Abarcam a linguagem e o estilo, ligados à fluidez, clareza e legibilidade do texto (smoothness), ao uso correto das convenções do género textual correspondente no sistema cultural de chegada e da adequabilidade das opções tradutórias ao propósito da tradução (tailoring), à adequabilidade do estilo de escrita, da terminologia e das fraseologias ao género textual (sub-language), à combinação das palavras e ao cumprimento das preferências retóricas da LC (idiom) e ao cumprimento das regras de gramática, ortografia e pontuação (mechanics).
5) smoothness:84
O quarto parâmetro designado por Mossop é a “fluidez”. Um texto é tanto mais fluido quanto mais permite ao público compreender a mensagem numa primeira leitura, feita a velocidade normal (Mossop 2014:142).
A fluidez de um texto pode ser contrariada pela má organização das estruturas frásicas, pela falta de relação entre as frases e pela alternância e seleção inapropriada dos tempos verbais. Para Mossop (2014:143), a falta de fluidez no TP não implica a mesma característica na tradução, cujo grau será determinado atendendo ao público e à função a que se destina.
Para o leitor que desconhece a LP, um aspeto que pode interferir com a fluidez é a presença de passagens nessa língua estrangeira, de que são exemplo citações, nomes de instituições e títulos de publicações.85 Face a este constrangimento, o revisor deve
certificar-se de que o tradutor reduziu a presença de itens estranhos à LC tanto quanto possível (Mossop 2014:143).
6) tailoring:
O parâmetro “personalização” reporta-se à adequação da tradução ao propósito com que é feita e ao público a que se dirige. Neste sentido, deve ser escrita num registo, grau de tecnicalidade e de formalidade, bem como vocabulário, apropriados (Mossop 2014:144).
Além disso, o uso que será feito da tradução pode ser diferente nos dois sistemas culturais. Outro cenário possível é o de os dois textos serem escritos para públicos com
84 Na literatura dedicada à tradução, o conceito de smoothness é, por vezes, definido pelo termo cohesion
(“coesão”), relacionado com a fluidez das palavras; por sua vez, o termo logic, que corresponde ao parâmetro 3 sugerido por Mossop, pode aparecer como coherence (“coerência”), respeitante à fluidez de ideias. Uma justificação para a seleção de termos diferentes feita por Mossop encontra-se na semelhança entre cohesion e coherence, que pode confundir o leitor (Mossop 2014:143).
85 A tradução de textos especializados para o leitor comum ou desconhecedor de alguns termos não é
aqui referida por Mossop. No caso dos textos das ciências da saúde, nomeadamente os destinados aos profissionais, podem registar-se termos especializados que não fazem, ainda, parte do conhecimento do leitor, por representarem neologismos terminológicos, regionalismos ou, inclusive, por o leitor não estar familiarizado com o tema do texto. Contudo, se estes possuírem raiz grega e/ou latina, serão, à partida, facilmente compreensíveis pelos profissionais.
As características da linguagem médica escrita, de que faz parte a terminologia de especialidade, encontram-se analisadas na 1.3, “Características Gerais”, da presente dissertação (páginas 14-21).
as mesmas características, mas com intenções diferentes, caso em que o revisor deve verificar se as adaptações necessárias foram feitas pelo tradutor.
7) sub-language:
De acordo com Mossop (2014:142), o parâmetro “sublinguagem”, juntamente com os dois anteriores (“fluidez” e “personalização”), define o “estilo” da tradução. Relaciona-se com os recursos lexicais, sintáticos e retóricos da LC característicos do tipo textual e da área do conhecimento a que pertence a tradução.
O autor em análise aconselha o revisor a atentar no uso de fraseologias e construções específicas (como a ocorrência de nominalizações e verbalizações) da língua de especialidade e do género textual em que a tradução se enquadra. No que ao léxico toca, atribui à terminologia de especialidade a maior preocupação do revisor, que deve certificar-se de que todos os termos estão conforme o indicado pelo cliente ou o que é expectável na LC (2014:144-145).
A este nível, Mossop (2014:145) informa que, caso o propósito da tradução seja meramente informativo, o cliente pode aceitar que o tradutor se centre na mensagem, relegando a terminologia para segundo plano.86 Neste caso, o mais importante não é
usar os termos equivalentes nas LP e LC mas, antes, transpor a mensagem veiculada pela primeira para a tradução. Além disso, refere ser comum o tradutor não se aperceber de que certa sequência de palavras no TP pode corresponder a um termo na língua de especialidade. Mossop (2014:145) defende, ainda, que o uso de termos e fraseologias deve ser evitado, caso não estejam de acordo com o contexto em que, normalmente, seriam usados.
86 Nestes casos, em que a função principal da tradução é informar, Mossop acredita que os especialistas
se preocupam mais com a mensagem transmitida pelo texto que com a terminologia usada. As suas palavras merecem destaque, pela relação que estabelece entre as preocupações do revisor e a forma de pensar do cliente/leitor: “Many revisers believe that subject-matter experts will be annoyed if they find anything other than the correct term in the translation. I think that in general this is not true. The subject- matter experts (…) are not ‘language people’ like us; (…) Experts tend to ‘read through’ language to the non-linguistic world in which they are interested. We should not project onto them our own interest in linguistic matters” (2014:145). A mensagem é, novamente, a de que o tipo de leitor e o propósito da tradução ditam a estratégia tradutória, nomeadamente os recursos de linguagem usados. Contudo, apesar de tal perspetiva ser aceitável, admite-se a possibilidade de risco ao generalizá-la, por não haver conhecimento da realidade exemplificada a uma escala universal.
8) idiom
O parâmetro “expressões idiomáticas” baseia-se na aceção de que, de todas as combinatórias lexicais possíveis, apenas um conjunto é usado.
Por vezes, os tradutores incorrem no uso de construções menos comuns, mas compreensíveis, baseadas nas do TP. Tais construções podem causar estranheza no leitor nativo da LC, fazendo-o questionar se a passagem em causa terá outro significado. Por esta razão, Mossop (2014:146) defende que o revisor deve ser, idealmente, nativo da LC.87
O autor explica, ainda, que mesmo após anos de experiência em tradução e revisão se pode duvidar sobre a idiomaticidade de certa expressão. O uso de dicionários e bases de dados onde se pode verificar a frequência da ocorrência dessa expressão é, neste caso, de grande utilidade para o profissional (Mossop 2014:146).
9) mechanics:
O último parâmetro do grupo “linguagem” denomina-se “mecanismos”. É centrado no cumprimento do(s) guia(s) de estilo especificado(s) para a tradução a rever. Dos erros que fazem parte deste parâmetro destacam-se, por exemplo, as convenções de pontuação e numerais, o espaçamento entre itens (por exemplo, entre numerais e unidades de medida), as aspas, os signos (por exemplo, o cifrão), a capitalização de palavras, o uso de itálicos, os negritos, os parêntesis e outros do género. Mossop (2014:147) enfatiza a atenção que deve ser prestada quanto à tradução de nomes próprios, títulos de publicações ou outros em que haja capitalização, pelo facto de o leitor poder ser induzido em erro. Com efeito, é possível que a tradução de títulos de publicações (ou de outros itens semelhantes) leve o leitor a pensar que os mesmos estão disponíveis na LC, mesmo não sendo essa a realidade.
87 A mesma tese é defendida por Vaz (2012).
Sobre a problemática da revisão nas áreas da saúde por não-nativos de língua inglesa, ver Melo (2015:36- 38).