidora da atividade de ser fã de algo ou alguém, inter- fere na formação da identidade e nos outros aspectos do indivíduo que se identifica como “fã”. Com esse objetivo, partimos aqui do conceito de self de Thompson:
[...] Self é um projeto simbólico que o indivíduo constrói ativamente. É um projeto que o indivíduo constrói com os materiais simbólicos que lhe são disponíveis, materi- ais com que ele vai tecendo uma narrativa da própria identidade. Essa é uma narrativa que vai se modificando com o tempo, à medida que novos materiais, novas experiên- cias vão entrando em cena e gradualmente redefinindo a sua identidade no curso da trajetória de sua vida. Dizer a nós mesmo e aos outros o que somos é recontas as nar- rativas – que são continuamente modificadas neste processo – de como chegamos até onde estamos e para onde estamos indo daqui para a frente. Somos todos biógrafos não oficiais de nós mesmos, pois é somente construindo uma história, por mais vaga- mente que a façamos, que seremos capazes de dar sentido ao que somos e ao futuro que queremos (THOMPSON, 2014, p. 268).
Ainda segundo Thompson, esse processo não é apenas socialmente condicionado, mas é um processo reflexivo, de natureza crítica, onde, até certo ponto, selecionamos, dentre aquelas mensagens aos quais somos expostos, as que mais fazem sentido com nos- sas próprias narrativas, e também aquelas que correspondem a expectativas factíveis que temos de nossas vidas. Em um momento em que estamos expostos diariamente a mensa- gens mediadas:
[...] o processo de formação do self se torna mais reflexivo e aberto, no sentido de que os indivíduos dependem cada vez mais dos próprios recursos para construir uma iden- tidade coerente para si mesmos. Ao mesmo tempo, o processo de formação do self é cada vez mais alimentado por materiais simbólicos mediados, que se expandem num leque de opções disponíveis aos indivíduos e enfraquecem – sem destruir – a conexão entre a formação e o local compartilhado (THOMPSON, 2014, p. 265).
Quando analisamos a relação entre o fã e seu ídolo à luz desses conceitos, necessi- tamos compreender qual o impacto das mensagens mediadas centras no ídolo, sobre a per- sonalidade do fã.
Segundo Velasco e Rodrigues (2012): “A imitação, ou o conceito de mimese, está ligada à cópia, reprodução e representação do real de Aristóteles. No processo de constru- ção de identidade através da imagem, esse conceito é um pilar importante: ele está atrela- do à identificação.” (VELASCO; RODRIGUES, 2012. P. 4).
Logo, ao identificar um artista cujos valores declarados se assemelhem aos seus, o indivíduo se apropria da estética, do discurso ou de outros aspectos desse novo ídolo e os incorpora ao seu próprio self de maneira que lhe pareça coesa. Esse processo não é de as- similação irracional, mas sim crítico, no qual alguns aspectos serão incorporados, enquan- to outros serão deixados de lado; inclusive por causa da inesgotável disponibilidade de ou- tros produtos culturais e mensagens mediadas que também podemos utilizar para construir nossa identidade, e que em algum momento podem fazer mais sentido e serem mais coe- rentes com as nossas próprias narrativas do que aquelas que o ídolo em questão nos apre- senta.
Se esses discursos que recebemos através da mídia podem nos a construir narrativas de vida significativas para nós mesmos, eles também podem ter impactos negativos sobre a formação de nossas personalidades. A exposição constante a essas imagens pode causar impactos tão profundos no psicológico do indivíduo a ponto de um objeto ou uma perso- nalidade se tornar o centro de sua vida, criando um comportamento obsessivo do qual o fã às vezes tem consciência, e às vezes não. Nessas situações, a tietagem se confunde com o fanatismo e se torna o principal aspecto que governa a vida de uma pessoa.
