• No results found

Noen skade ved nattefrost ble det ikke meldt om fra noe distrikt

In document [publikasjonen i pdf] (sider 24-31)

Sair na história aí, isso aí é bom demais, vichi rapaz do céu, [...] porque só os outros que podiam? que contavam, que conta as história deles, porque que não pode contar a nossa? Às vezes as deles não é história sofrida, a nossa é! Nós podemos contar sim, é muito bom é muito importante isso aí. (Sido, cortador-de-cana).

A epígrafe acima assinala a última entrevista que fiz com Sido na varanda de sua casa. Ainda, com o gravador ligado, agradecia a colaboração do trabalhador, e já me despedia das conversas quando ele, de forma espontânea, proferiu essas palavras. Sido fez-me pensar na representatividade de homens e mulheres que lutam no trabalho de corte-de-cana na cidade de General Salgado, na região e tantos outros lugares pelo Brasil afora.

Na pesquisa, procurei mostrar diferentes modos de vida dos trabalhadores que se constituíram na cidade, no campo e no trabalho. O Sr. João Dias e o Sr. Exupero representaram as primeiras gerações de cortadores-de-cana que se deslocaram do campo e vieram para a cidade nas primeiras safras da usina. Assim como Nelson e Marlene, ambos nasceram em General Salgado, se (re)conhecem como pertencentes ao local, como “os daqui”. Para esses trabalhadores, as duras condições de vida nas fazendas, nas lavouras de café, algodão, e outras culturas no entorno da cidade fizeram com que vislumbrassem o município como o lugar das oportunidades a partir da implantação da usina Generalco. Suas vidas na cidade foram marcadas ora por conquistas, ora por perdas, mas seguiram lutando, trilhando sonhos e esperanças por melhores condições de vida e trabalho.

Essa relação de convívio e confronto ficou marcada entre “os daqui” e “os de fora”. Sido veio recentemente, na década de 1990, e se identifica como “daqui” da cidade. Euberli, Jacildo, Chicão e Zezé se reconhecem como “os de fora”, imprimindo ritmos e escolhas, foram se constituindo na cidade em diversos espaços e lugares vivendo relações de convívio e conflitos entre eles e “os do lugar”.

Com esse trabalho, apontei às implicâncias políticas enfatizando inclusive que a luta em torno da apropriação dos espaços na cidade entre os “de fora” e os “do lugar” não pode ser entendida de forma tão esquemática. Essas áreas e as cidades apontadas como “harmônicas”

pela imprensa regional, foram apropriadas por esses trabalhadores através de disputas por lugares e trabalhos.

Ao problematizar as matérias veiculadas pel’O Jornal de General Salgado, foi possível perceber a natureza da constituição histórica recente dessa cidade, entendendo que os resultados dessa produção local não produziram apenas “explicações” sobre sua história, mas, sobretudo, forneceu justificativas para instituir uma memória e legitimar projetos dominantes e as relações políticas ali constituídas, seja da administração local ou seja do empresariado, a partir da implantação da Usina Generalco na cidade.

Portanto, ao me inscrever nesse debate, tinha a consciência de que deveria compreender essas relações sociais em disputas para além da cidade de General Salgado. As tensões, os diferentes projetos sobre a expansão do álcool, dos biocombustíveis, das transformações no campo e na cidade e a presença dos trabalhadores cortadores-de-cana, foram alvos e ganharam destaques nas páginas do Diário da Região. Esse Jornal expressou e (re)alimentou (a) reações de diferentes segmentos da sociedade na região.

Não foi uma tarefa fácil ampliar o olhar para dimensões mais amplas desse processo histórico vivido pelos trabalhadores – sem perder de vista a cidade, o campo, as relações de trabalho e outras noções que foram problematizadas ao longo do texto. Foi possível compreender um campo marcado por disputas em torno de hegemonias e produção de memórias sobre a presença dos trabalhadores cortadores-de-cana na cidade e região. Busquei analisar esse processo histórico em transformação na cidade e no campo e o lugar que esses trabalhadores ocuparam e ocupam nele.

Por fim, a experiência de trabalhar com fontes orais, de fato, não foi tarefa fácil. Porém, aprendi que a transformação, a mudança, a restituição (a troca) iniciava a cada convite de Zezé para sentar no chão de sua humilde casa e tomar um copo de refrigerante, ou de Sido para mostrar a casa que conquistou como trabalhador no corte-de-cana etc. Foi a partir do diálogo, que construí com os trabalhadores esse texto de co-autoria.

Nas palavras de Déa Fenelon:

Queremos pois fazer História com o compromisso social de dar visibilidade a outros sujeitos até aqui excluídos, para que possam recuperar seu lugar, de onde foram excluídos, reavivando suas lembranças e narrativas, por exemplo, consciente de que isto representa uma posição clara e assumida de concretizar uma maneira de fazer História, pois, só assim podemos reescrever outras histórias em que pessoas se reconheçam, uma História que lhes diga algo ou com a qual possa se identificar. [...] Aí está, pois, o nosso

166

campo de atuação, como historiadores comprometidos no social, não apenas interessados em narrar e descobrir o acontecido no passado, mas buscar a transformação no presente e a construção de um futuro diferente do que temos hoje.246

As experiências sociais vividas por esses cortadores-de-cana enunciaram as lutas para garantirem a sobrevivência entre o campo e a cidade. E quanto ao futuro desses trabalhadores no corte-de-cana? Finalizo com as palavras de Sido que permeou as discussões ao longo do texto: “amanhã é outro dia”. Compreendendo que a expressão (fala) é construída nas relações sociais vividas, coloca-se, a história em movimento, em perspectiva de luta no presente, na busca de construir um futuro melhor para viver e trabalhar.

