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5.9 Noise for Short Pulse Lengths

A elaboração dos capítulos I e II desta pesquisa, essencialmente históricos, foi inspirada nos pressupostos de um gênero historiográfico surgido na Itália durante os anos 1980, conhecido como micro-história. Carlo Ginzburg é o seu principal representante e sua obra Mitos, Emblemas, Sinais 49 revela, conforme Vainfas, 50 o início da trajetória dessa corrente historiográfica.

Sobre a micro-história, Vainfas ensina:

À semelhança da história das mentalidades, a micro-história se debruçou preferencialmente sobre temas deixados à margem, quer pela história convencional ou historicista – apegada aos grandes personagens ou eventos –, quer pela história social dedicada às estruturas sócio- econômicas das grandes totalidades – países, épocas, regiões. 51

49 GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. Trad. Federico Carotti. 2ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

50 VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

Lucia Guimarães, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, destaca que a micro- história é mal compreendida, ora confundida com a história cultural, ora com a história das mentalidades e com a história do cotidiano. Isso porque

A micro-história opera com escala de observação reduzida, exploração exaustiva de fontes, descrição etnográfica e preocupação com a narrativa literária. Neste sentido, contempla, sobretudo, temáticas ligadas ao

cotidiano de comunidades específicas – referidas geográfica ou sociologicamente – às situações-limites e às biografias ligadas à reconstituição de microcontextos ou dedicadas a personagens extremos,

geralmente vultos anônimos, figuras que por certo passariam despercebidas na multidão. 52

Segundo Vainfas, “os recortes privilegiados” pela micro-história “foram sempre minúsculos: a história de indivíduos, comunidades, pequenos enredos construídos a partir de tramas aparentemente banais, envolvendo gente comum”. 53

É dessa perspectiva, portanto, que esta pesquisa construiu a história do debate sobre o marco inicial do trabalho batista no Brasil.

9. Metodologia.

9.1 Método de Abordagem.

Embora os especialistas possam discutir se há ou não distinção entre método e métodos, o método, no singular, significa a abordagem mais ampla na elaboração da pesquisa científica. Diz respeito à sua natureza filosófica, a razão mesma do método utilizado na pesquisa. É esse o método de abordagem, que, segundo Marconi e Lakatos, “engloba o indutivo, o dedutivo, o hipotético-dedutivo e o dialético” 54.

O método hipotético-dedutivo foi escolhido para a elaboração desta pesquisa. Esse método “se inicia pela percepção de uma lacuna nos conhecimentos, acerca da qual formula hipóteses e, pelo processo de inferência dedutiva, testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela hipótese” 55. Como já foi afirmado, o debate sobre as origens do trabalho batista no Brasil não foi ainda analisado a partir da mediação de gênero como instrumento hermenêutico. Essa análise, proposta desta

52 GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal. Vainfas, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro -história. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 23, no. 45, p. 317-318, 2003.

53 VAINFAS, Ronaldo. Op. cit. p. 106.

54 MARCONI, Marina de Andrade, LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 5ª. ed. São Paulo: Editora Atlas, 2003, p. 221.

pesquisa, pode oferecer outra interpretação quanto ao resultado final do referido debate, deslocando o conflito da área da historiografia para aquela pertencente às questões de gênero.

A primeira etapa da pesquisa compreendeu o levantamento e a seleção de fatos históricos documentados a partir de fontes primárias (anais da Convenção Brasileira) e secundárias (edições de O Jornal Batista e do Batista Paulistano), para a compreensão do problema. A preocupação inicial foi a de demonstrar que o debate era também objeto de pesquisa pertencente à área das questões de gênero, vez que esse conflito e o registro de suas etapas nos documentos históricos, jamais foram analisados através da perspectiva de gênero entre os batistas. Tais documentos, ao serem examinados a partir dessa ótica, revela ram o material necessário para esta pesquisa, denunciando lacuna no campo do conhecimento historiográfico batista. Desse modo, o gênero, enquanto categoria de análise social, se constituiu instrumento importante para oferecer uma outra leitura do debate, com implicações políticas significativas.

