Desde que iniciamos a pesquisa, os primeiros encontros e diálogos com a equipe gestora foram relatados em diários de campo, bem como a vivência na sala dos professores, permitida pela equipe. Em datas pré-estabelecidas foram realizadas as entrevistas com a prévia assinatura dos termos de consentimento pelos docentes. O período em que utilizamos a observação foi entre setembro de 2012 e dezembro de 2012. No caso desta pesquisa, a observação ocorria durante as minhas visitas à escola, em alguns ATPCs - Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo e em reuniões com a direção e coordenação.
Para um melhor reconhecimento dos sujeitos da pesquisa, ou seja, dos professores, utilizamos também um formulário como instrumento de caracterização dos sujeitos (ver apêndice 1) para conhecer, de uma forma geral, o gênero, faixa etária, escolaridade, formação, anos de docência, regime de trabalho entre outros aspectos de igual importância para sua caracterização. Os formulários foram respondidos nos dias em que ocorriam as entrevistas individuais. Estas entrevistas foram realizadas entre outubro e dezembro de 2012. Todas foram gravadas após a obtenção da autorização de cada participante. Posteriormente foram transcritas por mim, autora da tese. O processo de transcrição dos dados coletados em entrevistas foi significativo para uma primeira análise parcial da perspectiva dos professores e apropriação de seus possíveis significados.
No final de 2013, após analisarmos os dados coletados nestas entrevistas, sentimos a necessidade de voltar a campo para dialogar com os professores no sentido de compreender melhor algumas perspectivas que foram recorrentes nas falas dos sujeitos entrevistados. Pensamos em um encontro com os professores logo no início do ano letivo, em 2014, que tivesse, além do objetivo de levantamento de novos dados, um viés informativo. Projetamos, portanto, um diálogo com os professores, no período de planejamento anual antecedida por uma apresentação minha, com o objetivo de apresentar aos professores e gestores a estrutura
do “Novo ENEM” e sua relação com o SiSU. Nossa intenção era que esta apresentação permitisse aos professores apropriarem-se de informações sobre as possibilidades que o ENEM abre de ingresso às universidades públicas. Esta intenção justifica-se pela nossa percepção de que os professores demandam conhecer melhor a política que envolve o ENEM para dialogar com seus alunos encontrando sentido nesta avaliação. Acreditamos também que, tendo acesso a informações sobre as possibilidades de um aluno de baixa renda realizar satisfatoriamente um curso em universidade pública, os professores podem assumir um papel muito importante na vida de seus alunos.
Em seguida, apresentaríamos os conceitos de competências, habilidades, contextualização e interdisciplinaridade, “conceitos-chave” do ENEM na tentativa de dialogar com os professores e revermos o que o grupo docente em geral da escola pensa sobre eles. Novamente houve receptividade por parte da coordenação, que atendeu aos telefonemas para agendamento da minha visita e recebeu a pesquisadora no dia 7 de março de 2014, sem impor nenhum obstáculo ou condição para a realização do encontro com os professores. Este ocorreu no dia do planejamento escolar anual.
As questões e tópicos que subsidiaram esse encontro foram expostos em slides e estão aqui reproduzidas:
Figura 1: Slide para apresentação I
Figura 2: Slide para apresentação II O que a gente conhece sobre o ENEM?
• Competências, Habilidades, Contextualização, Interdisciplinaridade... • “Pedagogia da Competência”: base das DCNEM/98 (sujeitos adaptáveis) • Novas DCNEM/2012 (sujeitos autônomos)
• Que sujeito queremos formar no ensino médio? Aquele somente capaz de superar ENEM?
ENEM e os Professores • Qual a função do ensino médio?
• Como “preparar” os alunos para o ENEM? • O que falta na escola?
• Como deveria ser a relação políticas educacionais/professores?
• Vocês estão inseridos no “Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio”?
Neste encontro com os professores, mesmo sendo um momento de coleta de dados, não houve gravação de áudio. Temíamos intimidar ou constranger os participantes. Porém, registrei minhas observações em diário de campo logo após a finalização do encontro. Em uma delas afirmo:
Eu estava ansiosa, um pouco nervosa porque não sabia muito bem o que me esperava, não conhecia todos os professores, eu só conhecia aqueles que eu havia entrevistado em 2012. A coordenadora foi muito receptiva e eu senti uma energia boa, não senti resistência nos professores, eles foram bem simpáticos. E por incrível que pareça, assim que eu comecei a falar, me apresentei para os professores, me senti muito à vontade e o ambiente estava bem acolhedor (Diário de Campo da Pesquisadora).
E assim ocorreu a minha apresentação:
Eu comecei então falando um pouco da minha formação, da minha trajetória na Universidade, como pesquisadora, falei um pouco da pesquisa de mestrado, falei da minha pesquisa de doutorado e falei porque eu estava ali. Falei que eu sentia essa necessidade de dar um retorno para a escola que me possibilitou realizar as entrevistas. Então eu falei que sentia a necessidade de passar essas informações pra eles pra que eles dialogassem com os alunos transmitindo essas informações sobre o SiSU, sobre o ProUni, sobre as políticas de assistência estudantil na Universidade. Assim, o primeiro bloco desse encontro, na verdade se resumiu a essa “transferência” de informações sobre o ENEM e a política de acesso à Universidade que envolve (Diário de Campo da Pesquisadora).
Estavam presentes, segundo a orientadora pedagógica, um pouco mais da metade dos professores que atuam no ensino médio. Dois deles já haviam participado da pesquisa como sujeitos entrevistados, além da coordenadora. Foi uma vivência especial dialogar com os professores com o olhar atento para suas falas, posicionamentos e anseios.
A minha ideia com esse encontro era voltar à escola que me permitiu realizar as entrevistas. Porque eu sinto que o pesquisador tem que ter essa relação recíproca com a escola onde ele coleta os dados. Porque se não fica uma coisa muito fria, o pesquisador vai, coleta os dados, vai embora e nunca mais volta, não traz retorno. Eu acho que por esse lado foi muito válida. Porque eu vi que os professores gostaram dessas informações, agradeceram e eu vi que isso gerou um debate, que é debate que eles procuram e que eles dizem fazer falta no dia a dia da escola quando eles ficam perdidos com as atividades burocráticas (Diário de Campo da Pesquisadora).
Em geral, as informações que transmiti focaram o Novo ENEM, o SiSU e as políticas de assistência estudantil da UFSCar. E o diálogo com os professores ocorreu a partir de temas aleatórios que perpassam os tópicos destacados das figuras acima. Enfim, os demais
dados registrados a partir deste encontro serão analisados conjuntamente às entrevistas no capítulo 5.