Conforme descrito no primeiro capítulo desta dissertação, a incidência das tecnologias e o uso do computador e da internet está intrínseca na cultura contemporânea e estabelece outra relação com o conhecimento. Lévy (2002) classifica três momentos da história do conhecimento humano e os denomina os três pólos do espírito sendo que cada pólo possui características próprias e o emprego de tecnologias específicas. O primeiro pólo é o da
oralidade primária, centrado na narrativa, na ritualidade e na transmissão oral dos saberes,
uma vez que ainda não tinha sido inventada a escrita. O segundo pólo, o da escrita, revolucionou as formas do saber humano, proporcionando o surgimento das ciências, da teoria, da interpretação e da inscrição histórica no tempo. O terceiro pólo, o informático-
mediático, surgiu a partir da segunda metade do século XX e apresenta novas possibilidades
para a construção do conhecimento: as informações são cada vez mais partilhadas entre as pessoas, com modelos baseados na simulação, na velocidade e na conexão em rede. O autor ressalta:
Os pólos da oralidade primária, da escrita e da informática não são eras: não correspondem de forma simples a épocas determinadas. A cada instante e a cada lugar os três pólos estão sempre presentes, mas com intensidade variável. [...] O estado de humanidade global, perseguido pelo homem da escrita e da história de diversas formas (impérios, religiões universalistas, movimento da Luzes, revolução socialista) é hoje vivenciado pelo homem informático-mediático (p. 126).
A difusão do computador e a popularização da internet transformaram os comportamentos e modos de existir em vários segmentos da vida das pessoas. Globalização, ciberespaço, hipertexto e comunidade virtual são termos relacionados e paralelos ao surgimento e estabelecimento das tecnologias de informação e comunicação. De acordo com Barbosa (2005), “a cultura contemporânea, ao inter-relacionar a necessidade e expressão, criou o ambiente propício para a integração da inteligência, da emoção e da tecnologia transformando a cognição em uma forma de consumo que estimula a imaginação” (p. 111). A conexão em rede facilitou a comunicação entre as pessoas e tornou mais democrático o acesso
à informação. E a forma acelerada com que as transformações tecnológicas ocorrem exige das pessoas novas aprendizagens num contexto que coloca desafios para a sociedade e, consequentemente, também para a educação escolar.
O ambiente tradicional de ensino/aprendizagem é a escola, na sala de aula, com o enfileiramento tradicional das carteiras, com estudo dirigido e o ato de copiar o conteúdo da lousa, muitas vezes enfadonho. São freqüentes as reclamações dos alunos, relativas a essa forma tradicional de condução das aulas, referindo-se ao tédio por ficar ouvindo o professor falando na frente ou ter que copiar textos enormes e da falta de associação entre a informação transmitida nas aulas e o que é vivenciado no dia-a-dia.
Tanto o computador com conexão à internet quanto outros dispositivos tecnológicos, como o celular e a câmera digital, já fazem parte do cotidiano de boa parte dos alunos das escolas públicas, ainda que nem todos tenham acesso às tecnologias contemporâneas em suas casas. O computador, o provedor de acesso à internet, a linha de telefone etc. têm um custo financeiro e nem todas as famílias de alunos da rede pública possuem condições para a sua aquisição. No entanto, mesmo em muitas comunidades pobres os alunos conseguem acessar a internet e quando não possuem o computador doméstico são as escolas, os telecentros mantidos por órgãos públicos e as lan houses que se constituem, na maioria das vezes, nas alternativas de acesso. Quanto aos professores, nem sempre a relação com a tecnologia acontece de forma semelhante e são várias as atitudes com relação ao seu uso.
A necessidade de agregar e integrar valores e reflexões sobre o ensino de Arte mediado pelo uso de tecnologias contemporâneas e de abordar as condições atuais de uso da rede telemática e dos equipamentos de tecnologias nas aulas de Arte nas escolas da RMEBH culminou em questões formuladas e encaminhadas para parte dos professores de Arte da RMEBH. As perguntas foram propostas a partir de questionários enviados via e-mail e entregues pessoalmente e preenchidos com o próprio punho. O questionário foi entregue a 39 professores, sendo que cinco professores não quiseram respondê-lo.89 Um dos professores
justificou que não responderia por que não possuía formação em Arte e estava substituindo a professora titular da disciplina na escola, afastada temporariamente com licença médica.
A maioria dos professores (76,5%) considera importante o uso das tecnologias contemporâneas e da web nas atividades no ensino/aprendizagem em Arte. As frases em itálico referem-se a algumas das respostas dos professores, separadas por ponto e vírgula.
Numa das respostas, um dos professores entrevistados relata que Nenhuma profissão, em
nenhuma área do conhecimento, pode se dar ao luxo de desprezar uma fonte de informação e interação como é a internet [...] Também tem a importância da internet na atualização do artista e do professor de Arte.
Entretanto, muitos ainda não sabem utilizar o computador e a internet e têm receio de começar a aprender Não tenho conhecimento suficiente; Ainda tenho muitas dificuldades em
lidar com o mundo das tecnologias, parte por não sentir tanta necessidade e parte pela falta de vivências nessa área. Alguns usam o computador esporadicamente e, mesmo que tenham
realizado cursos na área, não conseguem desenvolver projetos e integrar os conhecimentos com as suas atividades na escola. Não temos condições, na atualidade, de utilizarmos a
tecnologia para realizar nossas aulas devido à falta de preparo tecnológico pessoal. Aprendi, através de um curso de informática, a conhecer a materialidade e não tive oportunidade de colocá-lo em prática. Espero melhores oportunidades de espaço e tempo para colocá-lo em prática; São poucos computadores e nós professores precisamos de uma maior preparação para a informática voltada para a arte.
Poucos usam o laboratório de informática nas suas atividades e reivindicam apoio técnico e pedagógico para desenvolver projetos. Condições de curso de formação em serviço
(muitos professores trabalham em dois ou três turnos). Adequação e aquisição de equipamentos em número suficiente para 32 alunos, ou seja, uma turma. Conteúdos da arte primitiva até a arte contemporânea; Uso da internet, equipamentos e softwares de edição de imagens, edição de áudio e vídeo. Uma parcela menor consegue explorar os equipamentos,
programas e ambientes virtuais para preparação das aulas. Uso demais a internet como
ferramenta na busca de imagens que possam fazer parte da aula, assim como informação sobre essas imagens e sobre arte em geral. Aliás, um pouco da arte existe apenas na internet e não do lado de fora. Também é lugar de formação para mim e um ambiente para troca de experiências, através de sites, fóruns e blogs; Utilizo para pesquisar com os alunos e também para trabalhar com manipulação de fotos, imagens etc.; Costumo acessar sites que complementam os conteúdos de história da arte e grafite etc. Alguns, porém, deparam com
dificuldades quando procuram desenvolver atividades com os alunos no laboratório. Uso
frequentemente na minha casa e de forma limitada na escola; Espaço inadequado, quantidade de computadores insuficiente, conexão lenta e a indisponibilidade de pessoal técnico para acompanhar os alunos e professores, dificuldade para agendamento de
horários; São 35 alunos, em média, por sala e são 10 computadores em funcionamento, na sala de informática porque a sala é pequena e além de não caber os alunos, daria uma média acima de três alunos por computador.