No trabalho para se provar que o debate era objeto de pesquisa legítimo da área de gênero, descreveu-se o contexto social, cultural, político e religioso, para destacar a influência da dominação patriarcal nas principais instituições sociais dos anos 1960-1980. Desse modo, a pesquisa procurou relaciona r as etapas do debate, bem como as mudanças e conflitos nas relações sociais de gênero e poder observados entre os batistas, com as influências dos principais movimentos sociais daqueles anos, dentre eles, principalmente, os movimentos de mulheres e feminista no Brasil. A suposição central que se buscava provar era que havia conexão ideológica entre esses movimentos e o trabalho perseverante de Betty de Oliveira. Essa conexão foi deduzida, porque a protagonista do debate não admite que tenha sofrido influências dos movimentos feministas em seu trabalho junto à Convenção Brasileira. 56

A adoção do método hipotético-dedutivo para esta pesquisa ofereceu a verificação de conseqüências particulares no campo das relações sociais de gênero entre os batistas: nomeação de mulheres para cargos significativos da Convenção e o conflito gerado por conta da questão sobre a ordenação feminina ao ministério pastoral nos anos 1970.

56 OLIVEIRA, Betty Antunes de. Entrevista concedida a Alberto Kenji Yamabuchi. Tijuca, RJ. 18 dez. 2007. 16h30m.

A descrição do contexto social, cultural, político e religioso dos anos 1960- 1980 fez parte do planejamento da pesquisa, como forma de pôr à prova as hipóteses levantadas sobre a trajetória histórica do debate. O levantamento de dados sobre as mudanças e conflitos nas relações de gênero e poder observados na sociedade e nas três igrejas cristãs históricas contemporâneas dos batistas (Igreja Metodista no Brasil, Igreja Presbiteriana do Brasil e Igreja Católica) favoreceu a interpretação de que os movimentos de mulheres e feministas estavam influenciando significativamente a ordem social dominada pelo sistema patriarcal.

9.2 Métodos de Procedimento.

Foram adotados e combinados dois métodos de procedimento: o histórico e o comparativo. Os métodos representam as etapas mais concretas da investigação. a) Método histórico:

Consiste em investigar acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje, pois as instituições alcançaram sua forma atual através de alterações de suas partes componentes, ao longo do tempo, influenciadas pelo contexto cultural particular de cada época. 57

O debate sobre o marco inicial batista brasileiro foi um dos eventos importantes na história da Convenção Brasileira nos anos 1960-1980 que indiretamente fez parte de um movimento de emancipação da mulher batista brasileira. Esse movimento, inspirado e motivado pelo contexto sociopolítico da época, ganhou força de forma lenta e progressiva na denominação e culminou na ordenação de mulheres ao ministério batista a partir dos anos 1990.

b) Método comparativo:

Considerando que o estudo das semelhanças e diferenças entre diversos tipos de grupos, sociedades ou povos contribui para uma melhor compreensão do comportamento humano, este método realiza comparações, com a finalidade de verificar similitudes e explicar divergências. 58

O estudo comparativo das igrejas batista, metodista, presbiteriana e católica no que diz respeito às mudanças e conflitos nas relações sociais de poder e de gênero ofereceu um quadro ilustrativo sobre como as influências sociais podem determinar a

57 MARCONI, Marina de Andrade, LAKATOS, Eva Maria. Op. cit. p. 107. 58 Id. p. 107.

dinâmica do funcionamento das estruturas eclesiais a ponto de mudar suas trajetórias históricas.

9.3 Técnicas.

Corresponde à parte prática de coleta de dados. O levantamento de dados desta pesquisa envolveu o trabalho com documentação indireta e direta:

1) Documentação indireta – pesquisa documental (fontes primárias) e pesquisa bibliográfica (fontes secundárias). “A característica da pesquisa documental é que a fonte de coleta de dados está restrita a documentos, escritos ou não, constituindo o que se denomina de fo ntes primárias”. 59 Como fontes primárias, este trabalho selecionou e consultou atas das assembléias da Convenção Brasileira.

