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A feição intercambista da Mocidade Portuguesa, não se perdendo em absoluto no ambiente de guerra, seguiu novas linhas de orientação diplomática, à luz do reposicionamento nela operado. Mais raras e contidas, as viagens oficiais da MP pretenderam antes exprimir a solidez dos seus ideais doutrinários e traduzir a normalidade com que se vivia em Portugal, no quadro do célebre “viver habitualmente” de Salazar, do que encetar novas linhas pedagógicas no exterior. A imprevisibilidade do conflito e a neutralidade do regime no conflito internacional ditavam esta cautela, evitando sinais de colaboracionismo activo da organização oficial de juventude. Tradutora destas precauções é a correspondência concentrada em torno de Marcelo Caetano respeitante a convites mais ou menos arriscados para o consulado juvenil. No clima de propaganda interna, Portugal era um canto de paz no mundo em guerra e a Mocidade Portuguesa imagem central desse quadro.

A juventude hitleriana, parceiro preferencial na troca de contactos com a MP até 1939, não deixou de experimentar algumas aproximações ao novo Comissariado, apesar do apagamento de eventuais decalques, tantas vezes denunciados. Mas os tempos eram outros e, se nem a eclosão da guerra, nem a transição administrativa da MP inibiram os dirigentes da HJ de insistir em visitar Portugal, a verdade é que essas viagens agendadas foram sendo subtilmente canceladas ou proteladas para tempo incerto.422

Até meados de 1940, a guerra mundial era ainda um episódio distante da realidade portuguesa. Mas os progressos militares alemães no centro da Europa fizeram crescer o receio interno, acentuando-se o clima inquietante com a capitulação dos Países Baixos frente à Alemanha

421

Cf. ANTT/ Arquivo da Junta Nacional de Educação. Conselho Permanente da Acção Educativa. 1938-1945. Acta da 174.ª Sessão do CPAE, de 7 de Novembro de 1939. Esta directiva foi novamente comunicada em Dezembro de 1941, desta vez sublinhando que não fossem incluídos como candidatos ao prémio os alunos não filiados na MP.

422

Um exemplo de encontro cancelado deu-se em Outubro de 1941, pelo adiamento sine die de uma visita a Portugal anunciada pela Juventude alemã. No programa de actividades estava um festival, exibições de ginástica e um espectáculo musical, a realizar no Teatro Nacional ou nos liceus Pedro Nunes e Maria Amália Vaz de Carvalho. A viagem foi anulada alguns dias antes. Cf. AHME. Direcção Geral do Ensino Liceal. Diversos. Cx. 2315. Ofício n.º 156/D, de 17 de Outubro de 1941, enviado por Joaquim Gomes Marques, Delegado Provincial da Estremadura, ao Director Geral do Ensino Liceal, A.A. Rilley da Motta.

e, sobretudo, com a queda da França, ocupada pelas tropas do Reich em Junho desse ano. A Itália declarou-se então beligerante e o Eixo, fortalecido, fazia crer na vitória. A dominar as preocupações de Salazar, estavam, acima de tudo, as pretensões imperialistas de Franco e o consequente interesse da Espanha em entrar no conflito a favor de Hitler e numa possível invasão do território português. Apesar da neutralidade inicialmente declarada, o regime franquista iria ensaiar a aproximação aos alemães, só a abandonando definitivamente com a viragem germânica para a frente de Leste, que faria cair no esquecimento os planos de ocupação da Península Ibérica.

Estava então na hora de renovar a lista de contactos da Mocidade Portuguesa e manter as devidas reservas nas relações com outras organizações milicianas. A escolha mais inócua passou pela França de Pétain, inspirada na MP para organizar, com a devida distância, as juventudes nacionais.

Os jovens do Marechal – Pétain e a juventude de Vichy

Na Primavera de 1940 desenrolou-se um dos períodos mais dramáticos da história francesa. A 14 de Junho, as tropas alemãs desfilaram pelas ruas de Paris, saboreando a marcha vitoriosa sobre a mais antiga República europeia. Se a invasão nazi se traduziu para o mundo no perigo do expansionismo fascista, para a França significou a divisão nacional, entre colaboracionistas e resistentes, desencadeada pela humilhante ocupação germânica. Estabelecendo o governo alinhado com o Reich em Vichy, o marechal Philipe Pétain, um octogenário antigo combatente da Grande Guerra que travara o avanço alemão em Verdun, ocupou a chefia da França colaborante e anunciou uma “Nova Ordem”.

