As primeiras discussões sobre turismo comunitário em regiões isoladas na América Latina são datadas por volta dos anos 80 (MALDONADO, 2009). No Brasil, essa discussão ganha impulso em meados dos anos 90, quando um movimento de pesquisadores de diferentes inserções do país levou esse debate para o Encontro Nacional de Turismo de Base Local (ENTBL), que apresentou uma vívida demanda por fóruns dessa natureza e viabilizou a consolidação de redes não formais de pesquisas (HALLACK; BURGOS; CARNEIRO, 2011).
Segundo Irving (2009), fatores como a interpretação política do turismo como uma alternativa para a inclusão social, o fortalecimento de temas como a participação social e a governança democrática, a inclusão do turismo nas pautas de ONGs de alcance internacional e uma ressignificação do turismo, como a mudança sutil no perfil de turistas conectados progressivamente com os temas da responsabilidade social e ambiental, dando maior visibilidade a destinos turísticos menos convencionais, foram cruciais para ascendência do debate do TBC no Brasil.
Nos burburinhos da TBC no país, surge a Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário - TURISOL. Iniciada em 2003 a partir da articulação de um pequeno grupo de 07 iniciativas de turismo comunitário brasileiras que, com apoio da Embaixada da França no Brasil, participaram do Fórum Internacional de Turismo Solidário – FITS em Marselha, a rede contribuiu fortemente para manter o debate do TBC ativo no Brasil.
No ano de 2008, outro fato foi marcante para história do Turismo de Base Comunitária no país. O Ministério do Turismo passou a reconhecer institucionalmente a existência do Turismo de Base Comunitária, ao publicar um edital para fomento dessas atividades (SANSOLO; BURSZTYN, 2009). Para Bursztyn e Bartholo (2012), o lançamento do edital de apoio a iniciativas de TBC pode ser considerado um importante marco para um início de política pública voltada para a estruturação e fortalecimento do TBC no Brasil.
A expectativa inicial pelo recebimento de 100 a 150 projetos foi amplamente superada. Foram recebidos mais de 500 projetos de todas as unidades da federação demonstrando a diversidade e abrangência do TBC no Brasil. Assim, a perspectiva inicial de selecionar de 10 a 15 projetos foi ampliada para 50, divididos em dois anos. (MTUR, 2010).
Uma das principais características dos projetos de TBC observados a partir do edital, é a diversidade das ações em termos geográficos, de organização, de demanda turística, de escala da atividade, de oferta de serviços e produtos, de apropriação dos benefícios da atividade turística, entre outros. Esse fato possibilitou o Ministério do Turismo (2010)
identificar os principais tipos de TBC desenvolvidos no Brasil, indicados no Apêndice A. Observando o Apêndice A, é possível notar a variedade de projetos de TBC, de norte a sul do Brasil. Muitas dessas iniciativas se tornaram casos de sucesso.
Um bom exemplo é o TBC da Vila do Aventureiro, apresentado no estudo realizado por Mendonça e Moraes (2016). A vila está localizada na Ilha Grande, que é a segunda maior ilha oceânica brasileira (193 km²), um dos maiores patrimônios naturais do Rio de Janeiro e um dos últimos locais preservados de Mata Atlântica. Durante anos, as comunidades localizadas na região se sustentavam com base na agricultura e na atividade pesqueira.
Dentre os vários impasses que afetaram a economia da região, a criação de duas unidades de conservação da natureza (Reserva Biológica da Praia do Sul - RBPS e o Parque Estadual Marinho do Aventureiro – PEMA, em 1990), foram umas das mais representativas. Isso porque as reservas biológicas impediam os moradores de explorarem os recursos naturais e consequentemente privavam esses moradores de realizarem as atividades de subsistência que praticavam há gerações. Com isso, o turismo se mostrou como a única alternativa econômica para a sobrevivência (MENDONÇA; MORAES, 2016).
A comunidade se apropriou da ideia e criou toda uma estrutura para aportar um formato de turismo diferenciado. Como resultado, o turismo no Aventureiro se baseia em uma cadeia produtiva caracterizada por empreendimentos comunitários, uma estrutura de campings nos quintais, aluguel de quartos, casas e bares anexos às casas dão o tom domiciliar aos empreendimentos.
Além disso, alguns moradores oferecem sua estrutura domiciliar aos visitantes. Os dois ambientes, muitas vezes, se mesclam: o modo doméstico de receber (incluindo o modo de vida cotidiano na residência) e o modo comercial, na relação entre hóspede, baseado na troca monetária. Essa relação acaba, por vezes, na criação de laços de amizade entre os atores do turismo.
No ano de 2010, o TBC na Vila do Aventureiro funcionava com avidez e a comunidade estava sempre ativa no sentido de buscar melhorar os serviços oferecidos e ter voz nas relações entre o povoado e as instituições públicas e ambientais da área. É importante destacar que, 65% dos empreendimentos ligados ao turismo são de posse e gestão de moradores nativos. Não há dúvidas, portanto, que a renda gerada a partir do Turismo de Base Comunitária conseguiu revolucionar a economia local (MENDONÇA; MORAES, 2016).
A maneira que TBC foi utilizado para reavivar a economia local, como no caso demonstrado acima, faz-se presente em vários locais do Brasil. Essa recente abertura da temática para discussão, recai no fato de que ainda existe um caminho extenso principalmente
no que tange ao monitoramento dessas práticas. Embora os casos de sucesso sejam aparentes, verificar o insucesso de algumas iniciativas fornecerá indicadores que poderão se reverter em apoio e formulação de estratégias para esses ambientes.
Assim, o reconhecimento do Turismo de Base comunitária como fenômeno social e econômico que merece atenção do poder público, requer conhecimento prático e teórico sobre o tema (MTUR, 2010). Este conhecimento é fundamental para subsidiar a formulação de políticas que atendam efetivamente os protagonistas da oferta de produtos e serviços de TBC. Buscando agregar discussões estabelecidas até então, destacando os princípios do Turismo de Base Comunitária, o tópico seguinte discutirá sobre a justiça distributiva nos sistemas de marketing do turismo.
2.2.3 Considerações finais acerca do referencial teórico: Justiça distributiva no sistema