Segundo Marconi e Lakatos, a pesquisa bibliográfica, por sua vez,

Abrange toda bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, material cartográfico etc., até meios de comunicação orais: rádio, gravações em fita magnética e audiovisuais: filmes e televisão. 60

As edições de O Jornal Batista e Batista Paulistano se constituíram as principais fontes secundárias da pesquisa. Nelas, os editoriais e artigos revelaram os conflitos nas relações sociais de gênero e poder observados durante as etapas do debate sobre o marco inicial batista.

2) Quanto à documentação direta, cujo levantamento de dados é feito no próprio local da ocorrência dos fenômenos foi preciso lidar com uma situação inesperada, que será exposta mais adiante. Como ensina Marconi e Lakatos, essa documentação pode ser levantada através da pesquisa de campo ou da pesquisa de laboratório. Neste trabalho, optou-se pela pesquisa de campo na linha da observação direta intensiva, com a técnica da entrevista despadronizada ou não-estruturada. Nessa entrevista

O entrevistador tem liberdade para desenvolver cada situação em qualquer direção que considere adequada. É uma forma de poder explorar mais amplamente uma questão. Em geral, as perguntas são abertas e podem ser respondidas dentro de uma conversação informal. 61

59 MARCONI, Marina de Andrade, LAKATOS, Eva Maria. Op. cit. p. 174. 60 Ibid. p. 183.

As perguntas do tipo abertas: “também chamadas livres ou não limitadas, são as que permitem ao informante responder livremente, usando linguagem própria, e emitir opiniões”. 62

A primeira dificuldade encontrada para atender ao levantamento da documentação direta, através da pesquisa de campo com entrevistas foi localizar os líderes ou ex-líderes que participaram de forma ativa no debate. Na verdade, três foram os principais protagonistas do conflito: o Pastor Reis Pereira, falecido, o Pastor Ebenézer Cavalcânti, também falecido e Betty Antunes de Oliveira.

Desse modo, só Betty Antunes de Oliveira foi entrevistada. Como o pesquisador optou pela entrevista não-estruturada com perguntas abertas, esperou que essa técnica pudesse favorecer o levantamento de maiores detalhes sobre a história não contada do debate sobre o marco inicial batista. Isso se verificou mais tarde. Porém, quando o primeiro contato foi feito com Betty de Oliveira, por telefone, a entrevistada não autorizou a gravação da conversa. Isso se repetiu em outros contatos telefônicos. Posteriormente, em visita pessoal ao seu domicílio no Rio de Janeiro em 18 de Dezembro de 2007, o pesquisador precisou acatar mais uma vez a recusa da entrevistada em gravar a conversa, embora ela tenha assinado (com alguma resistência) o termo de consentimento livre e esclarecido, documento recomendado pelo Conselho Nacional de Saúde – Resolução CNS 196/96. 63 Por isso, toda vez que Betty de Oliveira for citada como entrevistada nesta pesquisa, o que foi registrado como sua palavra é interpretação pessoal do pesquisador.

10. Estrutura da pesquisa.

Este trabalho está organizado em cinco capítulos:

Capítulo 1 – O debate sobre a história das origens do trabalho batista no Brasil – nesse capítulo foram apresentados a própria história do debate e os principais protagonistas do debate, o Pastor José dos Reis Pereira e a jornalista Betty Antunes de Oliveira, cujos papéis foram de fundamental importância para a condução das discussões sobre o marco inicial batista.

62 MARCONI, Marina de Andrade, LAKATOS, Eva Maria. Op. cit. p. 204.

63 A resistência de Betty de Oliveira para gravar as entrevistas pode ser explicada pelos dissabores que experimentou em sua vida pessoal, por conta do clima tenso vivido pela autora durante o temp o que durou o debate sobre o marco inicial batista. Cf. Anexo p. 372ss.

Capítulo 2 – A arena do debate: a Convenção Batista Brasileira – no segundo capítulo foi preciso, a título de esclarecimento, oferecer uma breve história da origem dos batistas, da formação de seu pensamento e da sua chegada ao Brasil, para situar o leitor dentro do tema pesquisado. Depois, a pesquisa procurou descrever como eram re-produzidos os discursos e práticas de gênero, principalmente através do O Jornal Batista, o órgão oficial de informação dos batistas, e como eles legitimavam a exclusiva dominação masculina nos lugares de poder da estrutura organizacional da Convenção Brasileira.

