2. THEORETICAL FRAMEWORK
2.3 The Nordic case: differentiated European integration and levels of corporatism 27
Além das discussões de caráter político já apresentadas, a década de 1930 compreendeu uma importante fase de internacionalização do Surrealismo. Segundo Nadeau (2008), foi a partir deste período que as ideias de Breton ultrapassaram as fronteiras da França, resultando na formação de grupos surrealistas em países como a Tchecoslováquia, Suíça, Inglaterra e Japão. Da mesma forma, a presença do líder do Surrealismo passou a ser frequentemente requisitada em congressos, conferências e entrevistas internacionais, ao mesmo tempo em que pessoas de inúmeras partes do mundo demonstravam interesse em colaborar com o movimento. A este respeito, pode-se considerar como fundamental a presença de Salvador Dalí que, após a saída de Louis Aragon, havia conferido um novo fôlego ao grupo, com seu método paranoico-crítico embasando a possibilidade de ação sobre os objetos. Cabe destacar também que, neste período, ocorreu a sistematização do conceito de acaso objetivo, a partir da escritura das obras Les Vases Communicants (1932) e O Amor
Louco (1937), de Breton – conceito que viria a ser um dos mais importantes no Surrealismo e que será explorado mais adiante.
No que diz respeito à política, os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foram marcados pela luta surrealista contra o fascismo e pela já mencionada criação da Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente (FIARI), em 1938.
No entanto, esta tentativa de Breton em mobilizar intelectuais e artistas revolucionários obteve malogro em virtude da irrupção da guerra, responsável por dispersar pelo mundo grande parte dos intelectuais e artistas europeus, inclusive o próprio Breton, que encontraria abrigo nos Estados Unidos. Neste ínterim, Breton rompe com Dalí no ano de 1939, por ocasião de seu apoio ao franquismo e de suas opiniões fascistas. Por conta de sua deslealdade para com os ideais surrealistas, em proveito de benefícios financeiros, Breton passou a chamá- lo de Avida Dollars.
Já nos Estados Unidos, Breton se exprime contrário à guerra e a favor da libertação da França em seu trabalho como locutor de rádio no programa Voice of America, pertencente à agência governamental The United States Office of War Information (OWI). Além disto, o escritor concede entrevistas e realiza conferências nas quais expõe o seu ponto de vista sobre política e sobre a situação do movimento surrealista. Em 1942 cria a revista VVV (triplo V), ao lado de Marcel Duchamp, Max Ernst e David Hare e também publica Prolegômenos a um
Terceiro Manifesto do Surrealismo ou Não, um manifesto mais brando do que os dois primeiros, no qual reafirma a posição revolucionária do Surrealismo:
É preciso não apenas que cesse a exploração do homem pelo homem, mas também que cesse a exploração do homem pelo pretenso “Deus”, de absurda e provocante memória. É preciso que se reveja, de alto a baixo, sem traços de hipocrisia e de um modo que já nada tenha de dilatório, o problema das relações do homem e da mulher. É preciso que, com armas e bagagens, o homem passe para o lado do homem. Basta de fraquezas, basta de infantilidades, basta de idéias de indignidade, basta de torpores, basta de parvoíces, basta de flores sobre os túmulos, basta de instrução cívica entre duas aulas de ginástica, basta de tolerância, basta de cobras! (BRETON, 2001, p. 341).
Além disto, este manifesto retoma a ideia – explorada pela primeira vez no texto
Limites non frontières du Surréalisme, de 1937 – que será a tônica do Surrealismo em suas três últimas décadas: a elaboração de um mito coletivo para a nossa época. Em Prolegômenos, Breton, refletindo sobre o postulado “não há sociedade sem um mito social”, expõe a necessidade de criação de um mito coletivo “[...] adequado à sociedade que julgamos desejável” (BRETON, 2001, p. 344). Segundo Löwy (2001), a noção de “novo mito” aparece pela primeira vez com o romântico alemão Schlegel, sendo convenientemente retomada pelos surrealistas em um período marcado pela perversão dos símbolos e dos mitos por parte do Terceiro Reich.