Thompson (2014) cita um caso registrado por Fred e Judy Vermorel no livro Star-
lust: The Secret Life of Fans, em 1985, sobre Joanne, uma mulher de 42 anos que se iden-
tificava como fã do cantor Barry Manilow. Em seu depoimento, Joanne confessa que sua obsessão pelo artista a fazia deixar de lado a relação com sua família e, acima de tudo, com seu marido, no qual projetava constantemente a imagem de seu ídolo. Joanne acres- centa, entretanto, que ao encontrar pela primeira vez um grupo de outras fãs do cantor, percebeu que tal situação não era única e, encontrando pessoas que passavam por dramas semelhantes, sentiu-se acolhida e pôde lidar melhor com seus sentimentos. Ainda assim,
Thompson (2014) cita pelo menos quatro maneiras pelas quais a superexposição a ima- gens mediadas pode influenciar negativamente o self:
1) a intrusão de mensagens ideológicas;
2) a dupla dependência mediada;
3) o efeito desorientador da sobrecarga simbólica;
4) a absorção do self na interação quase mediada.
Não nos deteremos a detalhar essas quatro possibilidades no momento; retornaremos a elas quando necessárias para compreender fenômenos observados nesse estudo. O que é necessário é compreender que esses efeitos negativos existem, e que podem se desdobrar de inúmeras maneiras em cada caso particular.
Mas se a veneração a um determinado ídolo pode levar a um caminho de obsessão, também pode levar a atitudes positivas e benéficas, tanto a nível individual como coletivo. Ao analisar o comportamento de grupos reunidos por objetos de interesse, Shirky (2011) os divide em duas classificações: grupos básicos e grupos sofisticados. Os grupos básicos seriam aqueles cujos objetivos, como grupo, se voltam apenas para a satisfação de deman- das e a obtenção de prazeres individuais, correndo “o risco de se entregar a um compor- tamento emocionalmente satisfatório, mas não efetivo”. Nesses grupos básicos, a articula- ção entre seus membros normalmente não é funcional, o que os impede de trabalhar em conjunto em prol de objetivos maiores.
Já os grupos sofisticados apresentam uma harmonia e uma articulação funcional en- tre seus membros, com conjuntos de valores bem definidos. Grupos sofisticados prezam pela própria manutenção e conseguem identificar comportamentos ou atitudes que podem levar a rupturas ou cismas entre seus membros e conseguem, na maioria dos casos, resol- vê-los. São grupos com maior consciência do coletivo e, por serem estáveis internamente, podem se voltar para questões externas a si mesmos e tomarem iniciativas que indivíduos solitários ou grupos básicos não poderiam alcançar sozinhos. Como exemplo de grupo so- fisticado, Shirky (2011) cita o fandom do artista Josh Groban. Um grupo de fãs do cantor, em uma tentativa de decidir como presentar seu ídolo em seu aniversário, chegou à con- clusão de que realizar uma vaquinha e doar o dinheiro arrecadado para uma instituição beneficente, em nome de Josh Groban, seria uma boa ideia. A iniciativa funcionou e pas-
sou a repetir-se; de doações, as fãs passaram a organizar leilões, que arrecadavam milha- res de dólares em pouco tempo. O esquema tomou tais proporções que passou a contar com a participação do próprio artista, através da Fundação Josh Groban.
Em casos como esse, a veneração a um ídolo pode ser o ponto de partida, ou facili- tador, para que grupos possam voltar-se para objetivos de caráter cívico ou empreendedor. Se não admirassem o trabalho de Josh Groban, talvez suas fãs nem se conhecessem, e o grupo que tornou possível esse trabalho altruísta não existiria. De fato, a celebração do trabalho do artista toma grande parte do tempo diário desses fãs, pois organizar leilões be- neficentes e articular o sistema de doações com a fundação oficial de Josh Groban são ati- vidades que demandam dedicação; esse tempo que é gasto em torno de um objeto de ido- latria, mas não tem como finalidade única a satisfação de prazeres momentâneos, e sim atividades de cunho social e humanitário.
A seção seguinte introduz nossa análise sobre a carreira de Lady Gaga, que será aprofundada no terceiro capítulo deste estudo. Por ora, detemo-nos a pontos chave para a compreensão do discurso e da imagem que a artista construiu. Discutiremos a seguir os elementos essenciais para uma melhor compreensão dos pontos levantados posteriormen- te.