• No results found

Depois de obtida toda a informação através das técnicas referidas no ponto anterior, procederei ao tratamento e análise da informação através da técnica da análise de conteúdo.

“O recurso à análise de conteúdo, para tirar partido de um material dito «qualitativo», é indispensável (…)” na prática do sociólogo. (Bardin, 2008, p. 89). Esta técnica permite “tratar de forma metódica informações e testemunhos que apresentam um certo grau de profundidade e de complexidade, como, por exemplo, os relatórios de entrevistas” (Quivy & Campenhoudt, 2005, p. 227).

A análise de conteúdo é considerada atualmente como uma das técnicas mais comuns na investigação empírica nas ciências humanas e sociais, é uma técnica de investigação que permite “a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação”, e “que permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados para o seu contexto” (Berelson, 1952 & Krippendorf, 1980, citados in Silva & Pinto, 1986, p. 103). Objetiva pelo facto da análise ser efetuada de acordo com determinadas regras, sistemática pela categorização que se opera permitindo que a totalidade do conteúdo seja ordenado, e quantitativa pelo cálculo, na maioria das vezes, da “frequência dos elementos considerados significativos”, neste caso particular não optaremos pela maioria, sendo que a nossa análise vai recair pela presença (e ausência) dos elementos (Carmo & Ferreira, 1998, p. 251).

Esta técnica permite trabalhar sobre as informações obtidas por entrevistas, mostra- se adequada para tratar a informação recolhida uma vez que os elementos qualitativos apresentam-se intensivos e descritivos, sendo então o número da informação reduzida, contudo complexa e detalhada. A técnica da entrevista revela-se bastante aberta e flexível e por essa razão os elementos obtidos são diversificados sendo que produzem uma enorme variedade de informação descritiva que necessita de ser reduzida e organizada. Estes dois procedimentos vão ser concretizados através da codificação que se opera numa fase à posterior. Quando já temos em nossa posse os dados das entrevistas, nesta codificação “o investigador busca padrões de pensamento ou comportamento, palavras, frase, ou seja regularidades nos dados que justifiquem uma categorização.” (Coutinho, 2011, p.192). Segundo Coutinho (2011) estes sistemas de codificação devem ter duas caraterísticas básicas, em primeiro lugar, devem captar a informação pertinente relativa aos dados a codificar, e ainda, recolher toda a informação que permita descrever e perceber o melhor possível o fenómeno que se estuda.

Segundo Lawrence Bardin (2008) a análise de conteúdo organiza-se em torno de três etapas sequentes. A pré-análise, etapa que passa pela formulação das hipóteses e dos objetivos de trabalho, pela escolha dos participantes a serem inquiridos e pela “elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final” (Bardin, 2008, p. 131). A segunda etapa, a exploração do material, consiste fundamentalmente na decomposição e codificação dos testemunhos recolhidos através da técnica da entrevista. Segundo Bardin a codificação vai permitir que os testemunhos recolhidos sejam, recortados, agregados e enumerados através da determinação de unidades de registo que correspondem a um segmento de conteúdo que funcionará como unidade de base. Diga-se a respeito da unidade de registo, Bardin apresenta um conjunto de unidades de registo que passam pela

palavra, tema, objeto, personagem, acontecimento e documento. De entre as variadas unidades de registo apresentadas por Bardin, parece-nos que a mais adequada será o tema, segundo a autora o tema é usualmente utilizado “(…) para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças (…)” (Bardin, 2008, p. 131). Ainda segundo a autora este tipo de unidade de registo são as mais usadas quando se trata da análise de respostas a questões abertas como o caso das entrevistas. Acerca da codificação há ainda a referir a determinação de uma outra unidade, a unidade de contexto que codifica a unidade de registo através de um segmento dos testemunhos recolhidos com uma dimensão que permita compreender a significação da unidade de registo. Silva e Pinto (1986) revelam que a unidade de contexto, na análise de conteúdo, revela-se um elemento importante da validade e fidelidade do trabalho do investigador.

No que diz respeito às regras de quantificação, ou se quisermos enumeração como aliás lhes chama Bardin, a autora apresenta também aqui diferentes formas de enumerar os dados recolhidos, seja pela presença (ou ausência), frequência, intensidade, direção, e ordem de determinados elementos, entre outros. Neste caso particular optaremos pela primeira regra de enumeração, ou seja, a presença (ou ainda ausência) de determinados elementos nos testemunhos recolhidos. Aliás Bardin elucida bem para esta escolha ao referir que “o que carateriza a análise qualitativa é o facto de a inferência (…) ser fundada na presença do índice” (Bardin, 2008, p.142).