Considerando isto, Breton elabora, então, um mito ao qual dá o título de Os Grandes
racionalista, para ele, sempre pareceu “[...] compactuar com as mais estranhas complacências” (BRETON, 2001, p. 349) e, inspirado no fato de que Trotsky, espírito que considerava de alta envergadura, atribuía um verdadeiro sentimento de amizade ao seu cão, Breton passa a acreditar que não seria má ideia a criação de um mito que convencesse o homem de que ele não é o centro da criação, como costuma se vangloriar:
Talvez o homem não seja o centro, o ponto de mira do universo. Podemo-nos permitir a suposição de que, acima dele na escala animal, há seres cujo comportamento lhe é tão estranho quanto o seu pode ser para a efeméride ou a baleia. Nada se opõe, necessariamente, a que tais seres escapem de modo cabal a seu sistema de referências sensorial, graças a uma camuflagem da natureza que se quiser imaginar, mas cuja possibilidade é formulada unicamente pela teoria da forma e pelo estudo dos animais miméticos. Não há dúvida de que a esta ideia se oferece o mais amplo campo especulativo, embora ela tenda a colocar o homem nas mesmas modestas condições de interpretação de seu próprio universo que a criança que desfecha um ponta-pé num formigueiro e, em seguida, se compraz em interpretar uma formiga vista pela parte de baixo (BRETON, 2001, 350-351).
Consciente de que este mito daria ensejo a acusações de misticismo, Breton prossegue dizendo que estes seres, “os grandes transparentes”, se manifestariam obscuramente a nós no medo e no sentimento do acaso. O autor encerra seu raciocínio, então, citando concepções análogas às suas, encontradas em personalidades como o escritor e filósofo Novalis, o filósofo William James e o cientista e antigo diretor do Instituto Pasteur, Émile Duclaux.
Em 1944, Breton viaja para o Canadá, dando origem à obra intitulada Arcano 17. Embora a guerra tenha tido seu término em 1945, Breton retorna à França apenas em 1946, inaugurando, com isto, uma nova fase do movimento surrealista, que adquiriria contornos mais esotéricos. Sabe-se que o movimento de Breton sempre compreendeu um caráter mágico em suas crenças, caráter que pode ser comprovado por meio da análise de seus documentos. No entanto, com a escritura de Arcano 17 estes contornos serão cada vez mais acentuados, principalmente após o enriquecimento cultural obtido em viagens realizadas pelo autor em países como o Haiti e a Martinica, além de territórios indígenas norte-americanos como os estados do Arizona e Novo México e de sua leitura mais atenta às ideias de associação universal de Charles Fourier.
Após o retorno à França, os surrealistas não conseguiram durante dois anos os recursos necessários para o financiamento de uma publicação coletiva – viriam a conseguir apenas no ano de 1947, por ocasião de uma exposição internacional realizada na galeria Maeght. A partir disto surgiriam ao longo de sua existência diversos órgãos oficiais: Néon, de 1947 até
1949; Médium, de 1952 até 1955; Le Surréalisme, Même, de 1955 até 1959; Bief, de 1958 até 1960; La Brèche, de 1961 até 1965 e L’Archibras, após a morte de Breton, de 1967 até 1969.
Segundo Chénieux-Gendron (1992), no que diz respeito à atividade surrealista em si, o movimento não sofreu nenhuma modificação teórica importante durante este período. Na fase final de sua obra, Breton corrige e republica muitos de seus textos, sua morte ocorre em setembro de 1966. Mesmo com o falecimento de Breton, o grupo surrealista prosseguiu com suas atividades, discutindo questões políticas, produzindo suas obras e publicando seus textos até o ano de 1969, quando Jean Schuster anunciaria num artigo intitulado Le quatrième chant, publicado no jornal Le Monde, a dissolução do grupo surrealista.