246 FENELON, Déa Ribeiro. História Social, Pesquisa Histórica e a Formação do Profissional de História. In:

FONTES

Periódicos e publicações especializadas

Jornal Diário da Região: São José do Rio Preto, exemplares publicados no período de 2000 – 2008.

O Jornal de General Salgado. Exemplares publicados no período de 1980 – 1989. Jornal Folha de São Paulo. Caderno mais. 24 de agosto de 2008.

Revista Visão Regional. General Salgado. Edição única em 1983.

PROJETO DE LEI Nº. 42/82: autoriza a Prefeitura Municipal assumir obrigações em contratos de financiamentos para construção de unidades habitacionais populares no Município.

Projeto: Alerta as autoridades Paulistas! O território das terras do sol pede socorro! Desenvolvido pela prefeitura de Jales

Revista Exame:

http://portalexame.abril.com.br/static/aberto/anuarioagronegocio/edicoes_0895/m0131 35.h ml. Acesso em 23 de janeiro 2008.

Fonte: http://www.udop.com.br/associadas/generalco.php Acesso em 2 de setembro de 2007. Site da empresa: www.generalco.com.br. Acesso em 2 de setembro de 2007.

Compromisso Nacional Para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar. www.siamig1.com.br/.../Compromisso%20Trabalhista%20-%20Final.doc. Acesso em 03 de agosto de 2008.

Entrevistados

Adão Francisco dos Santos, 36 anos, natural de Iuiu na Bahia. Desde cedo trabalhou nas lavouras de café e algodão. Iniciou o trabalho no corte de cana com 23 anos de idade. O trabalhador é conhecido entre os amigos da roça e no bairro da cidade como Chicão. Entrevista realizada com Chicão. General Salgado. 21/08/2008. Entrevista coletiva realizada com Chicão, Zezé e Euberli. General Salgado. 25/08/2008. Acervo do pesquisador

Maria José dos Santos, 40 anos, conhecida como Zezé. Mãe de três filhos com o primeiro marido, Zezé também trabalha no corte-de-cana há alguns anos, além de cuidar dos filhos, do marido e do lar. É casada com Chicão. Entrevista coletiva realizada com Chicão, Zezé e Euberli. General Salgado. 25/08/2008. Acervo do pesquisador. Entrevista realizada com Zezé. General Salgado. 23/08/2008. Acervo do pesquisador

168

Euberli Ferreira Lopes, 31 anos, solteiro, nasceu na capital em São Paulo. Ainda na infância, voltou para Iuiu na Bahia com os pais para fabricar portões. É a primeira vez que está na cidade de General Salgado para o corte-de-cana. Entrevista coletiva realizada com Chicão, Zezé e Euberli. General Salgado. 25/08/2008. Acervo do pesquisador. Entrevista realizada com Euberli. General Salgado. 23/08/2008. Acervo do pesquisador

Jacildo Pessoa da Silva, 29 anos, natural de Buíque, Pernambuco. Ele trabalha no período entre-safra e mora no Conjunto Habitacional da cidade, com amigos e parentes. No término da safra o trabalhador volta para Buíque, Pernambuco, onde fica com a família. Entrevista realizada com Jacildo. General Salgado. 22/07/2008. Acervo do pesquisador.

Sr. Exupero Sabino de Oliveira, com 84 anos, nasceu em Paramirim na Bahia, veio primeiramente para as plantações de lavouras de café e algodão nas fazendas da região e, posteriormente, para a cidade e, no início da década de 1980, com toda a família. Exupero trabalhou como cortador-de-cana na primeira turma da Usina Generalco. (In memorian). Entrevista realiza com Sr. Exupero. General Salgado. 16/08/2006. Acervo do pesquisador O Sr. João Dias, 77 anos de idade, mora no Bairro Jardim das Flores, chegou à cidade no final da década de 1970. Com sua esposa, Dona Adelina, criou os sete filhos, trabalhando como agricultor em terras arrendadas nas mediações da cidade. As dificuldades para a manutenção da casa e as dividas adquiridas como agricultor fez com que o trabalhador iniciasse a atividade no corte-de-cana na velhice. Entrevista realizada com o Sr. João Alvino Dias, 28/10/2006. Acervo do pesquisador

Nelson Manoel dos Santos foi meu vizinho durante alguns anos na Cohab Orlando Gabriel. Tem 44 anos de idade, é casado, pai de dois filhos e mora no bairro Jardim Santo Antônio. A vinda para a cidade representou expectativas e possibilidades de ganhos. Nelson nasceu aqui em General Salgado, trabalhou desde muito cedo nas lavouras de algodão e em outras culturas no campo. Entrevista realizada com Nelson. General Salgado. 16/07/2008. Acervo do pesquisador.

Marlene Nogueira Lopes, 34 anos, mãe de Camila e Guilherme, procurou a todo o momento participar da entrevista. Ela sabia que o interesse da pesquisa era discutir com seu marido os modos de vida dos cortadores-de-cana na cidade. Marlene buscou, desde o começo da entrevista, sua inserção neste diálogo. Entrevista realizada com Marlene. General Salgado. 16/07/2008. Acervo do pesquisador.

Sidalino Cruz Barbosa, 39 anos, casado, pai de seis filhos, conhecido no bairro Jardim das Flores e pelos amigos como Sido. Nasceu em Pindái, na Bahia. Foi o primeiro cortador-de- cana com quem estabeleci contato. Entrevista realizada com Sido. General Salgado.14/07/2008. Acervo do pesquisador.

In document [publikasjonen i pdf] (sider 24-31)