Este ator é um dos mais próximos a Luzia. Trata-se de um amigo fiel e par romântico de Luzia na trama, o qual ocupa também o papel actancial, uma vez que, dentre outras coisas, ajuda Luzia a cuidar da mãe doente.
Ao acompanharmos sua descrição ao longo da narrativa, percebemos que o papel temático-figurativo desempenhado por Alexandre é o de homem virtuoso, em que, mediante uma debreagem enunciativa, Teresinha fala a Luzia sobre Alexandre:
- Olhe, minha camarada, procurando com uma vela acesa, não encontrará homem de bem igual a ele. É pessoa de consideração e procedente de boa família. Dizem que deixou moradas de casa e uma fazenda nos Crateús; mas essa desgraça da seca acabou com tudo e o obrigou a andar trabalhando para arranjar um bocado para comer ... (OLÍMPIO, 2003, p. 32).
Luzia percebia a dedicação e o bom caráter de Alexandre. Na embreagem a seguir, em que as vozes de Luzia e a do narrador se confundem momentaneamente, pode-se verificar essa consciência de Luzia quanto ao papel actancial de adjuvante que Alexandre desempenha no percurso narrativo dela:
Por fortuna sua, Alexandre, o amigo dedicado e afetuoso, que se lhe deparara entre a multidão de desconhecidos e indiferentes, moço de maneiras brandas, muito paciente, muito carinhoso, com a tia Zefa, passando serões, noites em claro junto dela e da filha, num recato de adoração muda e casta, lhe poupava o vexame de ir à cidade: era ele que ia ao mercado comprar a quarta de carne fresca para o caldo da enferma, os remédios e consultar o médico, mister em que era auxiliado pelo Raulino, outro amigo da família. (OLÍMPIO, 2003, p. 27).
Na passagem abaixo, evidencia-se o caráter de Alexandre atestado pela defesa de Quinotinha contra o assédio de Crapiúna, ocasião em que os dois universos axiológicos são postos frente a frente, em que os valores euforizados por Alexandre, como a virtude, o respeito e a coragem, entram em conflito com o poder opressor exercido por Crapiúna, desvinculado da moralidade, cuja manifestação dessa falta de vínculo ocorre mediante o relato do assédio de Quinotinha realizado pelo soldado:
Estávamos na casa da Comissão: eu no meu lugar fazendo a relação da gente que era demais; ele, numa reinação, intimando com as mulheres. Chegou a Quinotinha em procura da ração do pai, que desmentira um pé; e o desaforado entrou a bulir com ela até fazê-la chorar. Aquilo foi me inchando no coração; perdi a paciência, e não me pude conter. Meti os pés; cresci pra cima do cabra, e disse-lhe por aqui assim: "Se o senhor não respeita a farda para provocar uma menina inocente, há de respeitar um homem!..." Ele estremeceu; quis se endireitar pra mim, mas eu não o deixei esfriar, e acrescentei: "Uma pouca vergonha que a gente não se atreve... Tamanho homem e, de mais a mais, soldado, andar aqui todos os dias, que Deus dá, com desaforos, até com meninas donzelas! Fique sabendo que não me mete medo; não me vou queixar ao sargento Carneviva, nem ao Comandante!..." O mulherio abriu em roda; e o Crapiúna, vendo que eu estava decidido para o que desse e viesse, murchou; ficou fulo de raiva e foi saindo, lá ele, por estas palavras: "Está bom! Não quero baticum de boca comigo..." E o povaréu caiu em cima dele com dictérios que faziam uma zoada doida: - Olha o valentão!... Meteu o rabo entre as pernas!... Cabra frouxo! (OLÍMPIO, 2003, pp. 38 e 39).
Na passagem acima, os universos de valores de Alexandre e Crapiúna são confrontados na medida em que Alexandre associa ao soldado temas e figuras não manifestadas por Crapiúna, tais como “respeitar a farda”, que figurativiza, por um lado, o dever fazer por parte do soldado para preservar a ordem naquela sociedade, do qual deriva, e, por outro lado, o
não poder fazer, relativo a determinadas atitudes que iriam contra a ordem que o soldado deveria preservar. Dessa maneira, Alexandre enfatiza aquilo que, segundo ele, um soldado que respeita a farda não deveria fazer e demonstra a falta de integridade moral por parte do soldado que assedia e constrange donzelas, conforme o trecho retirado da passagem acima: “Uma pouca
vergonha que a gente não se atreve... Tamanho homem e, de mais a mais, soldado, andar aqui
todos os dias, que Deus dá, com desaforos, até com meninas donzelas” (p. 39).
Assim como a de Teresinha, a paixão de Alexandre – “amigo dedicado e afetuoso” (ver passagem acima) – é a do zelo, caracterizado pela dedicação e pela intensa afeição do amigo em relação à Luzia, e pode ser constatada mediante a observação da debragem enunciativa por meio da qual demonstra sua devoção à Luzia:
- Que rumo tomarei, Luzia, senão o seu? Para onde for, hei de acompanhá-la como a minha estrela, a minha guia, segui-la como o cachorro vai atrás do dono que o abandonou e o despreza. Se eu entulho o seu caminho, se quer ver-se livre de mim, não me tire daqui; não empregue mal os seus passos... (OLÍMPIO, 2003, p. 93).
