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A presença do bebop jazz em The Subterraneans é abordada neste estudo com o intuito de investigar a forma como Jack Kerouac posiciona este estilo marginalizado em sua narrativa, sendo visto como uma possibilidade o deslocamento do até então periférico para o centro da atenção na narrativa. Como dito anteriormente, esse processo de arquivar elementos que até então não eram vistos como dignos de atenção por sistemas de legitimação cultural,

68 “Se tivessem me misturado àquilo, Dean jamais voltaria a me ver outra vez. Ele teria de percorrer todos os

Estados Unidos vasculhando cada depósito de lixo, de costa a costa, antes de me encontrar embrionariamente enroscado entre o lixo da minha vida, da vida dele e de todo mundo – os que tinham e os que não tinham nada a ver com isso. O que diria eu para ele do fundo deste meu útero de sujeira? ‘Ora, não enche meu saco, cara, estou feliz aqui” (KEROUAC, 2007, p. 300).

como a literatura, é a expressão que Aleida Assmann (2011) denomina contramemória.

A subcultura formada pela Geração Beat busca distanciar-se das estruturas sociais e da visão de separações raciais do pensamento mainstream americano, realizando uma reinscrição dessas estruturas. Nas palavras de Amor Kohli: “Jazz exposes the failure of America to live up to its initial promise of new democratic vistas” (KOHLI, 2004, p. 105)69. O motivo dessa

falha e dessa dívida cultural são as marcas culturais deixadas pela violência da escravidão e a supressão dos valores africanos no novo mundo norte-americano, após a Segunda Guerra. Para Kohli (2004), o contato com o jazz era uma forma de conscientização da dívida cultural da população norte-americana para com a cultura negra.

Em um contexto de práticas trabalhistas pós Tayloristas e da política pós Guerra Fria, os Estados Unidos passavam, durante a metade do século XX, por um processo de homogeneização e modernização. Nesse cenário, o leque de possibilidades de culturas e personalidades foi consideravelmente reduzido. Segundo Robert Holton, a década marcada pelo conformismo era caracterizada da seguinte forma: “[...] a new inevitable stage of social evolution marked by a diminution of individuality and difference. Modernity and homogeneity seemed clearly linked” (HOLTON, 2004, p. 12)70.

Assim, a existência de um estilo musical – que surgiu às margens da sociedade, distante da cultura mainstream, e conquistou grande espaço entre grupos de artistas e admiradores da cultura afro-americana – é um sintoma da exclusão vivida por parte dos cidadãos norte-americanos, que encontram no bebop uma forma de escape da cultura opressora e discriminatória. O estilo bebop surgiu em consequência da extrema popularização do seu percursor de estilo, o swing. O denominado jazz swing foi incorporado em tamanha proporção à sociedade de consumo – sendo, inclusive, usado em publicidade de produtos como batom, cigarros e roupas femininas – que para os entusiastas do jazz houve a necessidade de criar um novo estilo. Isto não significa que o bebop seja uma oposição ao swing, mas sim uma fuga aos padrões que foram incorporados a âmbitos comerciais (cf. BERENDT, 1987).

Associando o jazz bebop ao desenvolvimento de uma cultura juvenil heterogênea, Robert Holton destaca as características do estilo musical como sendo: “difficult harmonies,

69 “O Jazz expõe a falha da América de cumprir a sua promessa inicial de nova visão democrática” (Tradução

minha).

70 “[…] um inevitável novo estágio da evolução social marcado pela diminuição da individualidade e diferença.

undanceable rhythms, complex solos and eccentric personalities” (HOLTON, 2004, p. 22)71.

Dessa forma, o bebop se posicionava de maneira a recusar o público mainstream e conscientemente resistir à popularização. Devido a essa sonoridade alternativa aos estilos antecessores, o bebop causou estranhamento entre os primeiros ouvintes. Sua fuga dos parâmetros que haviam sido ingeridos pela cultura mainstream tornou o bebop um estilo difícil de ser cooptado. De início, poucos ambientes sediavam músicos desse subgênero e o seu público era reduzido a uma população que, em sua maioria, vivia às margens da sociedade e era quase sempre negra (cf. BERENDT, 1987).

O conservadorismo do swing – com sua sonoridade agradável e propícia para danças – é adequado ao estilo de vida do American Way of Life, o qual também tem como características principais o conforto e o conformismo. Em contraposição, o bebop surge como um retrato do caos urbano, criando uma cultura marginalizada que se opõe a esta zona de conforto existente na sociedade americana e sua cultura mainstream. Dessa forma, o bebop desenvolveu uma nova sonoridade, que fugia dos padrões existentes anteriormente:

O que caracterizava o bebop, para o ouvinte da época, era sua incrível flexibilidade e a sua condução melódica extremamente nervosa. As frases eram tão ágeis que pareciam apenas fragmentos. Toda nota desnecessária era deixada de lado. Tudo foi reduzido e comprimido ao extremo (BERENDT, 1987, p. 31).

A compressão máxima traz como consequência a agilidade e a velocidade, características marcantes das expressões culturais do período pós-Segunda Guerra. Com o desenvolvimento de tecnologias e de meios de comunicação em massa que aceleraram o cotidiano das grandes cidades, essas expressões ágeis representam o caos urbano recém- instaurado. Essa tentativa de traduzir a velocidade e a urgência de um mundo pós-guerra também está presente na narrativa de The Subterraneans. No texto, Jack Kerouac mantém somente o essencial, eliminando em muitos casos vírgulas, pontos e separação de parágrafos. Com essa forma de escrita, o texto torna-se um fluxo de palavras, que unidas formam um ritmo urgente que se assemelha ao dito acima sobre o bebop:

[…] also the sudden gut joy of beer when the vision of great words in rhytmic order all in one giant archanged book go roaring thru my brain, so I lie in the dark also seeing also haring the jargon of the furure worlds – damajehe eleout ekeke dhdkdk dldoud, – d, ekeoueu dhdhdkehgyt [sic] – better not a more that Ither ehe the macmurphy out of that dgardent that

which strangely he doth mdodudltkdip – baseaatra – poor examples because of mechanical needs of typing, of the flow of river sounds, words, dark, leading to the future and attesting to the madness, hollowness, ring and roar of my mind which blessed or unblessed is where trees sing – in a funny wind – well-being believes he'll go to heaven – a word to the wise is enough – 'Smart went Crazy,' wrote Allen Ginsberg (KEROUAC, 2001, p. 37).72

Assim, Kerouac descreve o seu processo de escrita e seu esforço nervoso de comprimir e agilizar o texto, para assemelhar-se ao bebop. Esse processo, denominado pelo próprio autor como prosa espontânea, sugere também semelhança e influência do fluxo de consciência, presente em obras de autores modernistas como James Joyce (1882-1941) e Virginia Woolf (1882-1941). Contudo, a prosa de Jack Kerouac é ainda mais nervosa e desorganizada que a de seus antecessores, visto que a urgência do bebop é uma de suas apropriações.