Pela voz pétainista, esta nova ordem proclamava-se única, distante de imitações servis de

experiências estrangeiras, era uma necessidade original e tipicamente francesa.423 Na fonte de alimentação desta “revolução nacional”, encontrava-se mais a inspiração em Salazar do que a influência nacional-socialista. Inspiração essa que se tornou mais palpável quando chamou a si, como retórica própria, a missão educadora do Estado sobre a juventude, para “revigorar a raça” e perpetuar a tradição, enfim, para retomar o verdadeiro rumo da história francesa, do ponto em que a revolução jacobina a interrompera. Embora a França de Vichy não tenha promovido uma organização única para a juventude, dadas as circunstâncias particulares em que se formou aquele governo e a sua brevidade no poder, certo é que privilegiou a Mocidade Portuguesa como modelo educativo a seguir e candidato preferencial à troca de influências. A Escola de Pétain não se queria demasiado instrutiva, sobrepondo à excessiva e perigosa intelectualidade, o ensino prático e mais elementar. À Igreja reconheceu-se o papel educativo da juventude, que a República usurpara. A

423

Tradução nossa do original em francês. GIOLITTO, Pierre, Histoire de la Jeunesse sous Vichy, Perrin, France, 1991, p.13.

renovação da raça dependia da “revolução do corpo” e o desporto foi acolhido como instrumento essencial de formação da nova mentalidade. Pressionada pelos grupos mais fascizantes de Paris, a política de juventude francesa recusou, porém, o totalitarismo educativo, optando pela divisa “juventude unida” sobre o princípio da “juventude única”.424 A solução francesa, sobretudo a partir de 1941, seguiu a “liberdade vigiada” ao concentrar os movimentos escutistas e religiosos sob alçada do Secretariado de Juventude, só poupando os movimentos da Acção Católica. Absorvendo lentamente todas as associações educativas e recreativas, a França de Pétain mostrou-se

tendencialmente totalitária, ao experimentar pela primeira vez agregar a juventude num só

movimento, mas falharia redondamente. Conseguiria, no entanto, constituir organizações específicas de enquadramento, sob os mesmos tópicos de educação moral e cívica, integrada no princípio “Família, Raça, Nação”.

Conhecida pela França ocupada, a organização portuguesa foi ganhando maior interesse, sobretudo entre os dirigentes das unidades franco-marroquinas de juventude. Em finais de 1941, o Instituto Francês em Portugal publicou um estudo de Hubert Beuve-Méry sobre a Mocidade Portuguesa, enfatizando a originalidade do sistema português, assente num Estado autoritário mas

não totalitário, cristão nos seus princípios mas não confessional e menos ainda clerical, nacionalista e imperial mas não agressivo e aberto, na medida do possível, à colaboração internacional.425 Na mesma esta altura, os representantes da Jeunesse francesa entabularam relações

com os serviços de Intercâmbio da Mocidade Portuguesa, anunciando o interesse em estudar os métodos de educação física da organização, através de um professor do Liceu Francês, representante das juventudes de Vichy em Portugal.426

A troca de visitas concentrou-se sobretudo no território marroquino dominado pelo regime de Vichy. Os contactos encetados, a pretexto da realização de campeonatos entre as duas juventudes, foram bem recebidos pela MP, estimulando as relações amigáveis entre Marcelo Caetano e Jacques Faure (Chefe do Serviço de Juventude e Desportos no Protectorado francês de Marrocos), dos poucos que permaneceriam durante as hostilidades.

As “juventudes”de Espanha

Em viagem a Espanha em 1940, Celestino Marques Pereira estudou de perto a actividade do Sindicato Espanhol Universitário (SEU), organização dependente da Falange, criada a 21 de Novembro de 1933. Na visita do director dos serviços de Educação Física da MP mereceu especial

424

Ibidem, p. 92 e sgs e p. 434 e sgs.

425

Tradução nossa do original em francês. MERY, Hubert Beuve, La Jeunesse Portugaise (Mocidade Portuguesa), Institut Français au Portugal, Lisbonne, 1941, p.5.