Quanto aos temas e figuras mobilizadas para a construção de um simulacro de Luzia por Alexandre, é necessário, primeiramente, que observemos a passagem a seguir, por meio da qual ele, debreado enunciativamente, relembra como conheceu Luzia:
- ...Estava maginando nisso, em me afastar da terra da sepultura, onde descansava a minha defunta velhinha, quando topei com você, sa Luzia, servindo no trabalho da cadeia. Por sinal que, nessa ocasião, lembra-se? a maltratavam. Era uma canzoada de mulheres e meninos, gritando: Olha a Luzia-Homem, a macho e fêmea! O povo todo corria de morro baixo e eu também fui ver o que era. Você vinha subindo, trazendo nos braços Raulino Uchoa, quase morto, ensanguentado e coberto de poeira. Contou- me, então, o Antônio Sieba, pai daquela moça bonita, que canta como um canário, o que se havia passado. O Raulino apostara derribar, a toda a carreira, um boi pelo rabo. Na verdade o homem corria como um veado e, era pegar na saia da rês e virá-la, na poeira, de pernas para o ar; mas, naquele dia, foi caipora; falseou-lhe o pé; o boi voltou-se como um gato e mataria o pobre diabo se, dentre o povo, que disparava espantado, não surgisse uma moça afoita e destemida que agarrou o bicho pelas galhadas e o sujicou que nem um cabrito.
- Não valia a pena lembrar isso.
- O capitão João Braga, aquele coração de oiro, mandou recolher o ferido à casa da administração; e, voltando-se para mim, disse-me: Seu Alexandre aliste esta moça para trabalhar e dê-lhe cinco mil réis como molhadura pelo ato de coragem. Você não quis receber o dinheiro. Ficou até meia estomagada...
- Por força ... Eu não devia receber pagamento pelo que fiz por caridade.
- Eu tomei por soberba. Cem anos que viva, terei sempre diante dos olhos e do pensamento, a sua figura, de cabelos soltos, rompendo a multidão, com o Raulino nos braços, como se fora uma criança. Lembrava-me um registo do Anjo da Guarda, levando a alma de um inocente para o céu.
Luzia ouvia-o complacente e admirada, porque Alexandre, de ordinário tão retraído e acanhado, estava, nesse dia, expansivo, e loquaz.
- Desde, então – continuou ele – não pensei mais em assentar praça, nem abandonar esta terra. Quando sube que tinha mãe e conheci a tia Zefinha, meu coração se abriu consolado, como se houvesse ressuscitado a minha defunta mãe, que Deus haja em glória. (OLÍMPIO, 2003, pp. 37 e 38).
A partir da passagem acima, pode-se perceber que o primeiro contato de Alexandre com Luzia é pela voz das pessoas que a chamam “Luzia-Homem” e “a macho e fêmea”. Alexandre sanciona negativamente essa forma de tratamento por julgá-la ofensiva, de mau gosto e quiçá cruel. Apesar de tê-la visto carregando Raulino nos braços, Alexandre não associa
o fato, que naturalmente implica força extraordinária, a uma possível natureza masculina de Luzia. Pelo contrário, Alexandre evoca uma figura feminina e maternal “de cabelos soltos,
rompendo a multidão, com Raulino nos braços como se fora uma criança”. Em seguida,
Alexandre atribui à Luzia a figura “Anjo da Guarda”, sancionando assim positivamente a competência de Luzia para subjugar um boi e assim salvar Raulino.
Ao mesmo tempo, associadas à feminilidade, temos as seguintes figuras: “moça”,
“cabelos soltos”; enquanto que, associadas ao tema coragem, aparecem figuras como: “afoita e destemida”, “ato de coragem” que, aparentemente, não remetem à masculinidade ou à
feminilidade.
No fragmento da página 28 (OLÍMPIO, 2003), “- Não seria a primeira vez ... Não sou nada seu, mas sou um homem capaz de jogar a vida em defesa de uma mulher de bem.
Pensei que não se agravaria comigo...”, verificamos que mesmo com tamanha demonstração de
força dada por Luzia, o simulacro construído por Alexandre é o de uma mulher virtuosa e passível de ser defendida contra o assédio de Crapiúna.
Desse modo, o simulacro de Luzia construído por Alexandre é predominantemente feminino, e a figura que poderia evocar o tema da força, associado até então à masculinidade, convoca o tema da coragem, que pode ser discursivizado mediante o uso de figuras neutras, que podem ser associadas tanto à masculinidade quanto à feminilidade e cujo valor não é determinado por essas associações. Assim, Luzia é sancionada não por sua força, mas pela sua coragem, o que faz com que o simulacro de Luzia seja euforizado por Alexandre.
O processo identitário que marca as relações entre Alexandre e Luzia é o de assimilação, que tem como maior figura a mãe de Luzia, Tia Zefa, porque Alexandre a identifica com a própria mãe.
Abaixo, apresentamos a síntese das relações estabelecidas entre Luzia e Alexandre:
Quadro 12 – Síntese descritiva: Alexandre
Papel actancial de
Alexandre: Destinador-julgador e adjuvante
Papel temático-figurativo
de Alexandre: Homem virtuoso
Paixão(ões) de Alexandre: Zelo (querer fazer) Processo identitário de
Alexandre: Assimilação
Figuras que definem Luzia para Alexandre:
“mulher de bem”, “moça”, “cabelos soltos”, “afoita e destemida”, “ato de coragem”
Temas que definem Luzia para Alexandre:
Forma física (feminilidade), coragem (neutro), integridade moral
Simulacro de Luzia para
Estatuto fórico do simulacro de Luzia para o ator:
Eufórico Estatuto veridictório de
Luzia para o ator: Verdade
Após a análise de Alexandre, seguiremos com a observação do ator Raulino, amigo de Luzia e Alexandre, sobre cujas relações nos debruçamos a partir de agora.