Capítulo 3 – O contexto sociopolítico do debate: possíveis influências do feminismo brasileiro nas relações sociais de gênero entre os batistas dos anos 1960- 1980 – a descrição do contexto maior, em seus aspectos sociais e políticos e que envolveu as etapas históricas do debate, teve como propósito relacionar as influências dos movimentos libertários com as mudanças e conflitos nas relações sociais de gênero e poder observados na Convenção Brasileira daqueles anos. Esse capítulo descreveu a trajetória dos movimentos de mulheres e a emergência da segunda onda do feminismo no Brasil em época de graves crises sociopolíticas no país. Essa descrição intencional do contexto sociopolítico proporcionou o pano de fundo necessário para fundamentar argumentos que podem favorecer a afirmação de que o debate entre Reis Pereira e Betty de Oliveira foi influenciado, de forma direta ou não, pela ideologia daqueles movimentos sociais.

Capítulo 4 – O contexto religioso: as possíveis influências dos movimentos feministas nas principais igrejas cristãs históricas contemporâneas dos batistas dos anos 1960-1980 – nesse capítulo foram selecionadas, para comparações, três igrejas representativas do cristianismo histórico: a Igreja Metodista no Brasil, a Igreja Presbiteriana do Brasil e a Igreja Católica. Os motivos para essa seleção foram expostos naquele capítulo. Após uma breve apresentação da origem histórica de cada igreja e de sua inserção no Brasil, a pesquisa perguntou pelo modo como os movimentos feministas dos anos 1960-1980 influenciaram as relações de gênero no interior da vida eclesiástica de cada denominação selecionada e como essas instituições reagiram a essas influências. A intenção do capítulo foi a de relacionar as mudanças e/ou permanências que ocorreram no meio daquelas denominações, que denunciaram influências feministas externas, com as etapas do debate sobre o marco inicial batista. A análise, a partir da categoria de gênero, da descrição desse contexto específico que tratou de levantar dados sobre possíveis transformações nas relações

de gênero e poder em igrejas contemporâneas dos batistas dos anos 1960-1980 permite demonstrar, segundo Matos,

Que o comportamento ou os valores que são aceitos em uma sociedade num certo momento histórico podem ser rejeitados em outras formas de organização social ou em outros períodos. 64

Em outras palavras, cada denominação cristã contemporânea dos batistas daqueles anos assimilou a ordem social em transformação de forma distinta. Assim, os metodistas ordenaram pastoras, ao passo que presbiterianos se recusaram a qualquer abertura nesse sentido. Os católicos, por sua vez, não ordenaram suas mulheres, mas, através das Comunidades Eclesiais de Base promoveram sua emancipação política e eclesiástica. As reações dessas igrejas diante das influências do feminismo teriam sido percebidas pelos batistas durante as etapas do debate sobre o marco inicial do trabalho batista no Brasil e, de alguma forma, orientaram mudanças gradativas na sua leitura da realidade social.

Capítulo 5 – A análise das relações e dos conflitos de gênero e poder observados durante o debate sobre o marco inicial do trabalho batista no Brasil – o trabalho descritivo dos quatro primeiros capítulos preparou a análise das relações e dos conflitos de gênero e poder a partir da mediação de gênero como instrumento hermenêutico. O capítulo pretendeu demonstrar, através dos dados analisados, que o resultado final do debate dependeu mais das questões de gênero e poder do que das discussões técnicas e acadêmicas sobre o acerto histórico das origens dos batistas no Brasil.

64 MATOS, Maria Izilda S. de. Outras histórias: as mulheres e estudos dos gêneros – percursos e possibilidades. In: SAMARA, Eni de Mesquita. SOIHET, Rachel. MATOS, Maria Izilda S. Gênero

CAPÍTULO I

O DEBATE SOBRE A HISTÓRIA DAS ORIGENS DO

TRABALHO BATISTA NO BRASIL

O mundo vive de ganhadores e perdedores, e a história privilegia os primeiros. Renate Gierus. 65