Por último, mas não menos importante, há ainda a referir a categorização1 (anexo categorização), após feita a apreensão e análise dos elementos é necessário classifica-los. Esta não é uma etapa obrigatória na análise de conteúdo, mas a categorização facilita a análise da informação e por essa razão optamos por realiza-la (Richardson et al., 1985). Uma categoria é um termo-chave que remete para a significação central do conceito que se quer deter e das unidades de registo que se encontram associadas a essa categoria (A. Silva & Pinto, 1986). Neste caso como a unidade de registo será temática – tendo por base o tema –, falamos de uma análise de conteúdo categorial onde se vai proceder “à

1 Quando procedemos à categorização optamos por agregar algumas perguntas numa mesma categoria, é o

caso da pergunta relativa à problemática que leva o inquirido a recorrer à instituição e a consequente droga de abuso; as áreas da vida afetadas pelos consumos e os consequentes problemas decorrentes desses consumos; a perceção do consumidor acerca do seu próprio consumo e os acontecimentos que levaram a esse entendimento; como se descreve depois do processo de tratamento e as diferenças que destaca entre o antes e depois do tratamento; e por último que motivações teve para o tratamento e possíveis influências. A agregação destas perguntas numa mesma categoria relacionam-se com as respostas dos inquiridos, uma vez que quando questionamos para as primeiras perguntas apresentadas os indivíduos orientam as suas respostas já para a consequente pergunta. Não faz por essa razão sentido criar categorias diferentes para essas perguntas quando os inquiridos respondem a ambas numa mesma pergunta.

identificação das variáveis cuja dinâmica é potencialmente explicativa de um fenómeno que queremos explicar” (Guerra, 2006, p. 80).

Finalmente, a etapa onde se procede ao tratamento, à inferência e à interpretação dos resultados obtidos. Esta é uma etapa intimamente ligada à anterior, toda a fase de tratamentos dos resultados obtidos relaciona-se com o processo de codificação e enumeração. Esta é a fase por excelência da análise de conteúdo, é aqui que “os resultados em bruto são tratados de maneira a serem significativos (. . .) e válidos” (Bardin, 2008, p.127). Neste caso particular trata-se de uma análise qualitativa e portanto mais intuitiva e por essa razão “a finalidade da análise de conteúdo será pois efetuar inferências com base numa lógica explicitada, sobre as mensagens cujas caraterísticas foram inventariadas e sistematizadas.” (A. Silva & Pinto, 1986, p. 104).

Em suma, quando se opta pela técnica da análise de conteúdo há três perguntas às quais o investigador deve tentar dar uma resposta. Com que frequência ocorrem certos acontecimentos, as caraterísticas e atributos que são associadas a esses acontecimentos, e a associação ou dissociação entre esses acontecimentos, sem dúvida que esta terceira questão suscita particular interesse para nós, tendo em conta as hipóteses elaboradas. Na realidade a análise de conteúdo visa simplificar o mais possível os textos recolhidos das entrevistas com vista a potenciar a apreensão e explicação do conteúdo (A. Silva & Pinto, 1986).

Na análise de conteúdo (anexo análise de conteúdo – tabela 1 a 7) vai-se proceder a uma desmontagem do discurso e à produção de um novo discurso onde as respostas passarão a ter um determinado valor simbólico orientado para os objetivos e hipóteses desta investigação (A. Silva & Pinto, 1986). Este processo baseia-se na análise do texto das entrevistas efetuadas, tentando orientar essa análise para a descoberta de temas que permitam uma comparação entre os diferentes testemunhos, “o investigador busca estruturadas e regularidades nos dados e faz inferências com base nessas regularidades” (Coutinho, 2011, p. 193).

A análise na investigação qualitativa é essencialmente descritiva, esta “descrição deve ser rigorosa e resultar diretamente dos dados recolhidos” (Carmo & Ferreira, 1998, p. 180). Segundo Carmo e Ferreira se a descrição será a primeira etapa da analise de conteúdo e a interpretação a última, a inferência será “(…) o procedimento intermédio que permite a passagem, explícita e controlada, de uma à outra” (Carmo & Ferreira, 1998, p. 252). Através da inferência farei uma interpretação da informação recolhida pela técnica da entrevista, à medida que se vão recolhendo os testemunhos vão-se tentando identificar temas e relações (Alves, 1991).

“O objetivo último de qualquer análise de conteúdo é conseguir produzir inferências válidas e reprodutíveis a partir dos textos analisados” (Landry, 2003, p. 351). Ao proceder à análise de conteúdo da entrevista tentarei inferir a presença ou ausência de certas caraterísticas ou atributos, assim como a associação ou dissociação entre essas caraterísticas (Marconi & Lakatos, 1996), trata-se por isto de um método indutivo, através do desenvolvimento de categorias e conceitos tenta-se chegar à “(…) compreensão dos fenómenos a partir de padrões provenientes da recolha de dados” (Carmo & Ferreira, 1998, p. 179). Através da análise de informação recolhida tentarei comprovar uma ou mais das hipóteses de trabalho.

Apresentação e Análise dos Dados Recolhidos nas