426

Cf. ANTT/AMP. Cx. 1102 mç. 1. Cópia de carta de 2 de Novembro de 1941, enviada por Pierre Hourcade, Director do Instituto Francês em Portugal, a Francisco Leite Pinto, Director dos Serviços de Intercâmbio da Mocidade Portuguesa.

atenção a milícia que integrava o SEU, definida como organização claramente para-militar, com

tradição de luta e guerra. Os universitários falangistas ali concentrados tinham sido apoiantes de

primeira hora a Franco na insurreição de 1936 e braço armado fundamental a favor dos nacionalistas durante a Guerra Civil. Findo o conflito, conservaram o estatuto miliciano enquanto (...) força com que conta o partido, como uma fonte certa de preparação de oficiais de reserva.427 A estrutura marcadamente partidária e militarizada do organismo espanhol levantou desconfianças junto da administração da juventude portuguesa, mais acentuadas enquanto perdurou a ameaça à neutralidade peninsular, face ao receio pela participação franquista no conflito mundial do lado alemão. Marques Pereira demarcava por isso os fins da Milícia da MP das funções reais do SEU, reforçando as funções que regiam a instrução do último escalão, como sendo antes de mais (...) de

ordem formativa das suas qualidades físicas, do seu carácter, dos seus sentimentos patrióticos 428

mencionando mesmo o recurso a exercícios praticados no escutismo para a formação pré-militar da MP. Apesar das reservas apontadas, era aconselhado o reforço do intercâmbio inter-juventudes.

Alguns meses depois desta viagem, foi nomeado representante da Mocidade Portuguesa junto do Sindicato Espanhol Universitário José Manuel da Costa, director adjunto dos Serviços de Intercâmbio.429 As impressões do enviado da organização, em Abril de 1941, recomendavam o refreamento de contactos, justificando que (...) o ambiente em Espanha a respeito de Portugal não

merece de nossa parte a contrapartida das habituais amabilidades e das fraternas simpatias...430

José Manuel da Costa alertava ainda para a ideia (...) alimentada por alguns visitantes oficiais de

Portugal, de que a “M.P.” representa o tipo dos “buenos muchachos”, sem grande valor social e político e sem qualquer entusiasmo revolucionário! A proposta então lançada do lado espanhol, em

favor do intercâmbio de filiados e publicações, ficaria em suspenso deste lado da fronteira, considerando que (...) muito se modificou na Espanha o ambiente sobre Portugal; diluiu-se

gratidão, aumentou a desconfiança na política interna e sobretudo na externa, desenvolveu-se animosidade deliberadamente alimentada por cima (...). 431

427

ANTT/AMP. Direcção do Serviços de Educação Física e Desportos. Relatórios Diversos (1943-1949). cx. 1134 - mç.1. “Relatório da Missão Oficial de Estudo a Espanha do Tenente Celestino B. Feliciano Marques Pereira” de 14 de Dezembro de 1940, elaborado por Celestino Marques Pereira.

428

Ibidem.

429

José Manuel da Costa (1904-1983). Licenciado em Direito e Filologia, foi professor do Liceu, chefe de gabinete do ministro Carneiro Pacheco, inspector do Ensino Particular e chefe de gabinete de Salazar entre 1944 e 1946. Assumiu ainda a Direcção Geral do Ensino Liceal, o Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (1951- 1955) e o Diário da Manhã (1956-1959). Foi também deputado à Assembleia Nacional em 1942, 1961 e 1965, membro da comissão administrativa da FNAT, da comissão executiva da União Nacional e dos Serviços de Acção Social da Legião Portuguesa. Integrou o conselho de administração da Companhia Portuguesa Rádio Marconi. Na Mocidade Portuguesa foi adjunto dos Serviços de Intercâmbio.

430

AMC, Caixa 1, MOCIDADE PORTUGUESA, n.º 2, Anexo 1. Carta de 2 de Abril de 1941, enviada por José Manuel da Costa a Marcelo Caetano.

431

Ainda sob desconfiança portuguesa, a organização falangista que tinha sob alçada a (...)

orientação política e a direcção espiritual das Universidades (...)432, procurou retomar as relações com a Mocidade Portuguesa em meados de 1943. Numa visita a Lisboa, agendada para Junho desse ano, por quatro dos dirigentes do organismo, Marcelo Caetano coibiu-se de prestar informações concretas sobre a posição oficial do país face ao quadro externo, relatando a Salazar as pressões exercidas por espanhóis e ingleses para conhecer as perspectivas do regime para o pós-guerra.433A respeito de um eventual desenvolvimento das relações luso-espanholas, onde a estratégia de aproximação pelo SEU fora iniciativa da directa do conde de Jordana, o dirigente da M.P. conservava fortes reticências.434

A partir de 1944, foi a vez dos representantes portugueses da Mocidade pretenderem um

reatamento e intensificação das relações luso-espanholas, junto da secção desportiva da Frente de

Juventudes. Criado em 1940 sob dependência da Falange com o fim de unificar a juventude em torno do partido único, embora nunca o conseguisse, o movimento participaria mais intensamente, a partir desta altura, na realização de campeonatos entre os dois países.435

4.4. Propaganda na MP e MP como propaganda

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